Pikachu, do jogo Pokemon: criados para o entretenimento nos anos 1990, hoje são usados como ferramenta inesperada para testar planejamento, estratégia e tomada de decisão em sistemas avançados de inteligência artificial. (Frederic J. BROWN/Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 11h23.
Os jogos de Pokémon, lançados pela Nintendo no fim dos anos 1990, ganharam uma nova função no século 21: ajudar a treinar e avaliar modelos avançados de inteligência artificial. Aquilo que nasceu como entretenimento portátil para crianças agora aparece em relatórios técnicos, apresentações corporativas e até em transmissões ao vivo acompanhadas por milhares de pessoas.
Empresas como OpenAI, Google e Anthropic passaram a usar os títulos da franquia como uma espécie de pista de testes cognitivos para seus sistemas. A lógica é simples de explicar, apesar de difícil de executar: se uma IA consegue jogar Pokémon bem, ela aprendeu provavelmente a planejar, decidir e lidar com imprevistos.
A prática ganhou popularidade com transmissões ao vivo na Twitch, como “Claude Plays Pokémon”, “GPT Plays Pokémon” e “Gemini Plays Pokémon”, em que modelos de IA jogam enquanto o público acompanha cada decisão em tempo real. Além do entretenimento, essas lives viraram material de trabalho: os resultados aparecem em apresentações oficiais e documentos internos das empresas.
Não é a primeira vez que jogos entram nesse papel. Em 2016, o AlphaGo, sistema do Google, derrotou um campeão humano no jogo de Go, marco histórico para o setor. O Minecraft, jogo de construção em mundo aberto, também já foi usado como ambiente de testes. A diferença é que Pokémon combina narrativa, exploração, estratégia e gestão de recursos em um único pacote.
Um exemplo recente vem da Kaggle, plataforma de ciência de dados do Google, que lançou a Game Arena, arena aberta que avalia modelos de IA em competições baseadas em jogos. O primeiro torneio, realizado em agosto, foi vencido pelo modelo o3, da OpenAI.
Ao longo da jornada, o modelo precisa decidir quando treinar Pokémon já capturados, quando buscar novos aliados, como lidar com dinheiro limitado e itens escassos e, talvez o mais complicado, resolver quebra-cabeças espaciais. Esses desafios estão entre os obstáculos mais difíceis para sistemas automatizados.
O fascínio extrapola o laboratório. Funcionários da OpenAI assistiram a transmissões de Pokémon geradas por GPT em uma televisão no escritório. O CEO do Google, Sundar Pichai, chegou a comemorar uma vitória do Gemini durante a conferência Google I/O. A Anthropic, por sua vez, monta estandes com o jogo em eventos do setor e mantém canais internos dedicados a acompanhar o desempenho do Claude.
Os modelos mais recentes mostram avanços claros. O Claude Opus 4.5 tenta zerar o jogo ao vivo na Twitch. GPT e Gemini já conseguiram concluir o jogo original, embora os próprios desenvolvedores reconheçam que isso depende de ferramentas auxiliares criadas especialmente para a tarefa.
No fim, Pikachu, Charizard e companhia cumprem um papel inesperado: ajudar máquinas a pensar melhor. E, de quebra, transformar um experimento técnico em espetáculo público, algo que poucos benchmarks acadêmicos conseguem fazer.