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Selic a 13,75%: é hora de voltar a investir em ações?

Mercado repercute corte da Selic e analistas veem oportunidades em ações ligadas à economia doméstica

Bolsa: expectativa de queda da Selic muda o cenário para as ações (IA/ChatGPT/Exame)

Bolsa: expectativa de queda da Selic muda o cenário para as ações (IA/ChatGPT/Exame)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 05h00.

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Os investidores já estão repercutindo a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, 16, e se questionam qual será o próximo movimento em torno da taxa básica de juros Selic, que foi reduzida a 13,75% ao ano.

Será que além de continuar aproveitando os juros altos da renda fixa já dá para começar a aumentar a exposição às ações na bolsa de valores brasileira (B3)?

De um lado, a renda fixa ainda oferece retornos elevados com baixo risco. Do outro, a expectativa de início de um ciclo de flexibilização monetária pode abrir espaço para uma valorização de empresas mais sensíveis aos juros.

Dados do Boletim Focus divulgados pelo Banco Central hoje mostram que a expectativa do mercado aponta para uma Selic de 13,75% ao ano no fim deste ano, recuando para 12% em 2027 e 10,50% em 2028.

Selic vai cair? Mercado costuma antecipar os cortes de juros

Para o investidor que pretende esperar uma queda mais significativa da Selic antes de entrar na B3, especialistas alertam para o risco de perder parte da valorização das ações. O analista técnico de renda variável no Inter, Leandro Martins, vê que aguardar uma grande queda dos juros pode significar chegar tarde ao movimento de alta da bolsa.

"A bolsa normalmente começa a precificar a queda dos juros antes que ela aconteça de maneira mais intensa. Quando o cenário estiver completamente claro e a Selic já estiver significativamente mais baixa, uma parte importante da valorização das ações mais sensíveis aos juros pode já ter ocorrido", explicou.

Martins defende a construção gradual de posições em ações antes que a virada do ciclo esteja totalmente refletida nas cotações. Na mesma linha, o analista da Ciano Investimentos, Rafael Minotto, ressalta que o mercado financeiro antecipa cenários por meio da curva de juros futuros.

Para ele, tentar acertar o momento exato do fundo do mercado pode ser uma estratégia arriscada. "Normalmente o mercado trabalha com a precificação de expectativas via curva do DI (Depósito Interbancário) futuro, então aguardar o corte acontecer significa perder boa parte do movimento", segundo Minotto.

A curva do DI futuro reúne as expectativas dos investidores para o comportamento dos juros nos próximos meses e anos. Por isso, as projeções de queda da Selic podem começar a ser incorporadas aos preços dos ativos antes mesmo de o Banco Central efetivamente reduzir a taxa.

Minotto pondera, porém, que a Selic ainda em 14% exige mais cuidado na escolha das ações. Isso porque o Preço sobre Lucro (P/L) médio do Ibovespa, indicador que compara o preço das empresas com os lucros que elas geram, está levemente acima da média histórica ou em um nível considerado justo.

É melhor esperar a Selic cair para comprar ações?

A relação entre juros e bolsa ajuda a explicar por que o mercado pode começar a se movimentar antes dos cortes efetivos da Selic. Juros altos aumentam o custo de oportunidade de investir em ações, já que a renda fixa passa a oferecer retornos mais elevados com menor risco.

Quando a expectativa de queda da taxa básica ganha força, porém, a renda variável tende a ficar mais atrativa.

É nesse contexto que momentos de Selic elevada podem abrir oportunidades na bolsa. Para o estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, as ações tendem a ficar mais atrativas quando os juros estão altos porque o mercado costuma antecipar os efeitos de uma futura redução das taxas.

"Quando a gente fala de investimento em ações, a gente sempre tem aquela máxima, a gente tem que comprar quando as ações estão baratas e vender quando elas estão caras. E um dos momentos que as ações estão caras é quando a gente tem os juros lá embaixo e vice-versa, elas estão baratas quando os juros estão lá nas alturas", disse.

