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Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 11h01.
Última atualização em 14 de setembro de 2026 às 14h38.
RESUMO | Elon Musk, Sam Altman e Dario Amodei defenderam, na última semana, uma desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial de ponta. Amodei propôs avaliações independentes e coordenação entre concorrentes para enfrentar os riscos da tecnologia. Segundo o The Information, representantes de Anthropic, OpenAI e Google discutem desde julho a criação de um órgão conjunto de padrões de segurança.
Poucos assuntos fazem os "titãs" da era da inteligência artificial (IA) concordarem uns com os outros. Mas, ao longo da última semana, Elon Musk, Sam Altman e Dario Amodei — três homens que constroem, cada um à sua maneira, boa parte do futuro tecnológico do planeta, e que raramente concordam entre si em público — endossaram, quase em uníssono, a mesma ideia: é hora de desacelerar.
A cena chama a atenção justamente pelo histórico de má relação entre os três. Musk e Altman fundaram a OpenAI juntos em 2015, mas romperam de forma pública e litigiosa; Musk chegou a processar a empresa e Altman, acusando-os de trair o propósito original sem fins lucrativos da OpenAI em favor de lucro — uma disputa judicial que se arrasta desde então, com trocas de farpas frequentes nas redes sociais entre os dois bilionários.
Amodei, por sua vez, deixou a OpenAI em 2021 para fundar a Anthropic, justamente citando divergências sobre segurança e direção da empresa — tornando a Anthropic, desde o início, uma espécie de dissidência crítica ao modelo da ex-empregadora de seu fundador. Ou seja: dos três, dois já se processaram mutuamente, e o terceiro construiu sua empresa inteira como resposta a desacordos internos com o segundo.
Apesar dessa história de atritos, foi Amodei quem deu o pontapé inicial, no sábado, 12, ao publicar um ensaio defendendo que a indústria de IA "precisa desacelerar o ritmo em que melhora as capacidades dos modelos", propondo avaliadores independentes e coordenação entre empresas rivais diante dos riscos crescentes da tecnologia.
A resposta veio rápido e de lugares improváveis. Altman endossou publicamente a proposta, revelando que desacelerar o desenvolvimento de IA de ponta já vinha sendo tema de discussão interna na OpenAI havia semanas. Musk também apoiou o plano.
Segundo o The Information, a concordância pública não nasceu do nada. Representantes de Anthropic, OpenAI e Google — abaixo do nível de CEO — já vinham se reunindo regularmente desde julho para discutir a criação conjunta de um órgão de padrões de segurança para a indústria, em encontros que seguem acontecendo até hoje.
O que pareceu uma onda espontânea de concordância pública era, na verdade, o resultado visível de meses de conversa nos bastidores entre empresas que competem ferozmente entre si por talento, capital e clientes — um nível de coordenação raro em um setor movido, até então, quase inteiramente pela lógica da corrida.
'Titãs da IA': grandes nomes do setor pedem para reduzir ritmo (Imagem gerada por IA/Exame)
Boa parte da explicação está em uma combinação de fatores acumulados nas últimas semanas, como violações de segurança recentes, desconforto crescente entre pesquisadores sobre a capacidade dos modelos mais novos, e a percepção, segundo pessoas ouvidas pelo Financial Times, de que o governo Trump dificilmente vai impor qualquer freio à tecnologia por conta própria.
"Estamos por conta própria aqui", resumiu um funcionário de um laboratório de fronteira ao FT — frase que captura bem por que rivais históricos decidiram, ainda que parcialmente, remar na mesma direção, sem esperar por Washington.
Vale notar que essa concordância está longe de ser unânime ou ilimitada. Demis Hassabis, ex-CEO do Google DeepMind, chamou a proposta de Amodei de "um passo na direção certa", mas ressalvou que alguns detalhes "precisam ser trabalhados".
David Sacks, ex-czar de IA da Casa Branca, questionou publicamente se a desaceleração seria "puramente altruísta", sugerindo que riscos de responsabilidade sobre produtos já dariam às empresas incentivo financeiro suficiente para evitar danos.
E Aidan Gomez, CEO da Cohere — empresa bem menor que as três gigantes —, foi ainda mais cortante, afirmando que as ideias são "ótimas, vindas do cartel", em referência ao risco de que grandes players usem a bandeira da segurança para consolidar ainda mais sua vantagem competitiva sobre concorrentes menores.
No fim, a aliança entre Musk, Altman e Amodei talvez diga menos sobre uma súbita conversão coletiva a valores compartilhados, e mais sobre o tamanho da pressão que os três sentem agora: escrutínio público sobre riscos existenciais, IPOs bilionários no horizonte, e dúvidas crescentes sobre até onde a tecnologia deveria avançar sem controle. Resta saber se essa trégua sobrevive ao primeiro grande desacordo real sobre quem, exatamente, deveria desacelerar primeiro.
Os três executivos apoiaram uma desaceleração diante de violações recentes de segurança, do desconforto de pesquisadores com os modelos mais novos e dos riscos crescentes da tecnologia. Segundo pessoas ouvidas pelo Financial Times, também existe a percepção de que o governo Trump dificilmente imporá limites à IA por conta própria.
Dario Amodei propôs avaliações independentes e coordenação entre empresas concorrentes. Em ensaio publicado no sábado, 12, o CEO da Anthropic defendeu que a indústria reduza o ritmo de avanço das capacidades dos modelos de IA.
Representantes de OpenAI, Anthropic e Google reúnem-se regularmente desde julho, segundo o The Information. Os encontros, realizados abaixo do nível de CEO, discutem a criação conjunta de um órgão de padrões de segurança para a indústria.
Sam Altman e Elon Musk endossaram publicamente a proposta de Dario Amodei. Altman também revelou que a desaceleração do desenvolvimento de IA de ponta já era discutida internamente na OpenAI havia semanas.
A concordância chama a atenção pelo histórico de conflitos entre os três executivos. Musk e Altman romperam após fundarem juntos a OpenAI em 2015, enquanto Amodei deixou a empresa em 2021 para criar a Anthropic após divergências sobre segurança e direção.
Demis Hassabis considerou a proposta um passo na direção certa, mas afirmou que alguns detalhes precisam ser trabalhados. David Sacks questionou se a iniciativa seria puramente altruísta, enquanto Aidan Gomez, CEO da Cohere, alertou para o risco de as grandes empresas usarem a segurança para ampliar sua vantagem competitiva.