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Pantanal perdeu até 80% da água superficial em quatro décadas, diz estudo

Resultados indicam impactos sobre biodiversidade, atividades econômicas locais e serviços ecossistêmicos sustentados pela maior planície alagada do mundo

Análise de imagens de satélite e dados de precipitação relaciona o avanço da perda hídrica às mudanças climáticas e às transformações no uso da terra no bioma (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Análise de imagens de satélite e dados de precipitação relaciona o avanço da perda hídrica às mudanças climáticas e às transformações no uso da terra no bioma (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 7 de julho de 2026 às 12h58.

A área de água superficial do Pantanal encolheu entre 69,6% e 81,4% desde 1985, segundo um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Publicada na revista científica Advances in Space Research, a pesquisa conclui que o regime atual de chuvas já não consegue recompor o estoque hídrico do bioma. Essa redução está associada tanto às mudanças climáticas quanto às alterações no uso da terra provocadas por atividades humanas.

Considerado a maior planície alagada do mundo, o Pantanal ocupa cerca de 150 mil quilômetros quadrados distribuídos entre Brasil, Paraguai e Bolívia.

A presença de água superficial sustenta uma biodiversidade que reúne mais de 650 espécies de aves, 150 de mamíferos, 325 de peixes e 2.270 espécies de plantas, além de desempenhar funções como o sequestro de carbono e outros serviços ecossistêmicos.

Perda de água no Pantanal

Segundo os pesquisadores, o trabalho é o mais abrangente já realizado sobre a dinâmica das águas superficiais na porção brasileira do Pantanal. A análise cobre o período entre 1985 e 2023 e utilizou imagens de satélite combinadas com quatro índices espectrais capazes de identificar corpos d'água a partir da refletância da superfície.

"Nosso diferencial foi o tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido – de 1985 a 2023 – e também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos resultados", afirma o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, doutor pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias da Unesp e um dos autores do estudo.

Pantanal foi o bioma que mais secou desde 1985, com 61% menos água no território

Ao longo da pesquisa, os cientistas analisaram imagens referentes aos anos de 1985, 1990, 1995, 2000, 2005, 2010, 2015, 2020 e 2023. Os resultados também foram validados manualmente pelos pesquisadores, que marcaram pontos de referência para verificar a precisão das classificações obtidas pelos índices.

Impacto das mudanças climáticas

Além da redução da água superficial, o estudo avaliou a evolução da umidade do solo e do regime de chuvas utilizando o Índice de Umidade por Diferença Normalizada, o Índice de Concentração de Precipitação e o Índice de Anomalia Padronizada. Para isso, os pesquisadores recorreram também aos dados do Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data, projeto da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que reúne séries históricas de precipitação desde 1981.

Os três indicadores apontaram uma redução progressiva da umidade da vegetação e do solo, além do aumento da frequência e da intensidade dos períodos de seca e de uma distribuição mais irregular das chuvas nas últimas quatro décadas.

Para os autores, o cenário é resultado da combinação entre fatores climáticos e mudanças promovidas pela ocupação humana. Segundo Justino, a diminuição das precipitações reduz a capacidade de reposição do ciclo hidrológico do Pantanal, enquanto transformações no uso da terra, como a construção de barragens e a expansão da agricultura e da pecuária, contribuem para reduzir áreas naturalmente alagáveis.

"Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem", afirma o pesquisador.

Impacto na biodiversidade

A perda de água superficial também tende a afetar a biodiversidade do bioma. De acordo com Justino, alterações na disponibilidade de água impactam a cadeia alimentar, reduzindo habitats de espécies aquáticas e de animais que dependem desses ambientes, como a onça-pintada.

Os impactos também alcançam as atividades econômicas desenvolvidas na região. Ribeirinhos que vivem da pesca e do turismo ecológico e comunidades indígenas podem enfrentar dificuldades para manter suas fontes de renda à medida que a disponibilidade de água diminui.

Os autores defendem que o monitoramento contínuo das áreas mais afetadas e a adoção de práticas de manejo sustentável da água e do solo são medidas prioritárias. O estudo também aponta que mudanças no modelo de ocupação do território e a inclusão das comunidades locais nas estratégias de conservação podem contribuir para reduzir a pressão sobre o bioma.

Ao analisar quatro décadas de imagens de satélite e dados de precipitação, os pesquisadores concluem que o Pantanal atravessa um processo contínuo de perda da água que sustenta seus ecossistemas. "O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos", afirma Justino.

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