Quais setores da bolsa se beneficiam da queda da Selic?

Com a perspectiva de alívio monetário, a atenção dos investidores se volta para empresas ligadas à economia doméstica. Companhias mais dependentes de crédito e empresas com maior alavancagem financeira tendem a se beneficiar da redução do custo do dinheiro, especialmente nas áreas de construção civil e varejo.

De acordo com Martins, a queda das taxas reduz o custo da dívida das companhias e melhora as condições de financiamento para o consumidor, criando um ambiente potencialmente mais favorável para esses setores.

As empresas de menor capitalização (small caps, no termo em inglês) também aparecem entre os ativos que podem ganhar força com a queda dos juros. Essas companhias apresentam maior exposição à economia local e tendem a ter valuations mais sensíveis às mudanças nos juros futuros.

Uma parcela importante do valor dessas companhias está relacionada à expectativa de lucros futuros.

Quais ações podem se beneficiar da queda dos juros?

Além de varejo, construção civil e small caps, outros setores voltados ao mercado interno podem se beneficiar de um ciclo de redução da Selic. Saravalle cita empresas de serviços, shoppings centers, educação, saúde e utilities entre as candidatas a ganhar com a melhora do ambiente macroeconômico.

Para investidores de perfil mais conservador que desejam começar a migrar da renda fixa para a bolsa sem assumir riscos excessivos, a recomendação é priorizar companhias elétricas ou de saneamento, pois essas empresas apresentam, no geral, receitas mais previsíveis e distribuição recorrente de dividendos.

"Se o seu perfil é mais conservador, você está dando os primeiros passos. Comece por utilities, preços de energia principalmente, que são mais previsíveis, pagam bons dividendos, e depois vai aumentando o risco do portfólio sempre de acordo com o seu perfil", orienta Saravalle.

Bancos e commodities ainda são boas opções na bolsa?

A possível melhora do ambiente doméstico não elimina as oportunidades em empresas grandes e consolidadas da bolsa. Setores tradicionais, como commodities e grandes bancos, continuam negociados a múltiplos descontados e oferecem rentabilidades por meio de proventos consideradas competitivas.

Saravalle afirma que há empresas na bolsa com potencial de distribuir aos acionistas, em dividendos (dividend yield), o equivalente a 8% a 10% do valor das ações ao longo de um ano, segundo as projeções do mercado.

Se a trajetória de redução dos juros continuar nos próximos anos, o Ibovespa pode ganhar fôlego adicional para buscar novas altas até 2027. O cenário, porém, ainda exige cautela diante das oscilações nos preços do petróleo e das incertezas fiscais e eleitorais.

Quando a bolsa fica mais atrativa que a renda fixa?

Para que a renda variável se torne indiscutivelmente mais atrativa do que os títulos públicos de renda fixa, não basta uma única redução da Selic. Na avaliação dos especialistas, é necessária uma combinação de fatores econômicos.

Para Martins, do Inter, mais importante do que atingir um determinado nível para a taxa básica é o mercado enxergar uma trajetória sustentável de queda dos juros, acompanhada de inflação sob controle, expectativas fiscais ancoradas e taxas caminhando para níveis próximos ou abaixo de 12%.

Minotto também considera que a atratividade depende da inflação convergindo de forma consistente para a meta, de política fiscal crível e do recuo dos juros futuros, a fim de reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores e favorecer uma migração gradual de recursos para ativos de maior risco.

As projeções do Focus indicam inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) de 4,90% em 2026 e de 4,30% em 2027.

Como fazer a rotação da renda fixa para ações?

A recomendação dos especialistas para quem está muito concentrado em renda fixa é fazer uma rotação gradual da carteira ao longo dos próximos 12 a 18 meses. A estratégia permite que o investidor continue aproveitando os rendimentos elevados da renda fixa enquanto começa a construir posições em ações.

Além de reduzir o risco de uma entrada concentrada em um único momento, a estratégia evita que o investidor precise acertar exatamente o ponto de virada do ciclo de juros.

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