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A 'arma' de US$ 26 trilhões da China para enfrentar os EUA na corrida da IA

Ação de fabricante de chips de memória disparou mais de 500% e virou a mais valiosa do país. Pequim rompe com décadas de dependência de subsídios estatais

China x EUA: disputa pelo mercado de inteligência artificial ganha novos capítulos com avanço do financiamento chinês (Imagem gerada por IA/Exame)

China x EUA: disputa pelo mercado de inteligência artificial ganha novos capítulos com avanço do financiamento chinês (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 10 de agosto de 2026 às 08h59.

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A distância que separava os melhores modelos de inteligência artificial (IA) dos Estados Unidos e da China era de até 31,6 pontos percentuais em 2023. Em março deste ano, segundo o AI Index 2026, da Universidade Stanford, essa distância havia encolhido para 2,7%.

Já o placar do dinheiro conta outra história. Os Estados Unidos investiram US$ 285,9 bilhões em IA privada em 2025, contra US$ 12,4 bilhões da China — 23 vezes mais. Só a Califórnia respondeu por US$ 218 bilhões desse total, mais do que a China inteira investiu no setor.

Segundo Stanford, a vantagem de desempenho americana é de 2,7% e encolhe; a vantagem de investimento é de 23 vezes e cresce.

É essa lacuna entre desempenho e dinheiro que a China está tentando fechar agora, mudando a própria forma como financia a corrida.

Até aqui, Pequim raramente usou o mercado de capitais como ferramenta de política industrial — preferiu subsídio, incentivo fiscal e investimento estatal direto. Um dos esforços mais agressivos já feitos para reverter isso está em curso, segundo a Bloomberg.

Reguladores aceleraram aberturas de capital para empresas consideradas estratégicas e ampliaram o acesso à captação via venda de títulos. Quando as ações de tecnologia caíram em julho, as autoridades intervieram com velocidade incomum para restaurar a confiança do mercado.

O alvo é os US$ 28 trilhões em ações e títulos do país. E, dentro deles, os US$ 26 trilhões em poupança das famílias chinesas, a maior reserva doméstica do mundo. É dinheiro que nunca havia sido mobilizado nessa escala para financiar tecnologia.

A prova de que a estratégia já funciona

O teste mais recente aconteceu em 27 de julho, na estreia em bolsa da CXMT, fabricante chinesa de chips de memória.

Em poucas horas, as ações dispararam mais de 500% e tornaram a empresa a mais valiosa da China continental, superando o Industrial and Commercial Bank of China, que ocupava o topo havia anos. Embora a medida regulatória não tenha sido desenhada especificamente para essa oferta, a estreia foi um dos fatores que pesaram na decisão, segundo pessoa a par do assunto ouvida pela Bloomberg.

A empresa, fundada em 2016 em Hefei, fabrica chips DRAM, usados em smartphones, computadores e servidores de IA. O IPO levantou US$ 8,6 bilhões, a maior oferta da Ásia neste ano, e avaliou a companhia em cerca de US$ 543 bilhões — mais que a Intel.

A receita da empresa saltou para US$ 7,5 bilhões nos três primeiros meses de 2026, alta de mais de 700% em um ano. Mesmo assim, seu valor de mercado segue abaixo do de rivais como Samsung, SK Hynix e Micron — sinal de que a distância também existe do lado chinês, só que na direção oposta à do desempenho de modelos.

O que a China tem e o que ainda falta

Fora do desempenho do modelo e do dinheiro, o placar se inverte de novo.

A China lidera em publicações científicas de IA , representando 23,2% do total global, contra 12,6% dos Estados Unidos, e concentra 69,7% de todos os pedidos de patente do setor. Na instalação de robôs industriais, avança em ritmo nove vezes mais rápido que o americano.

Os Estados Unidos, por sua vez, ainda lançaram mais modelos de peso em 2025 — 50 contra 30 — e controlam cerca de 75% da capacidade computacional global em GPUs, o insumo que mais falta ao lado chinês.

É exatamente essa peça que falta — capacidade de processamento — que a aposta no mercado de capitais tenta comprar. Cada real levantado numa oferta como a da CXMT financia fábrica, equipamento e pesquisa em chips — o gargalo que Washington tenta manter fechado.

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