Inteligência Artificial

Patrocinado por:

logo-totvs-preto

O inimigo da IA não é Dario Amodei, do Claude — são os juros, diz Gavekal

Para consultoria Gavekal, apelos do CEO da Anthropic para desacelerar desenvolvimento de inteligência artificial não têm impacto real; risco concreto para o ciclo de investimentos vem do custo de capital

Amodei: para Gavekal, inimigo da IA agora é outro (X/Imagem gerada por IA/Exame)

Amodei: para Gavekal, inimigo da IA agora é outro (X/Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 18 de setembro de 2026 às 07h31.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreAnthropic
Saiba mais
RESUMO +

Os juros americanos são a principal ameaça ao ciclo bilionário de investimentos em inteligência artificial, segundo relatório da Gavekal enviado à EXAME. Após o Fed elevar a taxa básica na quarta-feira (16), os Treasuries de dez anos superaram 5%. Para o analista Will Denyer, pedidos de desaceleração e restrições regulatórias não bastam para frear o setor.


O pedido de Dario Amodei, CEO da Anthropic, dona do Claude, para que a indústria de inteligência artificial (IA) "reduza o ritmo" de desenvolvimento — endossado por líderes da OpenAI e da xAI — voltou a colocar em xeque o crescimento de investimentos no setor.

Mas, segundo relatório da consultoria Gavekal enviado à EXAME, assinado pelo analista Will Denyer, nenhuma das ameaças mais discutidas no momento tem força real para frear o ciclo de investimentos, exceto uma: os juros.

Segundo Denyer, uma desaceleração voluntária coordenada entre laboratórios simplesmente não deve acontecer, além do que já ocorre hoje.

"Se algum laboratório de IA de ponta desacelerar, os concorrentes reduzirão a distância, obrigando-o a acelerar novamente ou a correr o risco de ser ultrapassado", diz.

Para Denyer, os juros americanos já eram a maior ameaça à infraestrutura de IA — e o aperto monetário promovido pelo Fed "apenas aumenta a pressão" e "merece atenção especial".

Na quarta-feira, 16, o Federal Reserve (Fed), órgão análogo ao Banco Central (BC) nos EUA, elevou os juros básicos americanos pela primeira vez desde 2023, revertendo o ciclo de cortes que vinha sendo aplicado desde então. A decisão veio em meio a um discurso mais duro contra a inflação: o presidente do Fed prometeu fazer "o que for necessário" para levar os preços de volta à meta — na contramão de apelos recentes do próprio governo Trump por cortes de juros.

O efeito imediato já apareceu no mercado de títulos. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos, principal referência de dívida do governo americano, ultrapassaram 5% pela primeira vez desde 2007.

Segundo a Gavekal, a alta reduziu ligeiramente as expectativas de inflação — a inflação embutida nos títulos TIPS de 10 anos caiu 5 pontos-base —, mas empurrou para cima os juros reais, com os próprios TIPS de 10 anos subindo 6 pontos-base.

O efeito líquido sobre os rendimentos nominais foi pequeno, mas o resultado prático se mantém: o aperto monetário do Fed já pressiona para cima o custo real do capital em toda a curva de juros — justamente o tipo de custo que sustenta boa parte do apetite bilionário de investimentos em infraestrutura de IA.

O relatório usa como referência o chamado "spread Wickselliano" — a diferença entre o retorno real sobre capital investido no setor corporativo americano e o custo real do capital. Segundo a Gavekal, sempre que esse spread cai abaixo da mediana histórica dos últimos 20 anos, aumenta significativamente a chance de uma desaceleração generalizada de investimentos.

O indicador ainda não cruzou esse limiar, mas já está perigosamente próximo dele. "Qualquer aumento adicional dos custos reais de financiamento, portanto, elevará o risco de uma desaceleração da IA de uma forma que nenhum post do blog de Amodei seria capaz de provocar", diz Denyer.

Alguém sempre vai avançar

Jensen Huang, CEO da Nvidia — que fabrica os chips usados por todos os laboratórios e também desenvolve um dos principais modelos de código aberto americanos —, não vê motivo para desacelerar. Há ainda os concorrentes chineses pressionando por trás.

"Independentemente do que Amodei, Altman e Musk façam, alguém estará levando a fronteira tecnológica adiante o mais rápido que puder", afirma Denyer.

A Gavekal traça um paralelo com a revolução do fraturamento hidráulico (fracking) nos Estados Unidos: apesar do temor de que a reação política travasse a produção de petróleo do país, isso nunca aconteceu — e o relatório aposta que o mesmo vale para data centers.

