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Filantropia brasileira busca se reinventar diante de desigualdades e mudanças políticas

Encontro promovido pelo IDIS debate cultura de doação, financiamento de impacto e a necessidade de aproximar recursos privados dos problemas estruturais do país

Evento que reuniu lideranças nacionais e internacionais colocou em pauta modelos de atuação, colaboração entre setores e os limites atuais do investimento social

Evento que reuniu lideranças nacionais e internacionais colocou em pauta modelos de atuação, colaboração entre setores e os limites atuais do investimento social

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 29 de agosto de 2026 às 07h58.

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A filantropia brasileira vive um momento de revisão de estratégias. De um lado, organizações e investidores sociais tentam ampliar a cultura de doação em um país marcado por desigualdades históricas. De outro, enfrentam desafios como um ambiente regulatório considerado restritivo, a distância entre detentores de recursos e os problemas sociais que pretendem enfrentar e um cenário internacional de retração de agendas ligadas à diversidade e ao impacto social.

Esses foram alguns dos temas discutidos no 15º Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, realizado pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) em parceria com o Global Philanthropy Forum (GPF). Com o tema “Entre a Essência e a Reinvenção”, o encontro reuniu lideranças do setor para discutir como a filantropia pode responder às transformações sociais, tecnológicas, climáticas e políticas.

Segundo Paula Fabiani, CEO do IDIS, a ideia do fórum surgiu a partir vontade de reunir representantes da filantropia global para promover troca entre pares e criar espaços de colaboração.

“A ideia é criar um espaço para quem pratica filantropia poder trocar, encontrar seus pares e se provocar em relação à possibilidade de reinvenção”, afirmou em entrevista à EXAME.

A edição brasileira, porém, foi construída considerando características próprias do país. Para Fabiani, a filantropia nacional opera em um contexto diferente de países onde a cultura de doação está mais consolidada, principalmente pela dimensão das desigualdades sociais e pela proximidade dos problemas enfrentados.

“Enquanto em alguns países eles olham para outros lugares para fazer suas doações, no Brasil a gente olha para os nossos próprios problemas”, disse.

Distância entre riqueza e realidade social é um dos obstáculos

Apesar de o país apresentar desafios sociais que poderiam estimular uma maior atuação filantrópica, Fabiani avalia que existe uma barreira relacionada ao distanciamento entre quem possui recursos financeiros e as situações que demandam investimento.

Segundo ela, parte dos detentores de capital vive em “bolhas” que dificultam a percepção sobre como questões como desigualdade racial, mudanças climáticas e falta de acesso a direitos afetam o desenvolvimento econômico e social.

“Quando a gente pensa na iniquidade racial, isso impacta mercado de trabalho, produtividade e uma série de questões negativas para o desenvolvimento do país”, afirmou.

Para a executiva, ampliar a compreensão sobre esses impactos é parte do processo para aumentar a disposição de direcionar recursos privados para questões socioambientais.

Ela também cita o ambiente regulatório como um dos pontos que precisam ser discutidos. Segundo Fabiani, o Brasil não possui atualmente mecanismos considerados suficientes para incentivar a doação individual, como a possibilidade de abatimento de doações no Imposto de Renda. “Estudos econômicos mostram que um ambiente regulatório favorável aumenta a propensão a doar”, disse.

Outro desafio está relacionado à própria cultura de falar sobre filantropia. Fabiani mencionou dados da pesquisa Doação Brasil, segundo os quais 74% dos brasileiros acreditam que não devem falar sobre suas doações.

Novas gerações e transferência de riqueza podem mudar cenário

Fabiani também apontou a transferência de riqueza entre gerações como um possível fator de mudança para a filantropia brasileira. Segundo ela, uma movimentação significativa de patrimônio deve ocorrer com a passagem de recursos de gerações que acumularam riqueza para novos herdeiros, especialmente mulheres.

Na avaliação da CEO do IDIS, esse movimento pode influenciar a forma como recursos privados são direcionados, considerando uma percepção de que mulheres tendem a demonstrar maior proximidade com determinadas questões sociais.

Ela também relaciona o avanço da classe média brasileira a uma possível ampliação da base de doadores. Durante a pandemia, segundo Fabiani, houve crescimento das doações especialmente entre famílias com renda acima de seis salários mínimos.

