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Tenho ações da Casas Bahia, e agora? Especialistas explicam se vale a penar vender

Companhia declarou R$ 17,3 bilhões em dívidas e, agora, busca se reestruturar financeiramente por meio da recuperação judicial

Casas Bahia: papéis despencaram 33,33% nesta segunda-feira, 17 (Casas Bahia/Divulgação)

Casas Bahia: papéis despencaram 33,33% nesta segunda-feira, 17 (Casas Bahia/Divulgação)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 17 de agosto de 2026 às 19h09.

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O Grupo Casas Bahia (BHIA3) recebeu todos os holofotes nesta segunda-feira, 17, após protocolar o pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A companhia declarou R$ 17,3 bilhões em dívidas e, agora, busca se reestruturar financeiramente. No meio disso tudo, como fica o acionista? Segundo especialistas, os ventos não estão soprando a favor das ações. Só hoje, os papéis despencaram 33,33% a R$ 0,44.

Mas isso não quer dizer que os papéis vinham performando bem. Há exatos um mês atrás, o papel valia apenas R$ 1,05. “Casas Bahia não performa bem desde a pandemia”, diz Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing. Naquela época, as ações chegaram a valer R$ 443,81. Para o especialista, o varejo tradicional ficou para trás em relação à tecnologia de empresas como Amazon, Shopee e Mercado Livre.

“Toda essa parte de desenvolvimento e crescimento dentro do digital deixou para trás largamente Marisa, Americanas, Casas Bahia e Magalu. Quem disser que está surpreso com o papel hoje não acompanhou o mercado nos últimos seis ou sete anos, quando o papel vem derretendo e tentando mil manobras para se recuperar, mas sem conseguir” comenta Sant’Anna.

Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, concorda: a empresa já vinha em crise há tempos com “mudança de gestão, fechamento de lojas, falta de governanças, decisões erradas”, o que impactou diretamente as ações. “São empresas que estão na bolsa que só faria sentido [apostar] se tivesse uma mudança muito radical, se houvesse um turnaround e a empresa mudasse totalmente a sua condição. Se não, é perda de dinheiro.”

Mas, e para quem já tem os papéis?

Segundo Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, para quem tem ações da Casas Bahia na carteira, o momento exige realismo e disciplina. “Quem carrega o papel precisa avaliar se consegue conviver com volatilidade extrema e possível diluição futura no capital”, avalia. Os acionistas, no caso, são os últimos da fila para receberem algo.

“Na ordem de pagamentos, primeiro vem o trabalhista, depois garantia real, quirográfico e assim por diante. Fica para o acionista o que sobrar de fato. Com patrimônio negativo em R$ 8 bilhões, matematicamente sobra pouco ou nada”, afirma Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos.

Em sua visão, lembra o caso da Americanas. “Quem era sócio antes da RJ acabou praticamente zerado nessa conversão de dívida em ação. A empresa sobreviveu. O acionista antigo não”, pontua Trotta.

Em 2024, a Casas Bahia tentou uma recuperação extrajudicial, o que mostra que as medidas anteriores não foram suficientes, já que partiu agora para a recuperação judicial. Por isso, manter a posição só faz sentido se o investidor tiver horizonte muito longo, tolerância a perdas adicionais e convicção de que a operação enxuta (com fechamento de quase 300 lojas e demissões) consegue gerar caixa de forma consistente.

“Caso contrário, a redução gradual da exposição ou a saída completa costuma ser a decisão mais prudente para preservar capital”, afirma Uarian.

Seria uma oportunidade para compra?

Em casos de empresas em dificuldades financeiras, é comum que investidores sejam atraídos pela possibilidade de encontrar uma ação capaz de multiplicar o capital muitas vezes. Para Passero, porém, essa estratégia tende a apresentar resultado negativo quando analisada de forma ampla.

“Muitos investidores procuram esse tipo de empresa achando que estão comprando o bilhete de loteria, comprar uma ação para tentar fazer 100 vezes o capital”, afirma. O problema, segundo ele, é que os casos de forte valorização são exceções, enquanto as perdas nas empresas que não conseguem se recuperar podem ser muito maiores.

A lógica aparece em histórias de possíveis turnarounds envolvendo companhias como Gol, Azul, IRB e Oi. São empresas que atraíram investidores de varejo interessados na possibilidade de uma recuperação e, consequentemente, de uma multiplicação do capital. Na avaliação de Passero, esse comportamento transforma o investimento em uma espécie de aposta de bolsa.

“Para cada caso que você acerta, você perde muito mais. São muitos mais casos de perda de dinheiro”, diz.

O ponto, explica, é que a chamada esperança matemática dessa estratégia tende a ser negativa: mesmo que algumas apostas sejam vencedoras e entreguem retornos extraordinários, elas não seriam suficientes para compensar as perdas acumuladas nas empresas que fracassam.

Por isso, Passero recomenda olhar para o conjunto das empresas em dificuldades, e não apenas para os poucos exemplos de sucesso. Uma forma de testar a estratégia seria simular a aplicação do mesmo valor em diferentes companhias que passaram por problemas financeiros e acompanhar o desempenho da carteira ao longo do tempo.

“Investir não é aposta”, afirma. Para ele, apostar sistematicamente em empresas em dificuldades tende a destruir dinheiro no longo prazo.

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