Mercado Imobiliário

Como ficam os juros da compra da casa própria com a Selic em 13,75%

Corte melhora perspectiva para o crédito imobiliário, mas taxas dos bancos não caem imediatamente

Crédito imobiliário: valor das parcelas ainda pesa na decisão de quem pretende comprar um imóvel. (Imagem gerada por IA/Exame)

Crédito imobiliário: valor das parcelas ainda pesa na decisão de quem pretende comprar um imóvel. (Imagem gerada por IA/Exame)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 10h00.

Última atualização em 17 de setembro de 2026 às 10h36.

Priorizar nos meus resultados Google

A redução da Selic de 14% para 13,75% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, 16, melhora a perspectiva para o mercado imobiliário, mas ainda está longe de provocar uma queda imediata nos juros pagos por quem financia a casa própria.

Para a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), o corte de 0,25 ponto percentual é um passo, mas não altera o quadro de forte restrição monetária. "Famílias e empresas continuam submetidas a um custo financeiro muito elevado", segundo o presidente da instituição, Luiz França.

No financiamento imobiliário, há uma razão adicional para que o alívio demore a chegar ao bolso do consumidor, porque as taxas cobradas pelos bancos não acompanham automaticamente a Selic, uma vez que o crédito habitacional depende de fontes de recursos e condições próprias.

"Apesar de a lógica sugerir que juros menores barateiem imediatamente o financiamento, economistas são unânimes em afirmar que essa relação é mais lenta e complexa", detalhou o presidente da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI), Jorge Santos.

O alívio dependerá não apenas dos próximos movimentos do Copom, mas também da disponibilidade de recursos para os bancos emprestarem e da velocidade com que a redução dos juros básicos será transmitida ao crédito imobiliário, na avaliação dos especialistas.

Quanto tempo leva para a Selic chegar ao financiamento?

A transmissão dos cortes de juros para o crédito imobiliário tende a ocorrer de forma gradual. A ABMI cita estudos segundo os quais uma redução de 1 ponto percentual na Selic provoca, em média, uma variação de apenas 0,43 ponto percentual na taxa final do financiamento. E o efeito levaria cerca de seis meses para aparecer.

Outro fator que ajuda a explicar essa demora está na poupança. O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) é uma das principais fontes de recursos para o financiamento habitacional, além do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e vem enfrentando retiradas líquidas.

Em agosto, a poupança registrou saques líquidos de R$ 10,57 bilhões. Desse total, R$ 9,51 bilhões correspondem ao SBPE, justamente a parcela ligada ao financiamento imobiliário. Foi o terceiro mês consecutivo de retiradas líquidas. No conjunto da poupança, os saques líquidos acumulados de janeiro a agosto chegaram a R$ 57,08 bilhões.

O nível das taxas cobradas atualmente também ajuda a dimensionar a distância entre o corte da Selic e um crédito efetivamente mais barato. De acordo com a ABMI, as taxas de financiamento da Caixa Econômica Federal seguem entre 11,29% e 12% ao ano mais Taxa Referencial (TR) no Sistema Financeiro da Habitação (SFH).

Custo do crédito ainda pesa para incorporadoras

O custo do dinheiro também entra na conta das incorporadoras na hora de decidir quais projetos tirar do papel. O sócio e CEO da AW Realty, Cláudio Carvalho, avalia que a decisão do Copom "ajuda um pouco o setor imobiliário, ainda que não mude, de forma relevante, o cenário de alto custo de capital para produção e compra de moradias."

O custo financeiro se soma a outras pressões enfrentadas pelas incorporadoras, entre elas o preço dos insumos e a disponibilidade de trabalhadores, na sua visão. "A AW Realty Incorporadora tem sido ainda mais criteriosa do que historicamente na definição de seus projetos e na compra de terrenos" diante do cenário.

A Abrainc também argumenta que os juros elevados reduzem a capacidade de investimento das empresas, aumentam o peso das dívidas e levam ao adiamento de projetos. Para a associação, a queda da inflação e os sinais de desaceleração da atividade reforçam a necessidade de continuidade do ciclo de redução da Selic.

Parcela ainda assusta o comprador

Na outra ponta, o impacto dos juros aparece de forma mais concreta no tamanho da prestação. Para quem depende de financiamento para comprar um imóvel, esse ainda é um dos principais obstáculos para fechar negócio, sobretudo no caso das unidades prontas, em que o crédito bancário precisa ser contratado pouco depois da aquisição.

"Hoje, o que mais trava a venda, muitas vezes, é ainda a taxa de juros que os clientes acham alta. Eles acabam achando alta, porque a prestação também fica mais alta para eles, tanto nos financiamentos de bancos privados como da Caixa", de acordo com o corretor de imóveis Davi Sacramento.

"O valor da parcela ainda assusta, principalmente porque tem muitos clientes com uma renda relativamente boa, uma renda de R$ 10 mil, R$ 15 mil, e, às vezes, quando se depara com um imóvel que vai ser financiado em R$ 300 mil, de regra, a parcela sai R$ 3 mil", detalha.

Segundo o corretor, esse peso é particularmente perceptível no SBPE, modalidade tradicional de financiamento fora das condições do Minha Casa, Minha Vida.

Imóvel pronto e na planta sentem os juros de formas diferentes

O impacto da Selic também depende do tipo de imóvel comprado, pois, nas unidades prontas, a relação com os juros bancários é mais direta porque o comprador normalmente precisa financiar parte do preço pouco depois de fechar o negócio. E as condições de crédito daquele momento afetam imediatamente a prestação e a capacidade de compra.

Nos lançamentos, a dinâmica é diferente, já que o comprador pode passar alguns anos pagando parte do preço diretamente à incorporadora antes de contratar o financiamento bancário do saldo devedor.

Durante essa fase, os valores são corrigidos pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que não é diretamente determinado pela Selic. Por isso, a taxa bancária vigente pesa mais imediatamente sobre quem compra um imóvel pronto e precisa contratar o crédito agora.

Acompanhe tudo sobre:Selicfinanciamento-de-imoveis

Mais de Mercado Imobiliário

'Corrente de oração': como a greve da Caixa impacta os corretores de imóveis

Antigo terreno da Globo no Jardim Botânico vai abrigar condomínio de mansões

Rio tem o galpão mais barato da América Latina. Santos ajuda a explicar por quê

São Paulo concentra mais da metade dos galpões alugados na América Latina