ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

De Sicília a Nazaré: por que as ondas gigantes são um alerta climático

Marinez Scherer, enviada especial da COP30, analisa à EXAME a relação entre aquecimento dos oceanos e eventos extremos: "Precisamos agir antes que se tornem ainda mais severos e irreversíveis"

Localizada ao norte de Lisboa, Nazaré recebe as ondulações gigantes geradas nas tempestades do oceano Atlântico (Getty Images)

Localizada ao norte de Lisboa, Nazaré recebe as ondulações gigantes geradas nas tempestades do oceano Atlântico (Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 08h00.

Em meio à tempestade Ingrid, o brasileiro Will Santana surfou uma onda de mais de 25 metros em Nazaré no sábado, 24, chamando a atenção do mundo.

Mas por trás do "espetáculo", o mar estava desordenado e as correntes intensas transformavam o Atlântico em um cenário de instabilidade extrema.

Dias antes, no Mediterrâneo, o ciclone Harry havia devastado a costa da Sicília com ondas de 10 metros e ventos que chegaram a 150 km/h. O governador Renato Schifani declarou estado de emergência e o evento extremo levou a prejuízos bilionários, infraestrutura destruída e comunidades evacuadas.

Para Marinez Scherer, enviada especial da COP30 para os oceanos, esses eventos não são coincidência e são um reflexo direto de uma realidade climática que já está em curso.

"O aquecimento global intensifica e altera padrões de tempo e clima, elevando a frequência e a gravidade de tempestades, ressacas, secas e inundações", destacou em entrevista à EXAME.

Em Giardini Naxos, o mar literalmente escavou o muro de contenção da estrada, derrubou parte do píer de Schisò e provocou o desabamento de uma pequena praça junto ao calçadão. Vídeos publicados nas redes sociais mostram o Mediterrâneo invadindo ruas e restaurantes, em um retrato cruel das mudanças climáticas. 

O oceano está perdendo o controle?

A cientista faz um alerta que conecta as ondas gigantes do Atlântico à devastação no Mediterrâneo: "Muito disso está diretamente associado ao aquecimento do oceano, que é o principal regulador climático do planeta e está perdendo gradualmente essa capacidade vital de estabilização".

Oceanos mais quentes fornecem mais energia para sistemas meteorológicos. A superfície aquecida acelera a evaporação, alimentando tempestades com mais umidade e potência. O resultado são fenômenos como Harry e Ingrid: ciclones mais poderosos, duradouros e destrutivos.

Embora Nazaré seja conhecida mundialmente por suas ondas grandes devido a formação geológica conhecida como Canhão de Nazaré, a intensidade e frequência desses fenômenos têm aumentado, seguindo a tendência global apontada pela ciência. 

O desafio não é apenas ambiental

Diante desse cenário, Marinez Scherer reforça a urgência de ação concreta. "Precisamos avançar com urgência em políticas públicas e privadas de mitigação e adaptação, especialmente no que diz respeito ao oceano e nas soluções identificadas e mapeadas pelo Pacote Azul da COP30", disse se referindo à iniciativa apresentada na grande conferência climática em Belém. 

O Blue Package é um conjunto de soluções baseadas no oceano focado em restaurar a capacidade dos mares de regular o clima global, desde a proteção de ecossistemas marinhos até a redução da poluição e do aquecimento das águas.

"O desafio que enfrentamos não é apenas ambiental, mas também político e econômico", afirmou a especialista.

Ela cobra por compromissos financeiros concretos de todos os elos da sociedade: setores público e privado, academia e sociedade civil, visando transformar conhecimento em ação antes "que os próximos eventos extremos se tornem ainda mais severos e irreversíveis."

Enquanto a população da Sicília tenta reconstruir o que foi destruído e surfistas desafiam as águas em Nazaré, cientistas reforçam uma tendência preocupante: sem ações efetivas de redução de emissões e proteção dos oceanos, eventos como os ciclones tendem a se tornar mais comuns e intensos.

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasMeio ambienteOceanos

Mais de ESG

Mundo investe 33 vezes mais destruindo a natureza do que preservando, revela estudo

PepsiCo aposta no Brasil para agricultura regenerativa de baixo carbono

A diplomacia circular na era dos egos lineares

Jogos de Inverno usam 85% de neve artificial por causa das mudanças climáticas