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Avaliação do IDIS associa permanência no projeto a impactos maiores e identifica efeitos sobre competências socioemocionais, desenvolvimento cognitivo e trajetória educacional
Repórter de ESG
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 07h52.
Ensinar música a crianças e adolescentes no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, produziu um retorno social estimado em R$ 4,03 para cada R$ 1 investido, segundo um estudo conduzido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).
A avaliação analisou os efeitos da Orquestra Maré do Amanhã (OMA), projeto criado há 16 anos e que já atendeu diretamente mais de 17 mil crianças e jovens.
O cálculo foi feito pela metodologia SROI (Social Return on Investment), ou Retorno Social sobre o Investimento, método que atribui valor monetário às mudanças sociais associadas a uma iniciativa. De acordo com o levantamento, o resultado equivale a um retorno social líquido de quase R$ 29 milhões.
Para chegar ao indicador, o IDIS combinou entrevistas em profundidade, grupos focais e questionários quantitativos com diferentes públicos atendidos pela organização, de crianças da musicalização infantil aos jovens que participam da Camerata Principal.
O número de R$ 4,03, porém, não significa que o projeto devolva esse montante em dinheiro para quem o financia. O indicador busca traduzir em valor monetário os benefícios sociais identificados pela avaliação, permitindo comparar os recursos empregados com as mudanças associadas à atuação da organização.
“O expressivo resultado da avaliação SROI, em que o retorno social é quatro vezes o valor investido na iniciativa, é reflexo de um trabalho que alia rigor metodológico e paixão”, afirma Daniel Barretti, gerente de Monitoramento e Avaliação do IDIS.
Um dos resultados da pesquisa está na relação entre tempo de permanência e valor social gerado por participante.
A musicalização infantil representa a maior parcela do retorno social total devido à escala do programa: atualmente, cerca de 3,7 mil alunos são atendidos nas pré-escolas da rede municipal. Individualmente, no entanto, os maiores valores aparecem entre os jovens que permanecem por mais tempo vinculados à Orquestra.
Nesse grupo, o valor social estimado por participante pode superar R$ 200 mil ao longo de sua trajetória.Orquestra Maré do Amanhã:
A avaliação identificou efeitos que ultrapassam o aprendizado de um instrumento. Entre eles estão mudanças em competências socioemocionais, como autoconfiança, resiliência, autogestão e capacidade de relacionamento, além de aspectos cognitivos e motores, como concentração, percepção auditiva e coordenação motora.
Segundo o estudo, educadores da rede municipal destacaram esses efeitos especialmente entre crianças de 4 a 6 anos.
A trajetória dos irmãos Daniel e Thalia Carvalho ajuda a mostrar como esse percurso de longo prazo ocorre na prática. Hoje com 26 e 29 anos, respectivamente, eles participam da OMA desde 2012.
Daniel toca violoncelo e Thalia, contrabaixo. Filhos e netos de empregadas domésticas, tornaram-se a primeira geração da família a chegar ao ensino superior. Atualmente, estão concluindo os cursos de Farmácia e Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os dois também integram a Camerata Principal e já trabalharam como monitores na formação de outros músicos da comunidade.
A pesquisa qualitativa apontou ainda uma mudança na percepção das famílias sobre o projeto. Segundo o IDIS, a Orquestra, antes enxergada principalmente como uma atividade de contraturno capaz de manter as crianças em um ambiente seguro, passou a ser percebida também como parte da educação e da construção das perspectivas profissionais dos participantes.
De acordo com a avaliação, essa mudança contribui para reduzir a pressão para que adolescentes interrompam os estudos em busca de renda imediata.
A origem da Orquestra Maré do Amanhã está ligada a um episódio de violência. A organização foi fundada em agosto de 2010 pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres em homenagem ao pai, o maestro Armando Prazeres, que atuava na difusão da música clássica.
Armando foi sequestrado e assassinado em 1999. Seu carro foi encontrado na Maré, território que, anos depois, seria escolhido pelo filho para iniciar o projeto.
Impacto social:
A iniciativa começou com 30 estudantes em uma escola pública. Atualmente, além de sede própria, atua em 25 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) e 31 escolas municipais.
A OMA mantém seis orquestras mirins, a Orquestra Maré do Amanhã e uma camerata, além de programas de iniciação musical e coros infantil e juvenil. O projeto também chegou a Porto Trombetas, distrito de Oriximiná, no Pará, com dois núcleos voltados a comunidades ribeirinhas e quilombolas.
Em 2023, a organização foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.
Além de medir os resultados acumulados, a avaliação passou a orientar decisões sobre a atuação da organização. Entre as recomendações estão ampliar os recitais e concertos abertos à comunidade, estreitar a relação com pais e responsáveis e aperfeiçoar os sistemas de monitoramento.
“Ele organiza esse impacto em indicadores, mostra onde somos mais fortes, aponta oportunidades de evolução e nos ajuda a planejar os próximos passos”, afirma Carlos Eduardo Prazeres.
Um dos desdobramentos foi a criação de uma frente de formação profissional para músicos com mais de 25 anos que tenham técnica avançada e interesse em seguir carreira na música clássica.
O Grupo Formativo Galp, criado com apoio da mantenedora Petrogal Brasil (JV Galp | Sinopec), iniciou sua primeira turma em 2025 com 12 integrantes. Desde então, dois conseguiram vagas na Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem e uma integrante foi aprovada no curso de Música da UFRJ.
A avaliação também coloca uma questão recorrente no investimento social — como transformar efeitos como autoconfiança, educação e perspectivas profissionais em indicadores capazes de orientar a alocação de recursos. No caso da OMA, o SROI de R$ 4,03 é a tentativa de colocar esses diferentes resultados sob uma mesma medida econômica, enquanto o tempo de permanência dos participantes aparece como uma das variáveis associadas aos maiores impactos identificados pelo estudo.