“Em países com uma cultura filantrópica importante, como os Estados Unidos, é a classe média que é a grande doadora”, afirmou.

Para ela, uma classe média formada por pessoas que passaram por dificuldades econômicas pode trazer uma relação diferente com problemas sociais e com o papel individual na sociedade.

Diversidade e ESG mudam comunicação, mas agenda permanece

Durante o fórum, também esteve em debate o impacto das mudanças políticas internacionais sobre agendas como diversidade e ESG.

Fabiani afirmou que o Brasil tem sentido menos esse movimento do que outros países, mas reconhece alterações principalmente entre multinacionais, que passaram a rever a forma de comunicar suas iniciativas.

“Existe uma reversão da agenda de diversidade e inclusão e a agenda ESG também sofre com esse movimento, mas acho que as empresas brasileiras mantêm algumas ações, só mudando a comunicação”, afirmou.

Para ela, características sociais brasileiras, como a composição racial da população e desigualdades persistentes, tornam mais difícil uma retirada completa desses temas da agenda empresarial.

O próprio interesse pelo fórum, segundo Fabiani, seria um sinal de que existe continuidade na discussão. “Esse ano foi o único em que tivemos mais procura. Existe um movimento. Alguma coisa está persistindo, só está tomando uma outra forma.”

Colaboração entre setores aparece como caminho

Além das discussões sobre recursos, os painéis do evento abordaram diferentes modelos de atuação filantrópica.

Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, apresentou uma iniciativa voltada à aproximação entre jovens da rede pública e oportunidades no mercado de trabalho. Segundo ele, o programa recebeu 35 mil inscritos de pessoas entre 16 e 24 anos e selecionou 200 participantes para uma formação presencial de seis meses em Porto Alegre, com bolsa e moradia.

A proposta, segundo Amaral, é criar uma ponte entre empresas e jovens que historicamente tiveram pouco acesso a esses espaços.

Já Andrelissa Ruiz, da Fundação Tide Setubal, destacou a necessidade de fortalecer grupos comunitários como formuladores de soluções para seus próprios territórios. A atuação da organização foi apresentada como uma tentativa de traduzir demandas locais para investidores sociais privados e poder público.

Durante o debate, representantes também ressaltaram que problemas sociais não podem ser tratados de forma isolada. A segurança pública, por exemplo, foi apresentada como um direito humano que influencia áreas como educação, saúde e desenvolvimento comunitário.

Outros modelos discutidos incluíram iniciativas de apoio a mulheres empreendedoras negras, fundos patrimoniais, parcerias entre empresas e organizações sociais e investimentos privados de maior escala.

Fórum busca criar comunidade em um setor marcado por desafios

Ao reunir 16 lideranças e promover debates sobre diferentes estratégias, o objetivo do evento, segundo Fabiani, não era apresentar respostas definitivas, mas criar provocações.

“A expectativa é que os palestrantes tragam provocações e inquietações para fazer com que o público pense e saia com desejo de fazer coisas diferentes”, afirmou.

Para a executiva, um dos papéis do encontro é criar um sentimento de pertencimento entre pessoas que atuam no campo filantrópico e ampliar espaços de diálogo em um ambiente de crescente polarização.

“O IDIS tem uma postura não combativa, sempre do diálogo. Muitas vezes falta espaço para buscar soluções que são comuns aos dois lados”, disse.

Além do fórum, o instituto pretende ampliar iniciativas voltadas a diferentes perfis de investidores sociais. Entre os próximos projetos estão encontros para investimento social familiar, debates com empresas sobre filantropia corporativa e um estudo sobre como a atuação filantrópica pode gerar valor para organizações.

Também está entre as iniciativas o programa Transformando Territórios, voltado ao desenvolvimento de institutos e fundações comunitárias territoriais, modelo em que organizações locais recebem apoio financeiro, capacitação e articulação para fortalecer soluções construídas nos próprios territórios.

A discussão central colocada pelo fórum permanece sobre como ampliar a capacidade da filantropia de responder aos problemas brasileiros sem perder sua essência, enquanto busca novos formatos de atuação e financiamento.

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