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Mudança climática pode tornar metade das pastagens do planeta inadequadas até 2100

Estudo aponta que Argentina, Uruguai e sul do Brasil estão entre regiões com pecuária extensiva ameaçada por aumento de temperatura e secas

Os autores do estudo ressaltam que a redução das emissões de gases de efeito estufa segue como principal escudo contra ameaças climáticas (Marcelo Coelho/Divulgação)

Os autores do estudo ressaltam que a redução das emissões de gases de efeito estufa segue como principal escudo contra ameaças climáticas (Marcelo Coelho/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 11h28.

Última atualização em 20 de fevereiro de 2026 às 16h57.

Mais de 100 milhões de trabalhadores e 1,6 bilhão de animais podem ter que se adaptar ao longo deste século — ou correm o risco de desaparecer com a pecuária extensiva.

Os números são de um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences pelo Instituto Potsdam, que mapeou pela primeira vez o "espaço climático seguro" para a criação de bovinos, ovinos e caprinos a pasto.

A conclusão: com o aquecimento global, esse espaço encolhe.

E o Cone Sul, um dos principais celeiros da carne do mundo — que engloba o Sul do Brasil, Argentina, Paraguai, Chile e Uruguai — terá que encontrar respostas antes que o pasto seque.

O estudo estima que, mantida a trajetória atual de aquecimento global, entre 36% e 50% das áreas hoje consideradas aptas para a pecuária de pastoreio deixarão de sê-lo até 2100.

Clima ameaça agricultura na América Latina

Chaohui Li, pesquisador e autor do estudo, afirmou em comunicado à imprensa que a mudança climática modificará e reduzirá significativamente esses espaços em nível global, deixando menos áreas para que os animais pastem.

"Grande parte dessas mudanças será sentida em países que já enfrentam fome, instabilidade econômica e política e níveis mais elevados de desigualdade de gênero", afirmou.

A pecuária extensiva ocupa hoje cerca de um terço da superfície terrestre livre de gelo. São sistemas produtivos que dependem de condições ambientais específicas — temperatura, precipitação, umidade e vento — para manter a produtividade das pastagens e o bem-estar animal, garantindo a qualidade da carne e dos seus subprodutos. O estudo inova ao delimitar o que os pesquisadores chamam de "espaço climático seguro" para a atividade.

"O pastoreio em pastagens depende fortemente do ambiente, incluindo fatores como temperatura, umidade e disponibilidade de água", explicou Maximilian Kotz, coautor do estudo.

"O que observamos é que a mudança climática vai reduzir os espaços nos quais o pastoreio pode prosperar, o que representa um desafio fundamental para práticas agrícolas que existem há séculos", afirmou.

O que o estudo diz sobre a América do Sul

Embora a África concentre os maiores riscos, a pesquisa traz implicações diretas para a região do Cone Sul.

Argentina, Uruguai e o sul do Brasil (especialmente o bioma Pampa) abrigam um dos maiores estoques de campos naturais do mundo, onde a pecuária é predominantemente extensiva e altamente dependente do regime climático.

O aquecimento global tende a deslocar as faixas climáticas adequadas para o pastoreio.

No Cone Sul, os impactos projetados incluem pressão sobre a disponibilidade de água para dessedentação animal, queda na produtividade das pastagens nativas e estresse térmico sobre os rebanhos, com impacto direto em taxas de concepção e ganho de peso diário.

Os pesquisadores alertam que estratégias tradicionais de adaptaçãosubstituição de espécies ou migração dos rebanhos — podem não ser suficientes diante da magnitude projetada.

Caminhos de adaptação

Os autores do estudo ressaltam que a redução das emissões de gases de efeito estufa, por meio da transição energética, segue sendo a principal ferramenta para evitar os cenários mais extremos.

Para a pecuária do Cone Sul, as opções de resposta incluem:

  • Sistemas de integração lavoura-pecuária, que reduzem a pressão sobre pastagens nativas e melhoram a resiliência do solo;
  • Melhoramento genético de forrageiras adaptadas a estresse hídrico;
  • Rastreabilidade e certificação de baixo carbono, que podem abrir mercados diferenciados;
  • Instrumentos financeiros como seguros paramétricos para perdas climáticas.

O estudo foi publicado em um momento em que a pressão regulatória sobre a cadeia da carne aumenta na União Europeia e em outros mercados importadores. O Cone Sul responde por parcela significativa das exportações globais de carne bovina.

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