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COP31 acontece de 9 a 11 de novembro em Antálya, na Turquia, e acontece em um modelo inédito de presidência dividida com a Austrália (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 1 de agosto de 2026 às 11h00.
Última atualização em 1 de setembro de 2026 às 11h28.
O segundo semestre promete acelerar a agenda climática global. Em junho, negociadores se reuniram em Bonn, na Alemanha, para o encontro que tradicionalmente prepara o terreno para as decisões que vão à mesa na Conferência de Mudanças Climáticas da ONU (COP31) e terminou deixando lacunas na implementação e sem um acordo para adaptação climática.
Agora, a partir da próxima semana, é a vez de São Paulo sediar a Semana do Clima, com uma programação extensa na cidade para colocar o tema no centro do debate.
Em setembro, os holofotes se voltam para a Climate Week de Nova York, tradicional palco de discussões sobre financiamento climático.
E, no fim dessa sequência, a COP31, marcada de 9 a 22 de novembro de 2026, na cidade turca de Antália, com um desafio de implementar as 56 decisões aprovadas por consenso na Decisão Mutirão.
Após impasses na última COP30, em Belém, ficou definido que a próxima edição do maior evento climático do mundo seria conduzida por um modelo pioneiro de compartilhamento entre dois países: Turquia e Austrália.
Enquanto a presidência turca ficará responsável pela coordenação política e pela Agenda de Ação, a Austrália liderará as negociações formais.
Neste sábado, 1 de agosto, faltam exatamente 100 dias para a COP31.
E se nas negociações o desafio é transformar os compromissos já firmados em ação e mobilizar financiamento, adaptação e proteção às florestas, do lado das empresas brasileiras a corrida passa pela implementação e desenvolvimento de soluções.
É nesse cenário que o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), principal entidade que reúne grandes empresas em torno da pauta climática no Brasil, organiza sua estratégia para a COP31.
Em entrevista à EXAME, Alessandra Fajardo, diretora executiva técnica do CEBDS e representante da entidade na London Climate Action Week, resume a mudança de postura que o setor tenta consolidar neste ciclo: "deixa de ser um mero apoiador e passa a ter um papel de protagonista".
A virada de chave é resultado direto da COP30: se antes as empresas iam às conferências climáticas para mostrar compromissos e metas, agora a cobrança é por ações efetivas.
"Deixou de ser uma agenda de baixo carbono e reputação. Hoje é uma agenda de negócio", resume a diretora.
Essa transição está estruturada em três frentes de trabalho do CEBDS: a descarbonização de setores-chave da economia, a conexão entre projetos sustentáveis e financiamento, e o apoio à implementação dos "mapas do caminho", os roteiros que orientam governos na transição energética e fim dos combustíveis fósseis, no combate ao desmatamento e na mobilização de recursos.
Ao longo do último ano, o CEBDS avançou na segunda fase das Coalizões para Descarbonização, reunindo mais de 270 organizações entre empresas, associações, governo e especialistas, em torno de quatro setores: Transportes, Agricultura, Energia e Mineração.
O potencial de mitigação é gigante: as ações mapeadas têm potencial para reduzir 70% das emissões desses quatro setores até 2050.
Na prática, os caminhos variam. Na Coalizão de Transportes, o estudo aponta ferrovias, hidrovias, biocombustíveis e eletrificação da frota como as frentes de maior potencial. Já na Agricultura, medidas como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e aumento da produtividade do rebanho poderiam mitigar cerca de 80% das emissões.
A executiva destaca que a fase atual do trabalho passa a olhar para o que ela chama de "alavancas transversais": soluções que atravessam mais de um setor ao mesmo tempo, como biocombustíveis e eletrificação.
"O biocombustível impacta na mudança de caminhões pesados para mineração, em renováveis para gerar energia, está na agricultura e, obviamente, em transportes", destaca.
Essa lógica ganhou um capítulo internacional em julho, durante a London Climate Action Week, quando o presidente da COP31, Murat Kurum, lançou a meta de elevar a participação da eletricidade na demanda final de energia global dos atuais 23% para 35% até 2035, baseada em estudo da IRENA.
A diretora do CEBDS vê aí uma oportunidade dupla para o Brasil, que já tem uma matriz elétrica majoritariamente limpa: "Eletrificação e biocombustíveis podem andar juntos, em vez de concorrer", frisa.
Se identificar soluções já é um desafio, escalá-las é outro. É esse o problema que a plataforma Brasil de Soluções tenta resolver.
Lançada dentro do contexto da COP30, a solução já reúne 135 iniciativas de 58 empresas associadas ao CEBDS, organizadas em seis eixos: florestas, energia, indústria, agricultura, infraestrutura e pecuária.
Desde maio, funciona como ferramenta que conecta investidores, fundos climáticos e parceiros técnicos. Até então, dois cases já cumprem 100% dos requisitos da Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos (BIP) e iniciaram pedidos de acesso à recursos.
A frente de financiamento também mira Nova York. O CEBDS irá reunir, em parceria com Itaú e BCG, representantes do setor financeiro para debater como a experiência brasileira pode alimentar o "Roadmap de Baku a Belém", conhecido como plano que busca mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035.
A lógica também aparece nas soluções mapeadas na C.A.S.E., coalizão formada por Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale, lançada no ano passado e que reúne 128 iniciativas socioambientais brasileiras com potencial de escala internacional.
A meta da presidência brasileira é levar de 5 a 10 rumo à COP31 como casos concretos, financiáveis e replicáveis.
Essa articulação da CASE não caminha isolada. Segundo Alessandra, a coalizão passa a se conectar a outras frentes como o SBCOP (Sustainable Business COP) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), além do próprio CEBDS, que hoje reúne 70% das soluções.
Entre os gargalos identificados estão o alto custo do capital, a escassez de projetos financiáveis e a necessidade de mecanismos mais robustos de mitigação de risco — "nós" que, segundo a especialista, ainda não têm solução fechada e devem ocupar boa parte da conversa em setembro, com um evento do CEBDS previsto.
Fora as coalizões e o financiamento, o CEBDS elenca os temas que devem concentrar a atenção do setor empresarial na COP31:
Nada disso, porém, garante o sucesso desta COP31, destacou a diretora do CEBDS. Ela reconhece que o modelo de presidência compartilhada entre Turquia e Austrália acrescenta uma camada extra de complexidade às negociações.
"Em Belém, já vivemos momentos de tensão antes de fechar acordos e inclusive o temor, nos bastidores, de repetir o desfecho da COP15, em Copenhague (2009), lembrada até hoje como a conferência que não conseguiu produzir um acordo consistente", frisou.
No fim, a COP30 avançou e lançou uma agenda de ação inédita nas COPs, encabeçada por uma diplomacia brasileira que lutou para tirar do papel uma série de temas sensíveis.
Para Alessandra, o desafio de novembro é o mesmo de sempre, só que é multiplicado pelo tamanho dos atores na mesa: "harmonizar interesses de quase 200 países, cada um com sua própria leitura sobre o que "implementação climática" significa na prática", resume.
Mas a aposta, no fim das contas nesta reta final, é que o setor empresarial brasileiro chega a Antália com a lição de casa mais adiantada em 2026.