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Trigo sob pressão: guerra no Mar Negro ameaça exportações de Rússia e Ucrânia

Ataques a portos e outras instalações de transporte de trigo ferem exportações russas e ucranianas, se somando à crises globais mais amplas e ponto em xeque a oferta global do grão

Ataques russos e retaliações ucranianas põem em risco exportações de grãos, agravando problemas globais de segurança alimentar (AFP)

Ataques russos e retaliações ucranianas põem em risco exportações de grãos, agravando problemas globais de segurança alimentar (AFP)

Publicado em 15 de setembro de 2026 às 07h00.

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Os ataques da Rússia e da Ucrânia contra navios e infraestrutura de exportação no Mar Negro e no Mar de Azov abriram uma nova frente na guerra, ameaçando o comércio global de alimentos e fertilizantes, revela um estudo do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS). A escalada o corre no período de maior exportação de trigo de ambos os países.

Desde o início da invasão em larga escala, em 2022, a Rússia já havia atingido áreas de produção, transporte, processamento e exportação agrícola da Ucrânia.

Moscou também bloqueou o acesso aos portos ucranianos no Mar Negro, levando Kiev a buscar alternativas pelo rio Danúbio e por rotas terrestres, que, posteriormente, também se tornaram alvos.

Segundo autoridades ucranianas citadas pelo CSIS, a Rússia atacou pelo menos 57 embarcações no Mar Negro desde junho.

Os ataques também atingiram ferrovias, instalações portuárias no Danúbio e áreas agrícolas próximas às linhas de frente, provocando uma forte redução do fluxo de cargas pelos portos ucranianos.

Ademais, ao tomar território e se apropriar da produção de grãos, Moscou também foi capaz de faturar bilhões com a revenda do trigo ucraniano.

A Ucrânia, por sua vez, intensificou os ataques contra embarcações que partem de portos russos, incluindo Novorossiysk, responsável por cerca de 40% das exportações de grãos da Rússia.

Em julho, Moscou suspendeu as exportações pelo canal Don-Azov, por onde passava cerca de um quarto das exportações de trigo russas, e as ofensivas contra Taman e Novorossiysk atingiram terminais de grãos importantes e instalações de processamento.

Consequências

Agricultor mostra grãos de trigo em 6 de julho de 2022 na região de Rostov, sul da Rússia

Agricultor mostra grãos de trigo na região de Rostov, sul da Rússia: guerra compromete exportação do alimento (Sofia Bouderbala/AFP)

O impacto ocorre justamente durante a janela de colheita e exportação do trigo de inverno, predominante em ambos os países.

As ofensivas ucranianas teriam retirado cerca de 70% da capacidade de exportação de grãos da Rússia, enquanto os ataques russos interromperam cerca de 90% dos embarques de grãos da Ucrânia.

Mesmo assim, os efeitos vão além dos dois países. Rússia e Ucrânia respondem juntas por aproximadamente 27% das exportações mundiais de trigo, e a interrupção simultânea de suas principais rotas ocorre enquanto a produção global enfrenta uma série de problemas climáticos. Os contratos futuros de trigo em Chicago já atingiram os níveis mais altos desde 2023.

As consequências já se fazem sentir nos volumes comercializados. "Como resultado, as exportações de trigo da Rússia e da Ucrânia caíram drasticamente. Nos últimos anos, a Rússia exportou, em média, 5 milhões de toneladas de trigo em agosto; as estimativas para as exportações russas de trigo em agosto de 2026 variam de 3,0 milhões a 1,5 milhões de toneladas métricas, o que representa uma queda de até 70% nas exportações russas do grão nesse mês", diz o CSIS.

"Analistas projetam um volume total de exportação de trigo da Rússia de 5,6 milhões de toneladas para o período de julho a setembro, uma redução de cerca de 50% em relação aos 11,3 milhões de toneladas exportadas pelo país no mesmo período do ano anterior. Espera-se que as exportações de grãos da Ucrânia em agosto correspondam a aproximadamente um terço do volume exportado pelo país em agosto de 2025", diz.

