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Amazônia tem 1,79 milhão de hectares em terras indígenas com potencial de restauração

Estudo divulgado pela TNC mostra que quase 1 milhão de hectares degradados no bioma são ocupados principalmente por pastagens

Restauração de terras indígenas na Amazônia pode contribuir para recuperar a vegetação, proteger fontes de água e fortalecer os modos de vida das comunidades (LeoFFreitas/Getty Images)

Restauração de terras indígenas na Amazônia pode contribuir para recuperar a vegetação, proteger fontes de água e fortalecer os modos de vida das comunidades (LeoFFreitas/Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 5 de setembro de 2026 às 14h00.

Última atualização em 5 de setembro de 2026 às 16h23.

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As terras indígenas estão entre as áreas mais preservadas do Brasil, mas também carregam marcas do avanço de pastagens, da agricultura e da mineração.

Só na Amazônia, 1,79 milhão de hectares dentro desses territórios têm potencial de restauração.

É o que revela um novo estudo divulgado pela The Nature Conservancy: 952,3 mil hectares do total são classificados como áreas degradadas, ocupadas predominantemente por pastagens, enquanto outros 24,4 mil hectares são destinados à agricultura e 18,9 mil hectares, à mineração.

Há ainda 840,5 mil hectares de vegetação secundária, aquelas áreas que já passaram por algum tipo de intervenção e estão em processo de regeneração.

No entanto, o desafio não se resume a identificar onde falta vegetação. Em terras indígenas, decidir o que restaurar, onde e de que maneira envolve questões que vão da disponibilidade de água e conservação da biodiversidade à geração de renda e manutenção dos modos de vida das comunidades.

É a partir dessa lógica que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em parceria com a TNC, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o programa britânico UK PACT, desenvolveu um sistema para reunir informações e ajudar a definir quais territórios e áreas devem ser priorizados em projetos de conservação e restauração.

Em vez de considerar apenas o grau de degradação, a ferramenta cruza dados sobre governança territorial, biodiversidade, água, mudanças climáticas, sustentabilidade, educação, saúde e modos de vida indígenas. O sistema está, por enquanto, disponível para uso interno.

Restaurar não é só plantar árvores

A ideia por trás da iniciativa parte de um esclarecimento importante: recuperar uma área dentro de uma terra indígena não significa necessariamente devolver a paisagem a uma determinada configuração de floresta.

A restauração pode envolver a recuperação de nascentes e cursos d'água, sistemas agroflorestais, produção de alimentos, coleta de sementes e mudas e outras atividades capazes de conciliar vegetação nativa com o uso do território pelas comunidades.

Por isso, uma área bastante degradada não necessariamente será a primeira da fila. A metodologia considera também o impacto que a recuperação pode ter sobre segurança hídrica, biodiversidade, adaptação às mudanças climáticas e condições de vida da população local.

A governança é outro componente: entre os indicadores analisados está, por exemplo, a existência de Instrumentos de Gestão Ambiental e Territorial Indígena (IGATI), usados para organizar o planejamento e o manejo dos territórios.

Segundo os idealizadores, os critérios foram definidos com a participação de lideranças indígenas, inclusive na escolha dos indicadores e das fontes de informação. Ao todo, nove grandes categorias são utilizadas para cruzar os dados e apoiar a definição das prioridades.

A intenção é evitar uma abordagem em que as comunidades apareçam apenas como beneficiárias de projetos definidos externamente. Na prática, o modelo busca incorporá-las desde a escolha das áreas até etapas como produção de sementes e mudas, implementação e acompanhamento da recuperação.

Pressão existe mesmo em áreas preservadas

As terras indígenas continuam sendo algumas das principais barreiras à perda de vegetação nativa no país.

Segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas divulgado em 2026, esses territórios responderam por apenas 1,7% de toda a perda de vegetação nativa registrada no Brasil entre 2019 e 2025.

Mas os especialistas ressaltam que isso não significa "ausência de pressão". O avanço do uso do solo alcança as bordas e, em determinados casos, o interior dos territórios.

Áreas atingidas por ilícitos ambientais também podem estar submetidas a embargos e obrigações de reparação, fatores que interferem na definição e no financiamento dos projetos de recuperação.

O levantamento ressalta que a restauração deve ser acompanhada por ações de prevenção e pelo fortalecimento da gestão territorial, de forma a reduzir as pressões que continuam incidindo sobre as terras indígenas.

Outra necessidade apontada é conectar as áreas identificadas como prioritárias a fontes de financiamento e instrumentos capazes de viabilizar os projetos.

Além dos recursos, a recuperação demanda formação técnica e estrutura para que as próprias comunidades possam definir prioridades, produzir e coletar sementes e mudas e acompanhar a evolução das áreas restauradas.

Meta brasileira aumenta a escala do desafio

A discussão ganha peso diante das metas assumidas pelo Brasil. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabelece a recuperação de 12 milhões de hectares até 2030.

Mais recentemente, durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país se comprometeu a restaurar mais de 16,3 milhões de hectares de terras degradadas até o fim da década.

O compromisso engloba diferentes frentes, como recuperação de vegetação nativa, sistemas agroflorestais, unidades de conservação, áreas de preservação permanente, bacias hidrográficas e territórios indígenas.

Na Amazônia, os 1,79 milhão de hectares identificados em terras indígenas mostram que há espaço relevante para avançar. Agora, o próximo passo é definir onde a restauração é mais urgente e, principalmente, qual tipo de recuperação faz sentido para cada território.

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