Esporte

Sem bets, clubes perdem R$ 1,1 bilhão; carros elétricos e IA surgem como alternativas

Apesar da gravidade da situação, especialistas acreditam que o mercado encontrará caminhos para se reorganizar

Corinthians x Cruzeiro se enfrentam na Neo Química Arena (Marco Galvão/Cruzeiro)

Corinthians x Cruzeiro se enfrentam na Neo Química Arena (Marco Galvão/Cruzeiro)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 30 de setembro de 2026 às 15h49.

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Resumo: A possível proibição das casas de apostas no Brasil pode retirar mais de R$ 1,14 bilhão em patrocínios do futebol nacional, afetando diretamente 14 clubes da Série A e provocando uma das maiores transformações financeiras da história recente do esporte.


 

A assinatura da Medida Provisória que extingue a operação, oferta e publicidade de apostas de quota fixa no Brasil abriu um cenário de forte incerteza para o futebol nacional. Caso o texto seja confirmado pelo Congresso Nacional, os clubes da elite perderão uma das principais fontes de receita dos últimos anos, já que 14 equipes da Série A dependem diretamente das casas de apostas como patrocinadoras máster.

Estimativas do setor apontam que os contratos com plataformas de apostas representam mais de R$ 1,14 bilhão em patrocínios para clubes brasileiros, valor que sustenta parte relevante dos investimentos em contratações e operações do futebol. Diante desse cenário, dirigentes demonstram preocupação com o impacto imediato sobre os orçamentos e a capacidade de manter planejamentos financeiros estruturados nos últimos anos.

Apesar da gravidade da situação, especialistas acreditam que o mercado encontrará caminhos para se reorganizar. O consenso, porém, é de que não existe atualmente um setor capaz de substituir sozinho o volume de recursos injetado pelas bets.

“Nenhum segmento, em nenhuma época da história do patrocínio esportivo no futebol brasileiro, colocou tanto dinheiro como as casas de apostas o fizeram agora. Eu recebi hoje a ligação de alguns clubes perguntando qual cliente eventualmente poderia substituir a casa de apostas. Eu disse: nenhum. Porque não tem, essa é a grande verdade”, afirma Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports.

Para Reginaldo Diniz, CEO e sócio-fundador da End to End, o momento representa uma crise, mas também uma oportunidade de transformação para o mercado esportivo.

"Marcas de diversos segmentos devem avaliar as lacunas no setor de patrocínios, enquanto agências de marketing e publicidade precisam se reinventar. A médio prazo, a tendência é a consolidação de plataformas de apostas mais reguladas, sem o suporte de cassinos online como o 'jogo do tigrinho'. O saldo positivo será uma indústria esportiva mais plural, competitiva e alinhada aos novos hábitos de consumo."

Na avaliação de Thiciana Simão, CEO e cofundadora da AdSports, a mudança exige uma reorganização estratégica por parte dos clubes.

"O cenário exige velocidade, mas também cuidado na reorganização comercial para preservar o valor das propriedades esportivas. Esse momento reforça a importância de construir um portfólio de patrocinadores mais diversificado como parte do planejamento de longo prazo", destaca.

Tecnologia e carros elétricos aparecem como candidatos

Se por um lado o futebol brasileiro perde um dos seus maiores financiadores, por outro o mercado internacional já oferece exemplos de segmentos que vêm ampliando investimentos no esporte.

As empresas de inteligência artificial e as montadoras de veículos elétricos despontam entre os setores mais ativos do marketing esportivo global. A chinesa BYD é um dos casos mais relevantes. A companhia se tornou parceira de mobilidade sustentável da Eurocopa de 2024 e acumulou acordos com Manchester City, Inter de Milão e Paris Saint-Germain. No Brasil, também mantém parcerias com clubes como Corinthians e Bahia.

Outras fabricantes seguem caminho semelhante. A GAC Motor, por exemplo, conquistou propriedades comerciais e exposição em uniformes do Flamengo.

O movimento mostra como as marcas ligadas à mobilidade sustentável enxergam o futebol como uma plataforma estratégica para acelerar a expansão internacional e fortalecer sua presença junto aos consumidores.

A inteligência artificial também vem ganhando espaço cada vez mais relevante no esporte. O Google fechou acordos para promover o Gemini em clubes como Arsenal, Barcelona, Bayern de Munique, Liverpool e Paris Saint-Germain. A ferramenta atua como parceira oficial de IA para os torcedores, oferecendo conteúdos interativos e análises em tempo real.

Para Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil, a aproximação entre esporte e tecnologia é uma tendência consolidada.

"As ligas e equipes globais se tornaram plataformas de conteúdo excelentes para as big techs, e não é de hoje. Há 10 anos, participei da parceria da Microsoft aos Jogos Olímpicos Rio 2016, e nesta época a estratégia envolvia entregas de valor da plataforma de nuvem Azure, recém lançada. Foi um dos alicerces da expansão desta frente de negócios, hoje pilar fundamental da empresa e da construção futura integrada com IA", afirma.

Patrocínios pontuais ganham força como solução imediata

Enquanto novos setores não ocupam definitivamente os espaços deixados pelas apostas esportivas, especialistas apontam os patrocínios pontuais como alternativa de curto prazo para aliviar a queda de receitas.

A estratégia já foi utilizada por clubes brasileiros em diferentes momentos. O Santos explorou a valorização de seus ativos durante a final da Libertadores de 2020 para fechar acordos específicos para uma única partida. O Corinthians também se destacou ao utilizar espaços na camisa para promover lançamentos de grandes produções cinematográficas. Mais recentemente, o Flamengo realizou uma parceria pontual com o Amazon Prime Video durante a Supercopa do Brasil.

Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios, considera o momento uma oportunidade para reduzir a dependência de um único segmento.

"É inegável que, na cadeira de quem faz a gestão de um clube, recusar o aporte financeiro das casas de apostas é uma decisão dificílima. Falamos de cifras astronômicas que inflacionaram o mercado de patrocínios a um patamar irreal. (...) A saída estratégica para essa situação passa pela diversificação de receitas, recalibrando a matriz comercial para atrair parceiros perenes da economia, garantindo assim uma rentabilidade sustentável a médio e longo prazos."


Perguntas e respostas: O futuro dos clubes sem as bets no Brasil

1. Qual o impacto da possível saída das casas de apostas do futebol brasileiro?
A perda de mais de R$ 1,14 bilhão em patrocínios, afetando diretamente 14 clubes da Série A e comprometendo planejamentos financeiros e investimentos.

2. Existe algum segmento capaz de substituir sozinho o dinheiro das bets?
Não. Segundo o especialista Fábio Wolff, nenhum setor do mercado brasileiro investiu tanto em patrocínio esportivo quanto as casas de apostas.

3. Quais segmentos podem ocupar parte do espaço deixado pelas bets?
Tecnologia, inteligência artificial, mobilidade elétrica, serviços financeiros, varejo, entretenimento e consumo aparecem como os principais candidatos.

4. Por que empresas de tecnologia têm investido cada vez mais no esporte?
Porque o esporte oferece grande visibilidade e permite conectar marcas a milhões de consumidores, além de servir como plataforma para divulgação de novas tecnologias.

5. Quais clubes europeus possuem parceria com o Google Gemini?
Arsenal, Barcelona, Bayern de Munique, Liverpool e Paris Saint-Germain estão entre os clubes que possuem acordos com o ecossistema de inteligência artificial da Google.

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