Os dois países tentam compensar as perdas por meio de rotas alternativas, mas essas rotas não têm capacidade equivalente à dos portos do Mar Negro e do Mar de Azov.

A Rússia vem redirecionando cargas para portos do Báltico, enquanto a Ucrânia depende cada vez mais de ferrovias, estradas e do Danúbio, com custos mais altos, logística arriscada e capacidade limitada.

No caso ucraniano, a situação é agravada, em particular, pelas condições do Danúbio. O calor extremo e a baixa precipitação reduziram o nível do rio a mínimas históricas, reduzindo a capacidade dos navios, elevando os fretes e formando longas filas de embarcações.

Ataques russos contra o porto de Izmail — o maior porto ucraniano no Danúbio — também dificultaram o uso da rota.

Crises que geram crises: um mundo interligado

trigo

Problemas em uma parte do mundo geram e agravam crises não relacionadas em outra; mudanças climáticas pioram ainda mais a situação (David Gray/Reuters)

A pressão sobre a oferta também é reforçada pela expectativa de queda na produção de outros importantes exportadores, especialmente por causa das secas e fenômenos climáticos, agravados ainda mais pela intensificação do El Niño deste ano.

Segundo dados citados pelo CSIS, a produção combinada dos sete maiores exportadores de trigo deve recuar 11% na safra 2026/27, enquanto os Estados Unidos podem registrar uma queda de 26%, atingindo o menor nível desde a safra 1970/71.

Em agosto, o índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) apontou que o trigo estava 15% mais caro do que no ano anterior.

Uma alta prolongada pode afetar sobretudo os países dependentes de importações, elevando os preços dos alimentos básicos e reduzindo o consumo de alimentos mais nutritivos e caros.

O problema também está ligado à guerra no Oriente Médio. O fechamento do Estreito de Ormuz e as ameaças à navegação no Golfo reduziram o tráfego marítimo e contribuíram para o encarecimento dos fertilizantes, enquanto ataques ucranianos já atingiram portos russos no Báltico, importante rota para esses produtos.

"A guerra entre os EUA/Israel e o Irã, somada ao fechamento contínuo do Estreito de Ormuz, está influenciando as táticas militares no Mar Negro e agravando os impactos de ataques recentes nos mercados agrícolas globais.

A disputa em curso pelo controle do Estreito de Ormuz, aliada às ameaças persistentes do Irã à livre navegação, reduziu significativamente o tráfego na via navegável do Golfo.

A eficácia dessa estratégia foi demonstrada pelas ameaças dos Houthis ao transporte marítimo comercial no Mar Vermelho, no final de 2023, e pelo bloqueio russo ao tráfego de embarcações nos portos ucranianos do Mar Negro após a invasão em larga escala de 2022", diz o CSIS.

"Segundo um instituto de pesquisa sediado no Reino Unido, as ameaças contínuas do Irã à segurança da navegação no Estreito de Ormuz podem estar normalizando ataques a embarcações civis, o que possivelmente influenciou a decisão da Rússia de intensificar os ataques a navios civis — ações que levaram à interrupção das exportações marítimas da Ucrânia."

Uma saída diplomática ainda parece distante. A Ucrânia propôs, em agosto, um cessar-fogo para interromper ataques contra alvos civis no Mar Negro, mas a Rússia rejeitou a iniciativa, enquanto negociações anteriores sobre um regime de segurança para navios agrícolas não resultaram em um acordo duradouro.

A Turquia elaborou um plano para garantir a passagem segura de navios carregados de grãos e mantém contatos com ambos os governos.

Sem uma trégua, porém, analistas do setor agrícola avaliam que a instabilidade no Mar Negro pode persistir pelo restante da guerra e continuar afetando os preços de alimentos e fertilizantes em todo o mundo.

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