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Normas IFRS se tornam obrigatórias em um ano, mas adesão ainda é mínima

Das 700 companhias na bolsa, só 8 já adotaram novas regras para relatórios de sustentabilidade; integração de dados será grande desafio

Relatórios financeiros: especialistas alertam que maioria das empresas deixou preparação para última hora, em transformação que exige conectar dados financeiros e de sustentabilidade. (DC Studio/Freepik)

Relatórios financeiros: especialistas alertam que maioria das empresas deixou preparação para última hora, em transformação que exige conectar dados financeiros e de sustentabilidade. (DC Studio/Freepik)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 14h43.

Em um ano, empresas de capital aberto no Brasil precisarão apresentar relatórios financeiros integrados a dados de sustentabilidade, seguindo padrões globais estabelecidos pelas normas IFRS S1 e S2.

O relógio tem corrido. As companhias, contudo, não demonstram pressa. Conforme levantamento da Deloitte, mais de 60% planejaram começar a adequação apenas em 2026, deixando para a última hora uma transformação que exige reestruturação de processos e sistemas.

Um "quase atraso", que preocupa especialistas. Afinal, a partir de janeiro de 2027, corporações listadas na bolsa terão de unir dois universos corporativos tradicionalmente separados - o de balanços contábeis e o de relatórios ESG -, que hoje atendem públicos distintos.

Para Reinaldo Oliari, sócio de serviços de Accounting & Reporting Assurance da Deloitte, o cenário é alarmante. "É como preparar o Imposto de Renda na última semana. Há um desafio grande aí", alerta.

A comparação não é exagerada. Segundo a pesquisa da consultoria, 63% das empresas apontam como principais barreiras o custo de adaptação dos sistemas e a conexão entre relatórios ESG e demonstrações financeiras.

Adesão voluntária tem baixa mobilização

O prazo para adesão voluntária às novas regras se encerrou na virada de 2025 para 26. Das 700 empresas listadas na bolsa brasileira, apenas 8 comunicaram formalmente a adoção antecipada do modelo até o último 31 de dezembro.

Entre as adesões mais recentes estão C&A, Grendene e JHSF. Antes, Natura, Irani Papel e Embalagens e a própria B3 já haviam sinalizado o mesmo movimento. Enquanto Renner e Vale lideraram o processo, sendo as primeiras a publicar informações do exercício de 2024 dentro das normas ainda no ano passado.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por adequar o mercado brasileiro à iniciativa global da IFRS Foundation, tem enfatizado que a mudança é fundamental para elevar a qualidade técnica das divulgações corporativas.

A transformação em curso vai além de novas exigências burocráticas.

Trata-se de quantificar em valores monetários como questões climáticas e ambientais afetam os resultados das empresas, estabelecendo projeções de curto, médio e longo prazo. Enquanto o S1 abrange informações financeiras ligadas à sustentabilidade em geral, o S2 foca exclusivamente na agenda climática.

As experiências das empresas pioneiras mostram a dimensão prática dessas mudanças. A Renner projetou que iniciativas como energia renovável e oferta de produtos sustentáveis podem adicionar entre R$ 424 milhões e R$ 488 milhões ao seu fluxo de caixa operacional ao longo de dez anos.

Os obstáculos pela frente

De acordo com Oliari, da Deloitte, a mensuração de emissões na cadeia de valor e as ameças climáticas estão entre os maiores desafios práticos enfrentadas pelas companhias.

O cenário se complica porque muitas organizações estão preparando relatórios financeiros de sustentabilidade pela primeira vez, ou partem de documentos ESG que não dialogam com a área contábil.

O executivo explica que, embora as empresas registradas na CVM e bancos de grande porte possam optar por flexibilizações no primeiro ano - divulgando então apenas riscos e oportunidades climáticas -, as prioridades imediatas envolvem mapear como os negócios são afetados pelos eventos extremos e verificar se há compromissos assumidos na redução e compensação de emissões de gases de efeito estufa.

"O grande desafio está em mensurar as emissões de GEE na cadeia de valor da corporação, e quais investimentos em CAPEX devem ser priorizados considerando a mitigação do risco de transação de equipamentos com menor consumo de energia e combustíveis", destaca.

Além disso, as companhias precisam avaliar alternativas para se tornarem mais resilientes e sustentáveis no longo prazo. Outro ponto crítico é a integração de dados de sustentabilidade com as demonstrações financeiras, uma vez que as informações para conectar esses relatórios não seguem padrões.

"Essa fragmentação exigirá investimentos para que as empresas tenham informações disponíveis para decisões mais precisas e divulgar esses relatórios de maneira mais transparente para investidores e provedores de capital", observa o sócio da Deloitte.

Finanças no comando?

A convergência entre as áreas de finanças e sustentabilidade tem mostrado resultados positivos nas empresas que já iniciaram a adequação.

Conforme Oliari, essa integração tem se revelado um caminho promissor para enfrentar os desafios regulatórios, "por fornecer uma visão estratégia mais ampla dos negócios e visão de longo prazo", explica.

Quanto ao modelo de governança, embora cada organização tenha sua cultura e estrutura de comando, um padrão parece começar a se desenhar: "a liderança de finanças tem se destacado, já que o contador assinará pela responsabilidade técnica, apoiado por comitês de sustentabilidade",diz o especialista.

Neste contexto, a responsabilidade técnica recai sobre o contador da companhia, o que justificria a centralização no CFO, com suporte de comitês dedicados ao tema.

O quebra-cabeça do Escopo 3

As emissões indiretas da cadeia de fornecedores, as chamadas Escopo 3, são apontadas como o ponto mais delicado do processo. Isto porque, no Brasil, é ainda bastante complexo exigir de pequenas e médias empresas, tanto práticas quanto informações ESG consolidadas.

O executivo da Deloitte aponta que as companhias precisarão aprofundar o conhecimento sobre suas cadeias de suprimentos.

"Será preciso apoiar fornecedores estratégicos e priorizar as categorias do Escopo 3 mais relevantes, como bens e serviços adquiridos, transporte e distribuição, criar programas de capacitação para PMEs"

A estratégia pode incluir programas de capacitação para PMEs e uso de plataformas digitais para coleta e integração de dados com sistemas internos.

"Outro aspecto importante é definir metas claras e atingíveis em um horizonte de tempo definido. Planejar e mensurar os impactos com antecedência acelera o processo de preparação e divulgação do relatório", completa Oliari.

Prioridades para 2025

Para o primeiro ano de adequação obrigatória, a sugestão do especialista é focar em temas específicos. "As empresas devem priorizar as divulgações de riscos e oportunidades climáticas e o inventário de emissões de GEE dos escopos 1 e 2 para um relatório mais sucinto e objetivo", orienta.

Paralelamente, ele recomenda que as companhias se concentrem em um processo robusto de materialidade financeira, mensurando riscos e oportunidades de longo prazo. A atenção a esse aspecto não é apenas questão de boa prática, visto que essas informações serão verificadas por auditores independentes

A meta é mitigar riscos de divulgar informações imprecisas ou com erros para investidores e demais provedores de capital.

Com 2025 já em andamento, as empresas que postergarem a adequação terão pouco espaço para corrigir rotas. A transformação exige planejamento e estruturação que não se constroem às pressas.

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