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Mark Zuckerberg ( BRENDAN SMIALOWSKI/AFP /Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 29 de julho de 2026 às 12h01.
Última atualização em 29 de julho de 2026 às 13h37.
Banir modelos chineses de inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos não daria vantagem competitiva ao país. A avaliação é de Mark Zuckerberg, fundador da Meta, em entrevista ao Financial Times publicada nesta terça-feira, 28.
Para o executivo, empresas americanas deveriam identificar de forma sistemática os próprios gargalos, em vez de apostar em bloqueio.
“Sempre existe a questão da captura regulatória quando um grupo de empresas com seus próprios interesses realiza a revisão por pares”, disse Zuckerberg. “Será que os laboratórios de ponta... vão querer um modelo de código aberto para ter sucesso? Acho que houve alguns sinais contraditórios sobre isso.”
Ele também alertou para o risco de captura regulatória — se um grupo de empresas com interesses próprios revisar os modelos dos concorrentes, disse, laboratórios de fronteira dificilmente vão querer que um modelo aberto tenha sucesso.
A posição contraria a linha que ganhou força em Washington. Autoridades do governo Donald Trump afirmam ter evidências de que a chinesa Moonshot AI treinou seu modelo a partir de rivais americanos por um processo técnico chamado destilação. A empresa nega.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse na semana passada que sanções estão na mesa para laboratórios chineses que cruzarem a linha do roubo de propriedade intelectual, e que companhias podem ser incluídas na lista de entidades restritas do Departamento de Comércio.
O estopim tem data. Em 16 de julho, a Moonshot apresentou o Kimi K3, com 2,8 trilhões de parâmetros, cujo desempenho se aproxima do dos modelos de fronteira de OpenAI e Anthropic.
No domingo, 26, a empresa liberou os pesos do modelo para download gratuito. Qualquer desenvolvedor pode baixá-lo e rodá-lo na própria infraestrutura, sem pagar licença — o modelo que os laboratórios americanos de ponta não adotam.
A diferença de preço já move o mercado corporativo. Empresas como DoorDash, Siemens e Airbnb passaram a adotar ferramentas chinesas, atraídas por custo menor e pela possibilidade de rodá-las internamente.
Zuckerberg vem defendendo publicamente modelos de pesos abertos e alertando para o risco de a tecnologia se concentrar nas mãos de poucos grupos. É uma crítica direta ao formato proprietário adotado por OpenAI e Anthropic, que hoje dominam o mercado de assistentes.
Do outro lado, Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, defende regulação mais rígida e afirma discordar da tese de que modelos abertos facilitem a construção de salvaguardas ou favoreçam os defensores mais do que os atacantes.
Demis Hassabis, do Google DeepMind, propôs a criação de uma entidade de autorregulação nos moldes da Finra, o órgão que fiscaliza o mercado financeiro americano.
OpenAI e Anthropic afirmam ser contrárias a restrições sobre modelos abertos.
O debate também tem lastro institucional. Em 24 de julho, 25 organizações assinaram um documento intitulado "Open Weights and American AI Leadership", defendendo que a abertura, e não a restrição, é o caminho mais seguro para manter a liderança americana.
Em junho, a Casa Branca restringiu a tecnologia mais avançada da Anthropic por preocupação com a capacidade do sistema de encontrar vulnerabilidades de segurança, que poderiam afetar o sistema financeiro global.
Zuckerberg afirmou ao Financial Times que restringir as ferramentas mais potentes não é a resposta correta, porque elas também servem para identificar e corrigir falhas. Ele citou um caso recente em que uma empresa atacada não tinha acesso aos modelos fechados de fronteira, justamente por causa da restrição, e recorreu a modelos abertos para corrigir o problema.