Moratórias estaduais em Nova York e no Texas, além de restrições locais, já geram atrito, mas a consultoria SemiAnalysis estima que essas restrições atrasem apenas cerca de 2,3 gigawatts (GW) de capacidade planejada nos Estados Unidos — número pequeno perto da projeção de 38 GW de capacidade adicional em 2027, contra 18 GW em 2026 e 10 GW em 2025.

Uma regulação federal mais dura poderia, sim, prejudicar o boom — mas o presidente Donald Trump já deixou claro que quer liderança americana em IA, especialmente diante da China, tornando improvável qualquer legislação nesse sentido. Na quarta-feira, a Câmara dos Representantes aprovou por 417 votos a 3 a Lei de Proteção dos Contribuintes de Serviços Públicos — mas o texto apenas pede que estados considerem exigir que data centers arquem com custos de novas usinas e melhorias na rede elétrica, sem qualquer obrigação real.

Demanda por computação segue 'insaciável'

Segundo o relatório, não há sinal de desaceleração na demanda por capacidade computacional até agora. Empresas de IA em toda a cadeia de suprimentos seguem reportando resultados sólidos, e o retorno sobre investimento de todo o setor corporativo americano atingiu recorde no último trimestre — cenário bem diferente da bolha das telecomunicações no fim dos anos 1990, que colapsou justamente quando os retornos não sustentaram o volume de investimento.

Escassez de processadores avançados, depois de energia e agora de memória, já marcou o boom de IA em diferentes momentos — mas, segundo a Gavekal, o mercado sempre reagiu elevando preços onde a oferta é escassa, o que estimula resposta de oferta e mantém o ciclo avançando, sem travar o investimento de forma definitiva.

Segundo a Gavekal, os rendimentos dos títulos talvez ainda não estejam altos o suficiente para justificar uma migração de ações para renda fixa — mas já justificam usar títulos como proteção contra o risco de que o alto custo do capital acabe, de forma inesperada, com a alta de investimentos em IA.

Se isso acontecer, o efeito tende a ser positivo para os títulos, já que a redução de investimentos em IA eliminaria uma fonte relevante de demanda privada por capital, com efeitos negativos em cadeia sobre economia e mercados.

O relatório termina com uma nota irônica: títulos também serviriam como proteção contra a extinção da humanidade, "já que esse seria um evento bastante deflacionário". "E, se estivermos errados sobre isso, quem irá reclamar?", diz Denyer.


Perguntas frequentes

Qual é a principal ameaça aos investimentos em inteligência artificial? +

Os juros americanos são a principal ameaça ao ciclo de investimentos em inteligência artificial, segundo relatório da Gavekal assinado por Will Denyer. O aumento do custo real do capital pode reduzir o apetite por projetos de infraestrutura de IA.

Por que os laboratórios de IA não devem reduzir o ritmo voluntariamente? +

Uma desaceleração coordenada é improvável porque os concorrentes ocupariam o espaço deixado por qualquer laboratório que reduzisse o ritmo, afirma Will Denyer. Segundo o analista, a empresa teria de acelerar novamente ou enfrentaria o risco de ser ultrapassada.

Como a alta dos juros do Fed afeta o setor de IA? +

A alta dos juros eleva o custo real do capital que financia data centers e outras infraestruturas de inteligência artificial. Após a decisão do Fed na quarta-feira (16), os rendimentos dos Treasuries de dez anos ultrapassaram 5% pela primeira vez desde 2007.

O que é o spread Wickselliano citado pela Gavekal? +

O spread Wickselliano representa a diferença entre o retorno real sobre o capital investido e o custo real do capital. Segundo a Gavekal, o risco de desaceleração dos investimentos cresce quando esse indicador fica abaixo da mediana histórica dos últimos 20 anos.

As restrições a data centers podem frear o avanço da IA nos Estados Unidos? +

As restrições devem ter impacto limitado, segundo a SemiAnalysis. A consultoria estima atraso de cerca de 2,3 GW de capacidade, ante uma projeção de 38 GW adicionais em 2027, após 18 GW em 2026 e 10 GW em 2025.

A demanda por capacidade computacional já perdeu força? +

Não há sinal de desaceleração da demanda por capacidade computacional, segundo a Gavekal. O relatório afirma que empresas da cadeia de IA mantêm resultados sólidos e que o retorno sobre investimento do setor corporativo americano atingiu nível recorde no último trimestre.

Acompanhe tudo sobre:AnthropicInteligência artificial

Mais de Inteligência Artificial

7 maneiras de escrever instruções eficazes para agentes de IA

79% das empresas testam agentes de IA, mas só metade colocou em produção. Entenda o motivo

Model drift: este pode ser o motivo da IA que você usa estar “pior”

Os 5 sinais de que uma IA está mentindo para você, segundo o ChatGPT