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Carlos Nobre, cientista climático: "Se continuarmos com as metas de 10 anos atrás, é um 'suicídio' para o planeta e vamos disparar os pontos de não retorno" (Lucas Lacaz/Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 1 de abril de 2026 às 12h00.
Última atualização em 1 de abril de 2026 às 12h05.
Após liderar o pavilhão científico na COP30 em Belém, Carlos Nobre já prometeu um novo espaço para conectar ciência e clima na próxima Conferência da Colômbia sobre o fim gradual dos combustíveis fósseis.
E agora, o climatologista e renomado cientista brasileiro acaba de ser nomeado pelo Papa Leão XIV para integrar o conselho do Vaticano e se torna o único brasileiro em um grupo seleto que reúne outros 11 especialistas de diferentes partes do mundo.
Referência global nos estudos sobre a Amazônia e mudanças climáticas, Nobre passa a fazer parte do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, órgão da Igreja católica responsável por assessorar o papa em temas como direitos humanos, justiça social, paz e emergências humanitárias.
O grupo terá a missão de discutir soluções para crises globais e promover a dignidade humana, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
A nomeação ocorre em um momento de crescente urgência climática, no qual o cientista tem intensificado os alertas sobre a necessidade de reduzir rapidamente as emissões globais e acelerar a transição energética rumo à descarbonização.
Durante a COP30, Nobre esteve à frente de um manifesto científico que aponta que o mundo precisa reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 5% ao ano a partir de agora. Aos níveis atuais, segundo o documento, restam apenas quatro anos antes que o orçamento de carbono para limitar o aquecimento a 1,5°C conforme o Acordo de Paris seja completamente esgotado.
“Se continuarmos com as metas de 10 anos atrás, iremos bater 2,5°C até 2050. É um suicídio para o planeta”, disse Nobre em entrevista à EXAME.
O avanço acelerado da temperatura, segundo o cientista, pode desencadear uma série de efeitos em cascata, com impactos especialmente severos para o Brasil. “O pior para nós, brasileiros, é a perda de até 70% da Amazônia”, afirmou.
Nesse cenário, o cientista defende que o Brasil pode assumir um papel de liderança global na agenda climática. “O Brasil pode zerar as emissões até 2040 e se tornar um modelo para outros países”, disse em coletiva de imprensa na semana passada.
Para isso, ele destaca que é essencial enfrentar a principal fonte de poluição nas cidades: a queima de combustíveis fósseis como petróleo e carvão.
O apelo da comunidade científica é direto: acelerar imediatamente a transição para uma economia de baixo carbono e baseada em fontes renováveis não poluentes.
“É a única opção para evitar uma crise planetária": essa foi a mensagem central do grupo do pavilhão científico que também tinha na liderança o renomado sueco Johan Rockström, criador do conceito de limites planetários.
Em Belém, os cientistas convocavam os líderes a considerarem os alertas da ciência nas negociações, após a baixa presença diplomática no espaço pioneiro em uma COP: "Negociadores, venham até nós".
Carlos Nobre e Johan Rockström lideraram o Pavilhão Científico na COP30
Foto: Leandro Fonseca (Leandro Fonseca /Exame)
Engenheiro formado pelo ITA e doutor em meteorologia pelo MIT, Carlos Nobre construiu grande parte da carreira no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde liderou por décadas estudos sobre a Amazônia. Também foi diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Ao longo da carreira, tornou-se um dos principais nomes da ciência climática no mundo, especialmente por formular a hipótese da “savanização” amazônica, que prevê a degradação irreversível da floresta em caso de avanço do desmatamento e do aquecimento global.
Nobre também integrou o Instituto de Estudos Avançados da USP até 2024 e é o primeiro brasileiro a fazer parte do grupo internacional Planetary Guardians, voltado ao estudo de riscos ambientais globais.
Em 2022, foi eleito membro da Royal Society, se tornando o primeiro brasileiro em mais de um século a receber o título.
A aproximação com o Vaticano não é recente. Em 2019, o cientista esteve com o papa Francisco durante o Sínodo da Amazônia, quando discutiu a importância de levar a pauta ambiental ao centro do debate da Igreja Católica.
Agora, como conselheiro, passa a contribuir diretamente com a agenda global do Vaticano em um momento em que ciência e clima ganham peso crescente nas decisões internacionais.
Veja os nomes do grupo que integra o Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral: