Marketing

Os 5 perfis de torcedor no Brasil — e o que as marcas precisam saber antes da Copa

Estudo analisa 5.745 vídeos no TikTok e mostra como diferenças regionais de comportamento, linguagem e consumo desafiam campanhas nacionais no marketing esportivo

Copa do Mundo: estudo mapeou comportamento de torcedores nas cinco regiões do Brasil (Divulgação/Adidas)

Copa do Mundo: estudo mapeou comportamento de torcedores nas cinco regiões do Brasil (Divulgação/Adidas)

Juliana Pio
Juliana Pio

Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais

Publicado em 30 de abril de 2026 às 11h47.

Última atualização em 30 de abril de 2026 às 11h50.

Tudo sobreCopa do Mundo
Saiba mais

O torcedor brasileiro não se comporta de forma homogênea, e tratar o país como um único mercado pode comprometer estratégias de marketing esportivo. É o que aponta o estudo “Brasil: O País do Torcedor”, desenvolvido pela agência SUBA.

O levantamento analisou 5.745 vídeos publicados no TikTok entre janeiro e abril de 2026 para mapear padrões de comportamento, linguagem e consumo ligados ao futebol nas cinco regiões do país.

A pesquisa utiliza metodologia proprietária que combina três frentes — análise semiótica, processamento de linguagem natural (NLP) e etnografia digital — para examinar cada vídeo em múltiplas camadas, incluindo áudio, leitura de texto por OCR, análise de cena, sentimento e intensidade emocional.

A partir desse cruzamento, o estudo mensura variáveis como polarização, frequência de análise tática, uso de gírias regionais, arquétipos de criador e dinâmica adversarial.

O resultado é um mapa comportamental segmentado por região, que, segundo a SUBA, indica que “não existe um Brasil que torce. Existem cinco”.

Ao todo, foram identificados seis arquétipos de criador-torcedor, com distribuição desigual pelo território: o Memeiro, o Analista, o Fanático Raiz, o Narrador Performático, o Torcedor-Ator e o Influencer Lifestyle.

Os cinco perfis de torcedor no Brasil (Divulgação)

Nordeste: análise tática acima da média

O Nordeste concentra o maior nível de análise técnica entre os conteúdos avaliados. A frequência de análise tática é 3,5 vezes superior à média nacional, com presença recorrente de termos como “pressão alta”, “diagonal” e “posse de bola”.

Na prática, isso indica um comportamento orientado à leitura de jogo e à interpretação estratégica das partidas. O estudo aponta que, ao contrário da percepção comum de um torcedor guiado principalmente pela emoção, há predominância de conteúdos que detalham movimentações, sistemas de jogo e decisões em campo.

Esse padrão também altera a forma como marcas podem se inserir na conversa. Conteúdos mais superficiais tendem a ter menor aderência, enquanto abordagens que dialogam com repertório técnico e aprofundamento ganham espaço.

Sul: rivalidade como eixo central

Na região Sul, a rivalidade entre clubes aparece como principal motor de engajamento. O levantamento mostra mais de uma menção ao time adversário por vídeo, o maior índice entre todas as regiões analisadas.

Além disso, 28% dos vídeos apresentam o uso de camisa oficial, o que reforça a dimensão de identidade clubística no conteúdo. O dado indica que o futebol é tratado de forma contínua ao longo do ano, sustentado pela disputa local entre rivais.

A Seleção Brasileira mobiliza, mas não reorganiza o comportamento de forma estrutural. A lógica de oposição entre clubes segue predominante, influenciando linguagem, narrativa e escolha de temas.

Norte: futebol como identidade e pertencimento

O Norte apresenta a combinação mais específica entre sentimento e polarização. A região registra o menor índice de sentimento positivo da amostra, ao mesmo tempo em que concentra a maior taxa de polarização.

O estudo indica que o futebol, nesse contexto, não se limita ao jogo. Ele aparece associado a temas de pertencimento, reconhecimento e identidade regional. O conteúdo analisado frequentemente conecta o esporte a narrativas mais amplas sobre visibilidade e inserção no país.

Nesse cenário, competições como a Copa do Mundo ganham um papel adicional: funcionam como momentos em que a região se percebe integrada ao contexto nacional de forma mais explícita.

Sudeste: ironia como linguagem dominante

No Sudeste, o estudo identifica um padrão de linguagem: 71% dos conteúdos analisados apresentam tom irônico. Nas demais regiões, esse índice é de 11%.

O dado aponta para o uso recorrente de humor, referências culturais e construções de metalinguagem como forma de comentar o futebol. A ironia funciona como um código de comunicação, que articula distanciamento e engajamento ao mesmo tempo.

Esse comportamento também está associado à presença do arquétipo do “memeiro” e à circulação de conteúdos que misturam esporte com elementos da cultura digital. O domínio do repertório simbólico do futebol aparece como parte da construção de status dentro dessas interações.

Centro-Oeste: comportamento próximo da média nacional

O Centro-Oeste se posiciona como a região que mais se aproxima de um padrão médio. O estudo não identifica extremos nas variáveis analisadas, mas sim uma distribuição equilibrada entre os diferentes indicadores.

A região registra a maior presença física em estádios, com 11,7% dos vídeos mostrando esse contexto. Também apresenta uma linguagem mais comedida em comparação com outras regiões.

Esse conjunto de dados leva a SUBA a classificar o Centro-Oeste como um “perfil síntese”, que reflete características gerais do comportamento nacional sem acentuar tendências específicas.

Implicações para o marketing esportivo

Para Maílson Dutra, vice-presidente de data e performance da SUBA, a principal contribuição do estudo está na granularidade da análise.

“Cada vídeo foi dissecado em múltiplas camadas: áudio, OCR, análise de cena, sentimento e intensidade emocional. Não assistimos aos vídeos, nós os destrinchamos. Foram milhares de vídeos distribuídos pelas cinco regiões do Brasil. O que emergiu foi um mapa preciso, regional e comportamental”, afirma.

Segundo ele, tratar o país como um bloco homogêneo tende a reduzir a eficiência das campanhas.

“Marcas que tratarem o Brasil como se fosse um país de um único torcedor vão desperdiçar verba e oportunidade ao mesmo tempo”, diz.

O estudo também aponta para uma dinâmica temporal relevante. “A Copa cria uma janela de unidade nacional genuína, mas com prazo de validade. Saber quando o país está unido e quando ele volta às suas identidades regionais é o que separa uma estratégia que dura o torneio inteiro de uma que dura só a fase de grupos”, afirma Dutra.

Com base na análise de 5.745 vídeos, o levantamento indica que o comportamento do torcedor está diretamente ligado a linguagem, contexto cultural e identidade regional. Para marcas, a leitura é que estratégias nacionais precisam considerar essas diferenças para manter relevância ao longo do calendário esportivo.

Acompanhe tudo sobre:Copa do Mundoestrategias-de-marketingTikTok

Mais de Marketing

Crescer contratando mais gente era obrigatório. A IA revogou essa lei

Heineken lança linha Ultimate, com cerveja de 97 calorias e sem glúten

Exclusivo: Bacio di Latte lança sorvete zero e milkshake proteico

Neymarketing: o Brasil sobrevive sem ele?