Guerra no espaço: os EUA afirmam que mantém armamento em órbita para defesa (Freepik)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 15 de setembro de 2026 às 10h05.
O governo dos Estados Unidos confirmou, pela primeira vez, que mantém uma arma em órbita da Terra. A informação foi divulgada nesta segunda-feira, 14, pelo secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, durante a Air, Space and Cyber Conference. Em resposta, a China pediu que Washington pare de ampliar suas capacidades militares e de se "preparar para uma guerra no espaço".
Segundo Meink, a arma foi colocada em órbita para proteger as forças americanas de possíveis ações hostis. O secretário afirmou que os Estados Unidos estão preparados para “ameaças em evolução”, mas não revelou as características do armamento nem quando ele foi colocado no espaço.
Em comunicado, a Força Espacial dos EUA confirmou que o país possui “armas de controle espacial em órbita capazes de defender a Força Conjunta contra ações hostis de adversários”.
As autoridades americanas não divulgaram detalhes sobre o armamento. Em comunicado, a Força Espacial afirmou que o “controle espacial” inclui operações para disputar e controlar o domínio espacial, usando recursos “cinéticos e não cinéticos” para afetar capacidades de adversários por meio de interrupção, degradação e, se necessário, destruição.
Segundo o órgão, essas capacidades “podem ser empregadas para fins ofensivos e defensivos”.
Bleddyn Bowen, especialista do Royal United Services Institute (RUSI), afirmou ao programa Today, da BBC Radio 4, que estava “totalmente adivinhando”, mas que os EUA poderiam estar se referindo a algum sistema de guerra eletrônica ou bloqueio de sinais.
Outra possibilidade seria um sistema de destruição física de satélites. Bowen citou um “veículo de interceptação cinética de algum tipo”, que poderia atingir outro satélite com um projétil. Segundo ele, esse cenário seria menos provável devido à quantidade de detritos que poderia gerar.
A confirmação americana provocou reação de Pequim. Em coletiva de imprensa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, criticou a decisão dos Estados Unidos.
“Instamos o lado americano a parar de expandir suas capacidades militares e se preparar para uma guerra no espaço sideral”, declarou.
O governo chinês também se posicionou contra a “militarização do espaço, transformando-o em um campo de batalha, bem como uma corrida armamentista”.
Para Song Zhongping, comentarista militar independente de Hong Kong e ex-instrutor do Exército chinês, a confirmação não foi uma surpresa. Em declaração à AFP, ele afirmou que a existência dessas armas “há muito tempo é um segredo aberto”.
Segundo Song, a diferença é que Washington deixou de manter a capacidade em uma zona de ambiguidade. “A única diferença é que os EUA costumavam manter isso ambíguo, enquanto agora tornaram isso público”, afirmou.
A Rússia também reagiu à confirmação americana. Em declaração, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, defendeu que o espaço seja mantido sem armamentos.
“Estamos contando com uma ampla consolidação internacional para continuar trabalhando pela completa desmilitarização do espaço”, afirmou.
Apesar das declarações, segundo a Força Espacial americana, a China “desenvolve e opera capacidades espaciais e antiespaciais como parte de uma estratégia de modernização militar”, enquanto a Rússia “vê o espaço como um domínio de guerra” e considera a supremacia espacial decisiva em futuros conflitos.
O Tratado do Espaço Sideral de 1967 proíbe a colocação em órbita de armas nucleares e de destruição em massa. O acordo, porém, não impede outros tipos de armamentos espaciais.
Segundo Laetitia Cesari, especialista em direito espacial, existe um “vácuo regulatório”, porque o artigo 4º do tratado proíbe apenas armas de destruição em massa e nucleares em órbita.
A especialista afirmou à AFP que o tema deve voltar à agenda da ONU em novembro. Segundo ela, Rússia e China defendem há cerca de 20 anos um tratado que impeça a colocação de armas no espaço, enquanto países ocidentais trabalham com regras para um “comportamento responsável”.