Pesquisas indicam que rótulos geracionais não refletem o comportamento das equipes no trabalho (Dmytro Zinkevych/Shutterstock)
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Publicado em 4 de agosto de 2026 às 15h00.
Nas últimas décadas, empresas gastaram fortunas com consultorias, treinamentos e palestras para ensinar líderes a entender os "millennials", integrar a "Geração Z" e traduzir a comunicação entre "baby boomers" e colegas mais novos.
Mas existe um detalhe incômodo nessa história. A ciência não sustenta essa narrativa.
Uma meta-análise publicada em 2012 no Journal of Business and Psychology, assinada por David Costanza, Jessica Badger, Rebecca Fraser, Jamie Severt e Paul Gade, reuniu quase 20 mil participantes distribuídos em 18 comparações entre 4 grupos de idade.
A conclusão foi que pertencer a uma determinada geração explica muito pouco do comportamento dos profissionais no ambiente de trabalho.
As associações entre ano de nascimento e fatores como satisfação, comprometimento com a organização e intenção de pedir demissão foram praticamente inexistentes.
Em 2025, um novo estudo foi além. Daniel Ravid, David Costanza e Madison Romero, da Universidade de Nova México, da Universidade da Virgínia e da George Washington University, publicaram "Generational Differences at Work? A Meta-Analysis and Qualitative Investigation" no Journal of Organizational Behavior.
Ao examinar quase 160 mil trabalhadores, confirmaram que praticamente não existe base científica para separar profissionais por ano de nascimento.
Então os pesquisadores fizeram mais uma pergunta interessante. Se a ciência já comprovou, por que essa crença continua tão forte dentro do mundo corporativo?
Para responder, eles revisaram as conclusões de 137 artigos acadêmicos sobre o tema e encontraram um padrão revelador.
Só 22,6% dos estudos partiam de uma hipótese clara sobre diferenças entre gerações, e a maioria dessas hipóteses (64%) não se confirmou.
Ainda assim, 77% dos artigos apresentaram suas conclusões como se sustentassem a existência de diferenças geracionais, de forma clara ou parcial.
Quando os números não fechavam, os autores raramente questionavam o conceito de geração em si. Preferiam culpar o tamanho da amostra ou o momento econômico.
O mais grave veio depois. Quase 70% dos artigos ofereceram recomendações práticas às empresas baseadas nesse pressuposto, mesmo quando os próprios dados não sustentavam nada disso.
Entre os estudos que não encontraram evidência alguma de diferença, 31% ainda assim recomendaram práticas de gestão "específicas para cada geração". É a ciência sendo distorcida pela própria narrativa que ela deveria testar.
Se as diferenças reais são tão pequenas, de onde vêm os atritos?
A resposta pode estar num conceito batizado de "metaestereótipo", descrito pelas pesquisadoras Lisa Finkelstein, Eden King e Elora Voyles na revista Work, Aging and Retirement, e reforçado depois em um artigo das mesmas autoras na Harvard Business Review.
O argumento central é simples. O problema não são as diferenças em si, mas a crença de que elas existem.
Esse mecanismo tem duas camadas. A primeira é o estereótipo direto, aquilo que um grupo pensa sobre o outro.
A segunda é mais sutil, e é aí que mora o perigo para as organizações. Trata-se do que cada profissional imagina que colegas de outra idade pensam sobre ele.
Um executivo experiente pode achar que os mais jovens o consideram ultrapassado, mesmo sem nenhum sinal real disso.
Um recém-contratado pode temer ser visto como impaciente ou sem experiência.
Nenhuma dessas leituras nasce de fatos. Elas surgem da expectativa sobre o julgamento alheio e, por isso, são tão difíceis de identificar e desmontar.
Um experimento publicado no Journal of Business and Psychology mostrou o custo prático dessa dinâmica.
Pesquisadores reuniram 85 duplas de universitários e, usando fotografias e software de alteração de voz, criaram a percepção de diferença de idade entre elas, sem que houvesse nenhuma diferença real de capacidade.
O resultado: quem acreditava treinar alguém mais velho criava expectativas mais baixas sobre a capacidade da outra pessoa de aprender, dedicava menos atenção ao processo e oferecia orientações de qualidade inferior.
Isso reduzia o desempenho de quem estava do outro lado. A crença, sozinha, bastou para produzir a realidade que os participantes esperavam encontrar.
É a lógica clássica da profecia autorrealizável, aplicada silenciosamente dentro de qualquer organização.
Enquanto o debate corporativo insiste em separar gerações, a pesquisa mais recente aponta para o caminho oposto.
Um estudo da Egon Zehnder, em parceria com a Kearney, ouviu 8.181 trabalhadores em 8 países, incluindo o Brasil, e encontrou um nível impressionante de convergência.
Entre todos os entrevistados, 82% afirmaram que o cuidado com o bem-estar da equipe é o fator mais importante na escolha de um empregador, independentemente da geração à qual pertencem.
Baby boomers, Geração X, millennials e Geração Z também demonstraram expectativas quase idênticas sobre liderança.
Todos valorizam gestores que ouvem, dão autonomia, investem no desenvolvimento das equipes e comunicam um propósito claro.
No fim das contas, profissionais em momentos distintos de carreira almejam praticamente o mesmo de uma organização, respeito, oportunidades de crescimento, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, e uma liderança em quem confiar.
Se a idade explica tão pouco, o que de fato move o desempenho de uma equipe? Um estudo conduzido por pesquisadores da Northwestern University, da Beihang University e da Academia de Blockchain de Pequim analisou 23 milhões de publicações científicas e 4 milhões de patentes.
A resposta foi objetiva: times que reúnem maior diversidade de conhecimento e experiência produzem soluções mais originais e geram impacto por períodos mais longos.
O fator decisivo não é a idade dos profissionais, mas a combinação de vivências, competências e formas distintas de interpretar os mesmos desafios.
A lição prática é direta. As empresas devem parar de desenhar políticas de gestão em cima de rótulos geracionais e começar a investir em três frentes específicas:
Promover conversas estruturadas entre colaboradores de diferentes fases profissionais. Quando compartilham histórias e desafios reais, eles descobrem que têm muito mais em comum do que imaginavam. E isso reduz preconceitos de forma orgânica.
Reforçar objetivos compartilhados. Equipes que trabalham pela mesma finalidade abandonam naturalmente a lógica do "nós contra eles" que tantas vezes separa grupos apenas pela idade.
Conhecer cada integrante individualmente. Conversas frequentes revelam necessidades, ambições e expectativas reais, muito mais úteis para a gestão do que qualquer suposição baseada em ano de nascimento.
A mudança de mentalidade é sutil e ao mesmo tempo transformadora. Em vez de perguntar "como liderar cada geração?", vale trocar a abordagem por "como entender melhor cada profissional?"
Organizações de alto desempenho não constroem suas políticas em cima de estereótipos. Elas focam em cada pessoa, valorizam experiências diferentes e criam ambientes onde perspectivas diversas se complementam.
A diversidade de idades é um valioso ativo estratégico, desde que exista espaço real para colaboração, respeito e aprendizado mútuo.
*Mauro Wainstock é palestrante sobre Gerações e consultor em turnover. Membro de 6 conselhos empresariais, foi nomeado 10º influenciador mundial em diversidade e inclusão e TOP RH Influencer América Latina. É jurado do Prêmio Ser Humano, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, LinkedIn Top Voice, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e coautor de 15 livros. Foi idealizador e realizador do "Hacka4All", o primeiro Hackaton sobre diversidade e inclusão do Brasil.