Wall Street "chuta o urso" e engata altas expressivas nas últimas semanas

Todos os principais índices do mercado financeiro americano, o Nasdaq, o S&P 500 e o Dow Jones, estão registrando altas expressivas, gerando uma percepção de que o "mercado touro" voltou
Touro de Wall Street (David Hogan/Getty Images)
Touro de Wall Street (David Hogan/Getty Images)
Carlo Cauti
Carlo CautiPublicado em 12/08/2022 às 15:17.

Desde a metade de junho, Wall Street parece ter engatado uma marcha intensa, que está permitindo uma subida de quase 20%.

Todos os principais índices do mercado financeiro americano, o Nasdaq, o S&P 500 e o Dow Jones, estão registrando altas expressivas, gerando uma percepção de que o "mercado urso" acabou, e que o "mercado touro" está de volta em Wall Street.

O Nasdaq voltou a superar os 13.200 pontos, patamar psicológico que divide o mercado entre períodos de baixa - o famoso "mercado urso", que começa com uma queda superior a 20% - e uma correção saudável.

Entre os grandes índices das Bolsas de Valores do mundo, o Nasdaq era o único que até meados dessa semana era ainda considerado em fase de "mercado urso".

Agora, com os últimos três pregões, o índice das empresas de tecnologia dos EUA também voltou a superar essa barreira psicológica, e Wall Street definitivamente "chutou o urso" para fora da Bolsa de Valores.

Mas o que está alimentando essa nova corrida para o alto das ações americanas e do mundo inteiro?

Macroeconomia e liquidez ajudaram a "chutar o urso"

Em primeiro lugar, os dados macroeconômicos mais recentes, que demostram como a economia dos Estados Unidos, a maior do mundo, está bem melhor do que se imaginava. E esses dados positivos deram um impulso adicional ao apetite de risco no mercado.

A inflação está mais controlada do que indicavam as previsões do mercado. Em julho, os preços da produção dos EUA cresceram 9,8% no cálculo anualizado. Em outras épocas, esse teria sido um número dramático, mas na fase atual deve ser considerado um número excelente, considerando que os dados anteriores mostravam um alta de 11,8% nos preços ao produtor e que as expectativas eram de uma inflação de 10,4%.

Essa foi a primeira vez que os preços ao produtor não recuavam, desde abril de 2020.

Por sua vez, o índice de preços ao consumidor, também registrou um número melhor do que as estimativas, fechando o mês de julho em 8,5% ante os 8,7% esperados.

Os dados do "núcleo" de inflação, ajustados para preços de energia e alimentos, fecharam o mês passado com uma alta de 5,9% contra uma previsão de alta de 6,1%.

Com isso, os ativos de risco - seja Bolsas de Valores que criptoativos - voltaram a receber liquidez por parte do mercado. E a volatilidade dos mercados, calculada pelo índice Vix (o famoso "índice do medo") caiu pela primeira vez desde abril abaixo dos 20 pontos, outra linha psicológica importante.

Esse clima mais relaxado nos mercados, que levou para o "chute do urso", foi também favorecido pelo alto nível de liquidez disponível nos fundos de investimento.

Segundo o último levantamento do Bank of America Merrill Lynch, a liquidez atingiu 6,1%, o que não acontecia desde 2001.

Entre os elementos a favor do risco está a ausência de outros market movers importantes, uma vez que os próximos grandes eventos (ou seja, as decisões dos bancos centrais) estão agendados para a segunda quinzena de setembro.

Claro, os mercados vão ficar de olho no simpósio de Jackson Hole no final de agosto que reunirá os maiores banqueiros centrais e expoentes do mundo financeiro. Mas essa reunião de férias dos banqueiros centrais nunca influenciou o mercado.

Criticidades nos mercados podem levar o urso de volta

Se no curto prazo o cenário parece favorável ao touro, dois fatores que poderiam voltar a preocupar os investidores nos próximos meses não devem ser minimizados.

O primeiro diz respeito à liquidez, o verdadeiro combustível que alimenta as Bolsas de Valores.

Os investidores sabem muito bem que o Federal Reserve anunciou um plano substancial de redução de seu balanço (que superou o valor recorde de US$ 9 trilhões).

Essa política monetária restritiva deve incluir, a partir de setembro, a drenagem de mais de US$ 90 bilhões por mês entre títulos da dívida pública e papéis vinculados a hipotecas.

Nos próximos dois anos, o Fed espera uma redução geral entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões.

A liquidez injetada nos mercados pelo Banco Central dos EUA nos últimos dez anos basicamente duplicou a base monetária real (M2),  levou para uma multiplicação de sete vezes a capitalização do S&P 500.

Por causa dessa espetacular correlação direta, o mercado se pergunta se quando essa liquidez será retirada como vai ser possível para Wall Street alcançar mais resultados positivos.

A segunda grande questão que poderia interromper essa forte recuperação nas Bolsas de Valores é que, tecnicamente, o Fed não gosta nada disso.

Pode parecer contra-intuitivo, mas considerando que para o Banco Central dos EUA a luta contra a inflação não acabou, embora os números mais recentes tendam a ser animadores, uma euforia dos mercados financeiros poderia criar um “efeito riqueza” nos investidores/consumidores, que poderia ser um obstáculo à ação de redução da inflação.

Não por acaso, nos últimos dias diferentes membros do conselho do Fed discursaram em público para tentar esfriar os espíritos.

Os investidores, todavia, estão preferindo ignorar estes avisos, ansiosos por continuar a celebrar Wall Street, que após quatro meses seguidos com o "mercado urso" em casa, decidiu finalmente se livrar do companheiro indesejado e olhar de novo para o touro.