Redação Exame
Publicado em 31 de maio de 2026 às 11h17.
O New York Knicks iniciou a venda de ingressos para as finais da NBA após conquistar a Conferência Leste sobre o Cleveland Cavaliers na última segunda-feira. O preço das entradas, entretanto, tem surpreendido, uma vez que torcedores poderiam pagar 1 milhão de dólares, cerca de R$ 5 milhões na cotação atual, por dois ingressos. O mais barato, por sua vez, custa pouco mais de 3 mil dólares.
Um dos fatores que ajuda a explicar os valores praticados na NBA é o sistema de preço dinâmico. Na prática, o valor das entradas varia de acordo com a demanda, podendo sofrer alterações para cima, conforme a alta procura, ou para baixo, em caso de baixa demanda. O modelo é amplamente utilizado nos esportes norte-americanos, incluindo eventos como o Super Bowl e a Copa do Mundo.
No mercado brasileiro, entretanto, o sistema ainda não é utilizado, por exemplo, no futebol. O que os clubes geralmente costumam fazer é a precificação dos ingressos conforme o peso do jogo, além da estratificação dos valores de acordo com os setores, mas sem mudanças em tempo real conforme a demanda.
Dentro de um futuro mais distante, porém, a realidade pode ser diferente. A análise é de Robson Carlo, sócio-fundador da FutebolCard, plataforma de gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor.
“A adoção do preço dinâmico na venda de ingressos é cada vez mais uma tendência em outros mercados e vai chegar ao futebol brasileiro — é uma questão de ‘quando’, não de ‘se’. Na FutebolCard, queremos ser quem quebra esse paradigma. Antes de tudo, porém, é necessário reorganizar a indústria: liberar o mercado secundário e atacar o cambismo”, avalia.
Ainda segundo o executivo, o mercado secundário, a partir desta reorganização, não necessariamente seria sinônimo de valores inflacionados: “Existe um mito de que o preço dinâmico e o mercado secundário só servem para encarecer ingresso, mas muitas vezes pode ser o contrário. A precificação dinâmica pode ajudar a corrigir os casos em que o clube erra no preço e o estádio não atinge o público esperado. Já o mercado secundário resolve outro problema: o assento que fica vazio quando os ingressos esgotam e ainda há demanda, ou quando a pessoa comprou e não consegue mais ir”.
“Em 20 anos de FutebolCard, vemos que, em média, 5% dos lugares de uma partida ficam vazios — assentos que poderiam voltar à torcida. Nesse caso, todo mundo ganha, do vendedor de pipoca ao clube. São avanços que dependem também de tecnologia, como a tokenização e o blockchain, que garantem que aquele ingresso é de fato meu e que posso transferi-lo com segurança para outra pessoa”, complementa Robson Carlo.
Na legislação brasileira, também podem existir entraves para uma eventual aplicação dos preços dinâmicos. Isso porque o Código de Defesa do Consumidor (CDC) do Brasil tem artigos que coíbem abusos que possam vir a partir desse sistema, como o impedimento de que pessoas peguem preços diferentes pelos mesmos produtos ou serviços oferecidos nas mesmas condições.
Para se ter uma ideia dos preços na Copa do Mundo, o sistema dinâmico de precificação tem resultado em altos valores, com entradas que já viram o valor triplicar e ultrapassar a casa dos R$ 161 mil para a final. Somente para a primeira fase, as entradas estão cotadas entre US$ 353 e US$ 706 no site da FIFA (o valor equivale de R$ 1.961 a R$ 3.926). O jogo entre Espanha e Uruguai também exemplifica a alta dos ingressos conforme a demanda, com as entradas mais baratas já tendo registrado um salto de R$ 600 para R$ 1.575, de acordo com reportagem do Jornal Nacional.
Anteriormente, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, defendeu a adaptação dos preços dos ingressos ao mercado norte-americano: “Temos que analisar. Estamos em um país onde o entretenimento é o mais desenvolvido do mundo, então precisamos aplicar preços compatíveis. Nos EUA, a revenda de ingressos também é permitida, então, se você vendê-los a um preço muito baixo, serão renegociados a um preço muito mais alto. E, na verdade, mesmo que algumas pessoas digam que nossos preços são altos, elas acabam no mercado de revenda por um preço ainda maior, mais que o dobro do nosso”, disse o cartola. Ainda segundo a entidade máxima do futebol mundial, 90% da arrecadação da Copa é reinvestida no desenvolvimento do esporte pelo mundo.