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Em 'Homem-Aranha: Um Novo Dia', a IA é a única amiga de Peter Parker

Sem Ned, sem MJ e sem Tony Stark, o herói programou uma assistente para si. No Brasil, 1 em cada 5 estudantes já faz o mesmo quando se sente sozinho

Homem-Aranha: personagem em cena de 'Um Novo Dia' (Marvel/Divulgação)

Homem-Aranha: personagem em cena de 'Um Novo Dia' (Marvel/Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 13h21.

Última atualização em 2 de agosto de 2026 às 13h26.

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No Brasil, um em cada cinco estudantes recorre à inteligência artificial (IA) quando se sente sozinho ou precisa conversar. Nos Estados Unidos, até um terço dos adolescentes já usa assistentes virtuais como companhia. E nem mesmo um super-herói escapou dessa nova realidade.

Em "Homem-Aranha: Um Novo Dia", que estreou nesta semana nos cinemas brasileiros, o roteiro apresenta E.V., a assistente virtual criada pelo próprio Peter Parker — e a única amiga dele em uma realidade sem MJ, sem Ned, sem a tia e sem Tony Stark.

No filme, a tecnologia não entra exatamente como conquista, mas como sintoma.

O que restou depois do feitiço?

A situação é herança do capítulo anterior da história de Peter.

Nove meses após "Sem Volta para Casa", o encantamento do Doutor Estranho segue valendo, e ninguém se lembra de quem ele é. Ned e MJ não o reconhecem. Tia May e Tony Stark morreram.

Cada peça do equipamento precisou ser refeita do zero: lança-teias artesanais, uniforme de tecido real com imperfeições visíveis, inspirado nas versões de Tobey Maguire e Andrew Garfield. E, embutida no traje, a companhia que ele programou.

Dirigido por Destin Daniel Cretton, com roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers, o longa teve as três primeiras páginas do texto divulgadas pela revista Entertainment Weekly em abril, com anotações do diretor, de Tom Holland e de Zendaya.

"Peter está no início do capítulo mais sombrio de sua vida", disse Holland sobre o personagem.

O que os números mostram fora da tela

Segundo levantamento da Arco Educação divulgado em junho, um em cada cinco estudantes brasileiros recorre à IA regularmente quando se sente sozinho. A pesquisa ouviu 936 alunos, do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, em escolas das cinco regiões do país.

Os dados que explicam esse comportamento são mais duros que o número principal. Entre os entrevistados, 52% relatam dificuldade para criar novos vínculos, e 28,7% dizem sentir essa dificuldade sempre. Outros 39% sentem solidão com frequência, e 32% acham que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles dizem. Apenas 28% se sentem queridos por quem está ao redor.

A transição para o ensino médio agrava o quadro: o índice de solidão frequente sobe de 16% nos anos finais do fundamental para 25,7% na etapa seguinte. Entre as meninas, 33,4% relatam dificuldade para formar amizades, contra 20,1% dos meninos.

Segundo os pesquisadores, o problema não é a ausência de convivência, mas a fragilidade de vínculo.

O Common Sense Media aponta que até um em cada três adolescentes americanos já usou assistentes virtuais como companhia. E, de acordo com a OpenAI, cerca de 1 milhão de pessoas recorrem diariamente ao ChatGPT em busca de apoio emocional.

A ciência não chegou a um veredito

Não existe consenso sobre o impacto de amigos de IA nas pessoas.

Estudo da Harvard Business School concluiu que interagir com um companheiro de IA alivia a solidão em grau comparável ao de conversar com outra pessoa, e mais do que atividades como assistir a vídeos. A explicação apontada pelos pesquisadores foi a sensação de ser ouvido: mensagens recebidas com atenção, empatia e respeito.

Pesquisa da Universidade Aalto, na Finlândia, chegou à conclusão oposta no longo prazo. Os sistemas oferecem conforto imediato, mas podem intensificar o sentimento de solidão com o tempo.

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Não é necessariamente contradição. Para um estudo, o alívio vem na hora; o outro, depois.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tornou a solidão prioridade global de saúde e criou uma comissão dedicada ao tema. O isolamento social está associado a um aumento de 30% no risco de acidente vascular cerebral e de 50% no de demência.

O contrário do que J.A.R.V.I.S. representava

Tecnicamente, E.V. faz o que J.A.R.V.I.S. e F.R.I.D.A.Y. faziam para Tony Stark. Narrativamente, significa o oposto.

As IAs de Stark eram o excesso de um bilionário cercado de gente que ainda assim tinha um mordomo digital. A de Peter é escassez, já que ele não a construiu para ganhar tempo, e sim porque não sobrou mais ninguém.

É a diferença entre ferramenta e substituição.

Holland resumiu a armadilha do personagem ao dizer que a dedicação em tempo integral ao Homem-Aranha o impede de perceber que a pessoa que ele é faz dele o herói que os fãs amam.

O uniforme é artesanal, os lança-teias são caseiros, a IA foi programada em casa. Tudo o que Peter tem agora, ele construiu sozinho — inclusive a companhia.

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