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WWF envia propostas para roteiro do fim dos fósseis: 'Brasil não deveria apostar fichas em petróleo’

Organização ambiental entrega 31 recomendações ao governo para subsidiar o mapa do caminho da transição energética, que deve ser apresentado até a COP31 na Turquia

Brasil é líder em energias renováveis e já tem mais de 50% da sua matriz proveniente de fontes limpas como eólica e solar (Envato)

Brasil é líder em energias renováveis e já tem mais de 50% da sua matriz proveniente de fontes limpas como eólica e solar (Envato)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 13h30.

Última atualização em 21 de janeiro de 2026 às 14h44.

“A recomendação é que não haja novos leilões e que toda nova licença de exploração de petróleo seja analisada à luz do roteiro do fim dos fósseis e dos compromissos climáticos. A Foz do Amazonas não deveria ser objeto de investimento.”

A declaração é de Ricardo Fujii, especialista em conservação do WWF-Brasil, e sintetiza o espírito das 31 propostas técnicas enviadas pela organização ambiental ao governo federal para subsidiar a construção do roteiro nacional para o fim gradual dos combustíveis fósseis.

O cenário geopolítico é nebuloso para o clima: Trump sinaliza em Davos mais uma vez contra as energias renováveis e a favor da exploração de petróleo e usinas de carvão, enquanto o mundo corre para avançar na transição energética e reverter os efeitos mais drásticos das mudanças climáticas. 

O novo documento entregue faz parte da agenda de ação da presidência brasileira da COP30, após ter ficado de fora do texto final da grande conferência climática em Belém pela falta de consenso entre todas as partes.

No final de 2025, Lula determinou em um despacho presidencial que o mapa deveria ser apresentado em até 60 dias e na sequência, analisado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão consultivo do Executivo.

A expectativa é chegar com uma proposta mais concreta na COP31, na Turquia, quando o Brasil passa o bastão da liderança para o país anfitrião. Em abril, uma conferência na Colômbia quer avançar na agenda de transição energética e já tem o apoio de mais de 80 países. 

O risco da aposta no petróleo e pilares da transição

O alerta não é apenas ambiental, mas econômico. Um estudo do WWF-Brasil aponta que até 85% dos ativos de petróleo e gás planejados pela Petrobras podem se tornar obsoletos ou não lucrativos em um cenário alinhado à meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C, devido à queda da demanda global.

As recomendações estão organizadas em quatro pilares: financiamento, governança e institucionalidade, metas e cronograma, e diretrizes setoriais — e vêm sendo apresentadas diretamente a ministérios estratégicos, como Meio Ambiente, Fazenda e Minas e Energia, além de fóruns técnicos de transição energética.

Segundo o WWF, o objetivo é ajudar o Brasil a “organizar a casa” internamente e, ao mesmo tempo, servir de modelo para outros países desenvolverem seus "mapas do caminho", sobretudo os em desenvolvimento e do Sul global.

Para Fujii, o Brasil parte de uma posição singular no debate global. “Somos um dos poucos países que têm a ganhar com a descarbonização da energia. Enquanto muitas economias são altamente dependentes de carvão e petróleo, já temos uma matriz predominantemente renovável, com biocombustíveis e grande potencial de expansão”, afirmou em entrevista à EXAME.

“É importante não deixar esse protagonismo de lado", complementou o especialista.

O WWF aponta que um dos principais pontos de atenção do roteiro é o financiamento da transição. Embora o tema represente um desafio para muitos países, a organização avalia que o Brasil tem condições favoráveis, já que a infraestrutura do setor elétrico é financiada majoritariamente pelo setor privado há anos. “Já se foi o tempo em que o setor dependia exclusivamente do BNDES”, disse Fujii.

Ainda assim, faz um alerta sobre a continuidade da aposta em novos projetos de petróleo e gás. A Petrobras, por exemplo, planeja investir mais de US$ 70 bilhões nos próximos cinco anos em exploração e produção.

“Quanto mais recursos forem direcionados a projetos fósseis, menos investimentos vão para fontes renováveis. Explorar mais petróleo é apostar contra o mundo e contra a própria dinâmica da transição”, afirmou Fujii.

Segundo a organização, eventuais ganhos de curto prazo com o petróleo tendem a vir acompanhados de riscos crescentes.

Com a perspectiva de queda da demanda global em cenários alinhados ao Acordo de Paris, a expectativa de retorno desses investimentos se torna cada vez mais incerta.

“Se ainda der para ganhar com petróleo, isso terá um custo: atrasar a descarbonização da economia brasileira e o cumprimento da nossa meta climática [NDC]”, reforçou o especialista.

As propostas defendem que o país concentre a exploração em áreas já consolidadas, como o pré-sal, e que novas fronteiras, como a Foz do Amazonas, não sejam incluídas nos planos de expansão. “Não é aí que deveríamos apostar nossas fichas”, afirmou o especialista. 

Organizações cobram maior ambição

O governo federal já vem trabalhando no Plano Nacional de Transição Energética antes mesmo de propor o roteiro do fim de fósseis. Para Fujii, isto é positivo pois significa que não estamos partindo do zero. 

No entanto, avalia que o plano atual ainda é tímido e não reflete plenamente as ambições necessárias para frear a crise climática. “O fato de o Brasil presidir a COP neste ano cria um estímulo adicional para que o governo seja mais ambicioso”, destacou.

Segundo ele, há um risco de que o roteiro final seja excessivamente gradual e deixe decisões estratégicas para um futuro incerto, sem compromissos claros.

Por isso, o WWF e outras organizações, como o Observatório do Clima, defendem que novos leilões e licenças sejam condicionados às metas climáticas e ao roteiro do fim dos fósseis.

O roteiro do fim dos combustíveis fósseis surge, assim, em um momento decisivo. Até a COP31, especialistas avaliam que o Brasil tem uma oportunidade única de conduzir o debate de forma alinhada às necessidades dos países em desenvolvimento.

Mas isso exigirá que o país traduza protagonismo diplomático em decisões claras sobre investimentos, licenciamento e planejamento energético.

“Além de termos mais facilidade para fazer essa transição, o Brasil ganha competitividade com a descabonização. Em petróleo, não competimos com países como Arábia Saudita, Qatar ou Rússia. Em renováveis, temos vantagens claras”, concluiu Fujii.

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