Por que os IPOs caíram 80% em Wall Street em 2022

Apenas 64 IPOs valem mais de US$ 50 milhões neste 2022. O ano passado foi recorde. Recessão e temores geopolíticos pesam muito
Wall Street (Alexander Spatari/Getty Images)
Wall Street (Alexander Spatari/Getty Images)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 06/10/2022 às 10:10.

Última atualização em 06/10/2022 às 10:10.

O ano de 2022 poderia ser um recorde negativo para Wall Street. Pelo menos considerando o número de ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) de novas empresas, que caíram 80% desde o começo do ano.

A palavra de ordem nos últimos dez meses parece ser: “fique longe do mercado”. Os IPOs estão em níveis tão baixos quanto durante o biênio 2008-2009, ano da crise dos subprimes e falência do Lehman Brothers.

A contração do mercado acionário está sendo provocada pela inflação, riscos geopolíticos e sinais de recessão, desencorajando investidores e empresas com projetos de listagem. Mas, principalmente, a isso se soma a alta das taxas básicas de juros por parte do Federal Reserve (Fed), que decidiu atuar uma política monetária muito restritiva, fechando a janela de oportunidades para novas estreias nas Bolsas de Valores de Nova York.

Poucos e pequenos IPOs em Wall Street

Os números mostram que neste 2022, em Wall Street, os IPOs que movimentaram pelo menos US$ 50 milhões foram apenas 64. Um colapso vertical em relação ao recorde do ano passado, quando as ofertas públicas iniciais no mercado de capitais norte-americano foram 397 e chegaram a inflar uma bolha. Mas também um número longe das 221 listagens registradas em 2020, ano do começo da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

E essa sangria dos números também se reflete nos valores dos IPOs, que esse ano arrecadaram nos mercados apenas US$ 6,5 bilhões, contra os US$ 142 do ano passado. E se é verdade que o ano ainda não acabou, é no mínimo improvável que aconteçam reversões dessa dramática tendência. Especialmente pelo péssimo vento que está assoprando nos mercados.

Setor tecnológico foi o que mais sofreu

Mas existe uma crise dentro da crise, que se manifesta de forma ainda mais evidente: a dos títulos tecnológicos.

Se por cerca de vinte anos as Big Tech fizeram a fortuna dos touros de Wall Street, agora estão em um momento muito delicado. O Nasdaq 100, que reúne os principais papéis das empresas de tecnologia, perdeu mais de US$ 5 trilhões desde o início do ano, registrando um prejuízo de mais de 33%. Um resultado bem pior do que o S&P 500, por exemplo, que por enquanto está em -24%.

Desde o início do ano, empresas do calibre de Netflix (NFLX34), Meta (M1TA34) e Nvidia (NVDC34) deixaram no terreno mais da metade de sua capitalização, acumulando prejuízos de centenas de bilhões e colocando todo o setor digital diante de uma crise de identidade.

O mercado urso está se demonstrando muito mais forte do que a resistência dessas empresas. Essas doses maciças de incerteza estão desencorajando os operadores do setor a abrir o seu capital. Tanto que há mais de 250 dias não se registra em Wall Street um IPO do setor de tecnologia com um valor superior a US$ 50 milhões. Um recorde superior a aquele estabelecido após a crise financeira de 2008 e até maior do que na época do crash das pontocom, no início dos anos 2000.

A lista de empresas que deveriam ter estreado em Wall Street neste 2022, mas que preferiram adiar o processo em busca de tempos melhores, é longa. Entre elas, a gigante de chips Arm, que o SoftBank queria listar, a Mobileye, controlada da Intel, passando por toda uma série de startups como MobiKwik, boAt, Oyo Hotels e Homes, Snapdeal, Droom. Na maioria dos casos, os motivos do adiamento do IPO se devem à queda do mercado de ações e à incerteza global alimentada por problemas de energia.

No entanto, há empresa que optaram por continuar seu percurso de listagem, provavelmente cientes de que a dinâmica externa pode afetar apenas parcialmente seu sucesso. O caso mais marcante é o da Porsche, cujo IPO ocorreu em 29 de setembro e foi bem sucedido, se tornando a maior oferta pública inicial da última década. Pena que ocorreu em Frankfurt, e não em Wall Street.