Midterms: eleições de meio-mandato nos EUA revelam muito sobre clima político e podem mudar rumo do Congresso americano antes do fim do ano (JEFF KOWALSKY/AFP)
Repórter
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 06h00.
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos (midterms), marcadas para novembro, podem retirar dos republicanos o controle de grande parte do Congresso, o que pode limitar os poderes da administração trumpista na Casa Branca, segundo análise do think tank britânico Chatham House.
O instituto avalia que os democratas são hoje favoritos a conquistar a maioria na Câmara dos Representantes, enquanto a disputa pelo Senado permanece mais equilibrada.
De qualquer forma, com a maioria em qualquer uma das duas casas, os democratas poderiam bloquear propostas legislativas republicanas.
A expectativa é que isso incentive a Casa Branca a ampliar o uso de instrumentos executivos, como declarações de emergência e medidas regulatórias; afinal, caso os republicanos percam mesmo uma das casas do Congresso, Trump deixará de contar com o monopólio republicano da chamada “trifeta” governista — Câmara, Senado e Presidência — que facilitou a implementação de sua agenda.
Todavia, uma eventual vitória democrata não implicará necessariamente uma mudança profunda na condução do governo de Donald Trump — segundo o Chatham House, os democratas ainda enfrentariam obstáculos estruturais para transformar a maioria parlamentar em freios duradouros ao presidente, especialmente em áreas como política externa, nas quais Trump mantém vantagens práticas, legais e institucionais.
Entretanto, mesmo com o controle das duas casas, os democratas teriam dificuldades para aprovar mudanças próprias sem apoio republicano ou sem superar o veto presidencial.
Uma votação para restringir operações militares ou bloquear uma venda de armas, por exemplo, poderia ser barrada por Trump, sem que os democratas tenham votos suficientes para derrubar o veto.
Congresso dos EUA, decorado para a posse de Joe Biden, último presidente democrata a liderar o país: dependendo de resultado das midterms, Congresso poderá ter maioria democrata antes do fim do ano (Chuck Kennedy/White House Photo/Divulgação)
Uma das áreas em que a oposição teria maior capacidade de pressão seria a confirmação de nomeações presidenciais, especialmente para a Suprema Corte ou para o Federal Reserve, órgão monetário que regula os principais assuntos bancários do país.
Esse instrumento, contudo, só estaria disponível caso os democratas também recuperassem o controle do Senado, responsável pela aprovação dos indicados pelo presidente, avalia o instituto.
O principal ponto de influência democrata, todavia, estaria nas negociações fiscais. Segundo o Chatham, Trump depende do Congresso para financiar o governo e elevar o teto da dívida, o que limita a capacidade do Tesouro de ampliar os empréstimos públicos.
O limite atual deve ser alcançado em meados de 2027, embora medidas extraordinárias possam adiar o risco por mais seis a nove meses.
Nesse âmbito, a questão da dívida poderá se tornar um importante instrumento de barganha após as eleições. Trump pretende usar o processo de reconciliação orçamentária, que exige maioria simples no Congresso, para elevar o teto da dívida em mais US$ 5 trilhões e garantir recursos adicionais, incluindo US$ 60 bilhões para a defesa e US$ 12 bilhões em ajuda a agricultores afetados pela retaliação comercial e pelas turbulências no estreito de Ormuz.
Uma eventual maioria democrata na Câmara, contudo, impediria o uso da reconciliação, segundo a análise. Ao mesmo tempo, a própria ala republicana, mais preocupada com a disciplina fiscal, pode dificultar os planos de Trump diante do rápido crescimento da dívida pública e da resistência de parlamentares que defendem cortes de gastos.
Sob pressões financeiras, políticas e no cerne de uma série de controvérsias, Donald Trump pode vir aos holofotes novamente em caso de vitória democrata nas midterms. (Samuel Corum / Correspondente autônomo/Getty Images)
Uma mudança no controle do Congresso também deve provocar uma nova onda de investigações sobre o governo, incluindo os negócios da família Trump e a guerra com o Irã, avalia o Chatham. O instituto também destaca, porém, que a capacidade de fiscalização dos parlamentares enfrentaria dificuldades para obrigar a administração a entregar documentos e testemunhos.
A atual Casa Branca estaria mais preparada para resistir ao escrutínio do que a administração enfrentada pelos democratas quando retomaram o controle da Câmara em 2018. O governo tem recorrido a atrasos judiciais, ao descumprimento de determinações e a interpretações ampliadas do privilégio executivo para restringir a divulgação de informações.
Notavelmente, o impeachment também pode voltar ao centro da disputa política. Parlamentares democratas poderiam pressionar por um terceiro processo contra Trump ou por medidas contra integrantes de seu governo; embora essas iniciativas possam mobilizar a base democrata, o Chatham House alerta que elas também podem ser vistas como excessivas e consumir tempo e capital político sem produzir resultados concretos.
Na avaliação do instituto, os maiores limites ao restante do mandato de Trump podem vir menos do Congresso do que de crises práticas enfrentadas pelo próprio governo. Uma recessão, um choque financeiro, uma nova operação militar, uma catástrofe natural ou uma emergência sanitária poderiam pressionar a capacidade de resposta de uma máquina estatal já debilitada.
O impacto da inteligência artificial também figura entre os riscos, em um cenário em que o Congresso e a Casa Branca ainda estariam mal preparados para lidar com as consequências da tecnologia. Para aliados dos Estados Unidos, o problema é uma assimetria crescente: Trump continua capaz de provocar grandes rupturas, enquanto o próprio Estado americano teria cada vez menos capacidade de absorver e reparar os efeitos dessas rupturas.
Assim, segundo o Chatham House, as eleições de novembro podem alterar significativamente a distribuição de poder em Washington, mas não necessariamente reduzir a capacidade de Trump de agir de forma unilateral. O resultado pode enfraquecer sua maioria política sem eliminar a autonomia que o presidente acumulou ao longo do mandato.