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O melhor marketing da Copa não é feito por nenhuma marca

O torneio FIFA 2026 está revelando um tipo de conexão que nenhum orçamento compra e nenhuma campanha consegue fabricar

Cristiano Ronaldo: jogador chorou depois do primeiro gol feito na Copa do Mundo 2026

Cristiano Ronaldo: jogador chorou depois do primeiro gol feito na Copa do Mundo 2026

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 1 de julho de 2026 às 14h33.

Toda Copa do Mundo produz um tsunami de campanhas publicitárias, e a de 2026 – a maior da história, com 48 seleções – não fugiria à regra.

A Nike lançou um filme de seis minutos com Haaland, Mbappé e Cristiano Ronaldo. A Adidas reuniu Messi, Timothée Chalamet e uma versão digitalmente rejuvenescida de David Beckham. De brinquedos à moda, passando pelo wellness e pela inteligência artificial, produções caríssimas, com estética de cinema, feitas para parar o dedo de quem rola o feed, conseguiram muita coisa, menos…

“parar o mundo”.

O mundo não parou pelos cheeseburgers, pelas chuteiras cor-de-rosa, pelos gols narrados a plenos pulmões nas TVs alternativas ou pelos influencers entretendo as audiências dentro e fora dos estádios.

O mundo parou, sim, para assistir ao primeiro hat-trick de Messi contra a Argélia; ao goleiro cabo-verdiano Vozinha, imparável contra a Espanha (hoje uma supercelebridade com mais de 17 milhões de seguidores no Instagram, contra modestos 45 mil em sua estreia); e para ver o modesto Paraguai despachar a Alemanha nos pênaltis.

Parou, ainda, para assistir ao choro de Cristiano Ronaldo depois do primeiro gol dele no torneio e para apreciar o torcedor do Congo, imóvel feito estátua no meio da arquibancada, que fez meio planeta procurar a história do país dele.

Nada disso teve briefing, logo ou “promessa de marca”. E foram todos momentos que viraram conversa em todos os grupos de WhatsApp.

Quatro forças

Mas, afinal, o que entrega a Copa do Mundo FIFA?

Na minha visão, quatro variáveis que nenhum outro contexto reúne simultaneamente.

A primeira é a imprevisibilidade, assim como o próprio futebol. Ninguém sabe o final, existem gols do nada, frangos em bons goleiros e craques que treinaram a vida inteira voltando para casa na primeira fase. O torcedor assiste a um risco genuíno, ao vivo, sem segunda tomada.

A segunda é identidade. Todo torcedor, ou quase, já chega pertencendo a um lado. Veste a camisa antes de a partida começar, sem que ninguém precise convencê-lo a se importar. Marcas passam anos gastando rios de dinheiro para construir um vínculo que a seleção de cada um já traz instalado de fábrica.

A terceira é escala sincronizada: milhões de pessoas sentindo a mesma coisa no mesmo segundo. Uma audiência reunida no mesmo lance e no mesmo grito, em vez de espalhada ao longo da semana, cada um no seu fuso e no seu feed.

A quarta é a mais curiosa: a permissão para se afeiçoar a estranhos. Você chora com um cabo-verdiano de quem nunca ouviu falar, torce por um uzbeque que não conhecia havia um mês, vibra pelo Marrocos como se fosse o time do seu coração. A Copa abre uma janela em que pessoas sem nenhuma relação com a sua vida, de repente, importam.

Marcas grandes até conseguem comprar uma dessas quatro. Com muito orçamento, talvez duas… O pacote inteiro funcionando ao mesmo tempo está fora do alcance de qualquer investimento.

A simultaneidade é o ativo raro, e ela não se vende avulsa.

Atenção comprada não é venda garantida

Vale lembrar que nem o dinheiro oficial garante o centro das atenções. A Adidas patrocina a FIFA desde 1970 e fornece a bola de toda Copa. A Nike nunca foi patrocinadora oficial do torneio, nenhuma vez, e mesmo assim gera tanta conversa quanto a rival, às vezes mais. O maior item do orçamento raramente é o que mais rende atenção.

Na Copa de 2010, 36 mulheres entraram num estádio com vestidos laranja da cerveja Bavaria e foram retiradas pela FIFA. A ação rendeu cerca de US$ 30 milhões em publicidade espontânea, vendeu 200 mil vestidos (o triplo do previsto) e elevou as vendas de cerveja em 41% (Forbes, 2026).
Golpe de mestre.

Só que o salto ajudou as vendas daquele ano e nunca virou crescimento de longo prazo. Atenção forçada anima o trimestre, mas raramente sustenta o negócio.

É aqui que muita empresa queima dinheiro. Diante de um momento que emociona o planeta, a reação comum é reproduzir a fórmula: contrata o influenciador, força a lágrima no roteiro, monta a campanha que tenta soar espontânea. O resultado costuma ser o avesso: emoção encomendada tem cheiro de emoção encomendada, e pode ruir a confiança de quem percebe que foi manipulado.

O que dá para levar para casa

A pergunta útil, para quem decide comunicação, foge do “como faço a minha própria Copa do Mundo?” Copa você não recria, e aceitar isso é o primeiro passo honesto de qualquer estratégia.

A pergunta certa mira nas quatro forças: “Qual delas eu instalo de verdade no meu negócio, e qual preciso parar de imitar?”

O melhor marketing desta Copa não saiu de nenhuma agência porque não cabia em nenhuma. As marcas mais inteligentes entenderam isso e fizeram a única coisa sensata: chegaram perto, ficaram quietas e deixaram a emoção acontecer sem tentar assinar embaixo.

Quem comprou mídia para competir com lágrimas de verdade em campo gastou como nunca e perdeu como sempre.

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