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Entre as principais ameaças para as áreas úmidas estão o desmatamento, o garimpo e a construção de hidrelétricas (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 14h00.
Quase metade das áreas úmidas da Amazônia está fora de territórios legalmente protegidos, segundo estudo inédito que mapeou 77 milhões de hectares desses ecossistemas no bioma. A pesquisa, desenvolvida por especialistas do Imazon, ICMBio, ISA e EcoSaMa, mostra que apenas 53,7% das áreas úmidas amazônicas encontram-se sob algum nível de proteção — sendo 21,3% em unidades de conservação, 15,4% em terras indígenas, 3% em Sítios Ramsar e 14% em áreas protegidas sobrepostas.
As áreas úmidas são ecossistemas presentes na interface entre ambientes terrestres e aquáticos, como manguezais, florestas de igapó, várzeas e turfeiras. Altamente dependentes da água, estão entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas e a pressões como desmatamento, represamento de rios, expansão urbana e mineração.
Segundo os pesquisadores, destinar áreas para conservação seria fundamental porque esses territórios sustentam processos ecológicos essenciais, concentram grandes estoques de carbono, mantêm a biodiversidade e garantem água e alimentos para as populações.
Com a aceleração dos efeitos das mudanças climáticas, ignorar o papel das áreas úmidas aumenta a vulnerabilidade da Amazônia e das populações que dependem desses territórios.
O levantamento calculou que mais de 1 milhão de hectares de áreas úmidas estão sob ameaça direta. As hidrelétricas representam atualmente o maior risco em termos de área afetada: 600 mil hectares de superfície de água encontram-se classificados como hidrelétricas no bioma.
As barragens construídas para geração de energia elétrica e armazenamento de água causam impactos negativos nas áreas úmidas, alterando o fluxo hídrico e o ciclo natural de inundações dos rios, além de prejudicar a biodiversidade aquática e o fluxo migratório de peixes.
O segundo maior problema é o desmatamento, que afetou 290 mil hectares de áreas úmidas entre 2020 e 2024 na Amazônia. Alguns tipos de áreas úmidas amazônicas armazenam maiores quantidades de carbono por hectare do que florestas terrestres, como manguezais e turfeiras, o que torna sua destruição ainda mais grave para o bioma. No caso das turfeiras, o desmatamento também provoca emissões de metano.
Outra grave ameaça é o avanço do garimpo, que contaminou aproximadamente 53 mil hectares de áreas úmidas entre 2020 e 2024. A atividade tem contaminado recursos hídricos, animais e comunidades tradicionais com mercúrio, um dos metais mais perigosos segundo a Organização Mundial da Saúde.
Os peixes são contaminados principalmente pelo metilmercúrio, um subproduto da transformação do mercúrio no ambiente aquático. Amostras coletadas em peixes de 17 municípios da Amazônia brasileira apresentam níveis de mercúrio 21,3% acima do limite aceitável estabelecido pela OMS.
Os Sítios Ramsar — zonas úmidas de importância internacional definidas por um tratado de 1971, do qual o Brasil é signatário desde 1993 — são reconhecidos como uma das estratégias mais eficazes para proteger a biodiversidade, garantir segurança hídrica e enfrentar a crise climática. O país possui atualmente 27 Sítios Ramsar reconhecidos, sendo 10 deles na Amazônia, que somam 23 milhões de hectares.
Enquanto o aquecimento global pode fazer com que áreas úmidas costeiras desapareçam com o aumento do nível do mar, as áreas úmidas interiores podem entrar em pontos de não retorno devido a secas extremas frequentes. Uma das hipóteses em avaliação é o papel das áreas úmidas da Amazônia como o primeiro sinal de pontos de não retorno no bioma, dando o alarme de que já se pode estar cruzando um limiar de risco altíssimo.