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Ouro virou praticamente bitcoin, diz gestor, sobre movimento especulativo

Correção forte em fevereiro expõe posições congestionadas; mas ativo continua servindo para proteção, diz Ruy Alves

Ouro: Mesmo após o tombo, o metal ainda acumula alta de cerca de 66% em 12 meses (Freepik)

Ouro: Mesmo após o tombo, o metal ainda acumula alta de cerca de 66% em 12 meses (Freepik)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 12h12.

Depois de uma escalada quase ininterrupta, o ouro iniciou fevereiro com uma correção brusca. Na segunda-feira, 2, o metal à vista caiu cerca de 3,3%, para US$ 4.703,27 por onça, após já ter recuado quase 11% na sexta-feira anterior. Foi o pior desempenho diário desde 1983.

A prata sofreu ainda mais. Na sexta, o metal despencou cerca de 31%, no pior dia desde 1980, puxando uma liquidação ampla no complexo de metais preciosos.

O movimento interrompe uma das sequências de valorização mais intensas do setor nos últimos anos e acendeu alertas sobre excesso de alavancagem e especulação.

O principal gatilho da correção foi político-monetário. Na sexta-feira, 30, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve. O anúncio mudou de forma abrupta as apostas do mercado.

Até então, os preços refletiam um cenário mais benigno para cortes de juros, por pressão do governo americano. Warsh, ex-diretor do Fed e associado a uma postura mais dura, reforçou a leitura de juros elevados por mais tempo — ou, ao menos, de uma flexibilização mais lenta.

Com isso, o dólar se fortaleceu e aumentou o custo de oportunidade de ativos que não pagam juros, como o ouro.

Ao mesmo tempo, sinais de redução de tensões geopolíticas — especialmente entre Estados Unidos e Irã — enfraqueceram a demanda por proteção, outro pilar da alta recente.

A correção também teve forte componente técnico. Após meses de rali, os metais haviam atraído fundos alavancados, estratégias quantitativas e investidores de curto prazo, criando posições consideradas congestionadas.

Com a mudança de narrativa, o ajuste virou uma liquidação forçada: realização de lucros, chamadas de margem e desmontagem simultânea de posições compradas.

A correção validou uma leitura que já vinha sendo feita por Ruy Alves, sócio e gestor da Kinea. Em janeiro, ele passou a adotar postura mais cautelosa com o metal, apesar de manter posição comprada estruturalmente.

“O ouro segue como ativo defensivo, amparado pela desdolarização e pela fragmentação geopolítica”, afirmou à EXAME. “Mas não estamos mais no processo de bancos centrais ou de reserva de valor. Entramos no processo especulativo.”

“A volatilidade mudou completamente de figura. Tem que passar por uma correção, trocar de mão, a volatilidade precisa cair. Virou praticamente Bitcoin”, disse Alves.

A comparação não foi casual. Segundo o gestor, o comportamento recente do ouro e da prata deixou de refletir fundamentos de longo prazo e passou a responder a fluxos rápidos, narrativas e alavancagem — dinâmica típica de ativos especulativos.

No horizonte estrutural, parte do mercado mantém visão construtiva. Persistem preocupações com déficits fiscais dos EUA, política comercial errática e a busca de bancos centrais — sobretudo de emergentes — por diversificação de reservas.

Mesmo após o tombo, o ouro ainda acumula alta de cerca de 66% em 12 meses. A leitura predominante é que o mercado entra agora em uma fase de maior volatilidade e ajuste, sem necessariamente anular a tese de longo prazo.

A diferença é que, depois do excesso, o ouro voltou a lembrar uma regra básica do mercado: nem mesmo o “porto seguro” é imune a correções violentas.

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