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5 lições da Kinea para proteger o bolso de Trump e das eleições no Brasil

Gestora troca introspecção por alerta sobre a nova ordem dos mercados

Trump: comparada ao Capitão América por ser rápido, porém imprevisível (CHIP SOMODEVILLA /Getty Images)

Trump: comparada ao Capitão América por ser rápido, porém imprevisível (CHIP SOMODEVILLA /Getty Images)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 2 de fevereiro de 2026 às 07h55.

Entre dezembro e janeiro, a gestora de investimentos Kinea publicou duas cartas que, à sua maneira, formam um retrato de virada de ciclo. A primeira, inspirada em Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke, encerrou 2025 com introspecção e autocrítica. A segunda, adiantada à EXAME e publicada pela gestora nesta segunda-feira, 2, usou a metáfora do filme Capitão América: Guerra Civil para discutir a fragmentação institucional e a nova lógica dos mercados globais.

No centro do raciocínio da última carta está o governo dos Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump, que combina estímulo fiscal, interferência setorial e uma postura cada vez mais intervencionista. A Kinea compara o presidente ao próprio Capitão América: um agente que rompe com as instituições tradicionais para agir de forma mais rápida, porém menos previsível. Isso, segundo a gestora, aumenta a velocidade das decisões, mas compromete a estabilidade futura — com impacto direto sobre juros, ativos e risco-país.

Esse cenário de ação sem coordenação é o oposto da disciplina que a própria Kinea diz ter tentado cultivar em 2025 — um ano que começou com uma leitura equivocada sobre o dólar. A gestora acreditava que a nova política tarifária de Trump impulsionaria a moeda americana. O diagnóstico não se confirmou: incerteza na execução, cortes de gastos e ruído político enfraqueceram o dólar e congelaram o apetite por risco. O acerto veio no segundo semestre, com uma mudança de rota.

As escolhas da Kinea

A gestora passou a ser mais tática. Com eleições presidenciais no Brasil, a Kinea prefere não fazer grandes apostas unidirecionais. A candidatura de Flávio Bolsonaro, marcada, inicialmente por rejeição, soma volatilidade a um cenário que, até aqui, tem mostrado estabilidade na superfície — mas tensão no subsolo.

No exterior, os Estados Unidos caminham para um estímulo duplo em 2026: política fiscal expansionista, via Big Beautiful Bill, e um provável afrouxamento monetário com a troca na presidência do Federal Reserve, prevista para maio. A combinação lembra, em menor escala, o ambiente pós-2008 e pós-Covid, quando os ativos de risco reagiram com força.

A inteligência artificial segue como uma das maiores convicções da casa. Mas o foco mudou. O entusiasmo com investimentos em infraestrutura deu lugar a uma busca mais seletiva por empresas com receita recorrente, base de clientes crescente e vantagem operacional clara. Google, TSMC e grandes bancos aparecem como exemplos. A Kinea também destaca o setor financeiro como um dos mais promissores para aplicação prática da IA — pela escala, pelos processos e pelo potencial de ganho de produtividade.

Outro vetor de crescimento observado pela gestora está nas energias renováveis. Com o avanço tecnológico no armazenamento por baterias, a Kinea passou a investir em empresas ligadas à eletrificação, como Siemens Energy e Schneider Electric, além de ampliar a exposição a metais industriais como cobre e alumínio, considerados essenciais para essa nova infraestrutura.

A China, nesse contexto, permanece ambígua. De um lado, um setor imobiliário estruturalmente enfraquecido. De outro, investimentos crescentes em tecnologia, especialmente em plataformas de cloud e IA, mantêm o motor girando.

Nas commodities, a gestora mantém posição vendida em petróleo, diante do superávit de produção e estoques elevados. A geopolítica ainda pode gerar prêmios temporários, mas não altera o diagnóstico estrutural.

O ouro, por sua vez, segue como ativo defensivo com fundamentos de alta, amparado pela perda de confiança na previsibilidade institucional do dólar e pela fragmentação da ordem global. Mas Alves chama atenção para o início de um movimento especulativo dos metais preciosos.

"Não estamos mais no processo de bancos centrais ou busca por reservas de valor, no momento estamos no processo especulativo. Tanto que a volatilidade mudou completamente de figura. Eu acho que tem que passar por um processo de correção, tem que trocar um pouco de mão, a volatilidade tem que baixar novamente para você voltar a pensar isso como reserva de valor. Virou praticamente Bitcoin", afirmou à EXAME.

Manual de sobrevivência em cinco pontos

1. Ouro como proteção estrutural (com ressalvas sobre volatilidade)

A Kinea mantém posição comprada em ouro como forma de se proteger contra a desdolarização e a fragmentação geopolítica. A tese combina compras sistemáticas de ouro por bancos centrais (especialmente de países emergentes); busca por ativos tangíveis diante de déficits elevados nos EUA e erosão marginal da previsibilidade institucional americana.

Em 2025, a commodity já havia ganhado relevância no portfólio da gestora após o Liberation Day — anúncio do novo pacote tarifário por Trump, que provocou desvalorização do dólar e congelamento de investimentos privados.

No entanto, em janeiro de 2026, a Kinea passou a adotar postura mais cautelosa com o ativo. À EXAME, Ruy Alves afirmou que o ouro e a prata deixaram de funcionar como reserva de valor e passaram a se comportar como “instrumentos de especulação estilo Bitcoin”. Devido à volatilidade extrema, ele recomendou aguardar até que o ativo encontre uma nova base antes de retomar posições mais relevantes.

2. Hedge eleitoral na bolsa brasileira

Com visibilidade reduzida e ruído crescente no cenário doméstico, a Kinea adotou uma postura mais defensiva no Brasil.

A carteira de ações está concentrada em poucos nomes e os papéis estão hedgeados (protegidos) em índice, como forma de proteção contra quedas generalizadas.

Em cenários construtivos, a gestora utiliza opções sobre o EWZ (ETF que replica o Ibovespa em dólar) para capturar altas com risco limitado.

A estratégia atual foi descrita como “enxuta e pragmática”, com foco em setores que se beneficiam do ciclo de corte de juros e que não dependem diretamente do resultado eleitoral. Entre os destaques da carteira:

  • Construtoras de baixa renda: Cury e Direcional, sensíveis à queda da Selic e com desempenho pouco correlacionado ao ciclo político.

  • Utilities (energia e saneamento): Sabesp, Copel e Equatorial, vistas como geradoras de valor e pagadoras de dividendos.

  • Financeiras e bancos: BTG Pactual, Nubank, Itaú e Bradesco, com projeções de crescimento de lucro e ganho de produtividade com uso de IA.

  • Dolarizadas e domésticas: Embraer (exposta ao dólar), Vibra e Orizon (resíduos) também compõem as principais apostas.

Já os setores evitados incluem:

  • Commodities e exportadoras: como Vale e Petrobras, consideradas distorcidas em relação aos pares internacionais.

  • Varejo: apesar do alívio com a queda dos juros, o setor enfrenta incertezas por conta do cenário eleitoral.

3. Posições em juros: aplicado no Brasil, tomado nos EUA

O cenário de juros está dividido entre os países. No Brasil, a Kinea aposta na queda de juros curtos, com posições aplicadas (esperando a queda das taxas) em momentos de abertura da curva.

Nos EUA, mantém posição tomada na parte longa da curva, refletindo o risco fiscal americano e a tentativa de Trump de estimular a economia antes das eleições de meio de mandato.

A gestora avalia que esse movimento gera crescimento nominal no curto prazo, mas aumenta o prêmio de risco da curva americana no longo prazo — típico de países emergentes.

4. Seletividade em IA: da infraestrutura à receita

Diferentemente da aposta genérica em tecnologia, a Kinea recomenda seletividade. O foco está em:

  • Infraestrutura crítica para IA, como DRAM (memórias) e TSMC (fabricação de chips);

  • Empresas que já geram receita com IA, como Google, Amazon e Meta;

  • Aplicações setoriais, com destaque para o setor financeiro, que deve se beneficiar do ganho de produtividade.

“Estamos em uma transição da fase de infraestrutura para a de aplicação prática da IA”, escreve a gestora, que vê 2026 como o ano de separação entre promessas e entregas no setor.

5. Energia renovável: baterias como novo motor do setor

A Kinea vê um novo ciclo de valorização das energias renováveis, especialmente solar e eólica, impulsionado por um fator tecnológico: o excedente de baterias produzidas para veículos elétricos está sendo redirecionado para armazenamento de energia.

Segundo o gestor Ruy Alves, essa mudança resolve um gargalo estrutural do setor, permitindo armazenar energia elétrica de fontes intermitentes com mais eficiência. Isso amplia a utilidade e o valor das fontes limpas.

A tese aparece no portfólio da Kinea de três formas:

  • Cesta comprada em renováveis: empresas como Siemens Energy, Schneider Electric, EDP Renewables e SSE aparecem como principais apostas internacionais.

  • Metais industriais: a estratégia também sustenta posições em cobre e alumínio, essenciais à eletrificação.

  • Utilities no Brasil: embora o foco em renováveis seja maior em mercados desenvolvidos, no Brasil a preferência está em utilities como Sabesp, Copel e Equatorial, que também se beneficiam da queda de juros.

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