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Trump desmonta política climática dos EUA: 'Governo troca ciência por negação', diz John Kerry

Presidente americano elimina "constatação de perigo" que reconhecia gases estufa como ameaça à saúde pública; autoridades reagem e Califórnia promete processar governo federal

Trump defendeu que a decisão "restaura a liberdade de escolha do consumidor" e tornará veículos mais acessíveis às famílias americanas

Trump defendeu que a decisão "restaura a liberdade de escolha do consumidor" e tornará veículos mais acessíveis às famílias americanas

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 17h00.

Última atualização em 13 de fevereiro de 2026 às 17h12.

Na considerada a maior ação desregulatória da história americana, Trump revogou a "constatação de perigo" de 2009, documento científico da era Obama que reconhecia os gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública e ao meio ambiente. 

A política climática fundamentava a autoridade da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) e sua revogação significa um "desmonte das ações" para limitar a poluição e as emissões, especialmente vindas da indústria de petróleo e gás, usinas de energia e veículos.

Com a medida, deixam de valer todos os padrões federais de emissões para veículos dos anos 2012 a 2027 e posteriores, com a promessa de economizar [grifar]US$ 1,3 trilhão aos contribuintes.

Ao lado do administrador da EPA, Lee Zeldin, Trump defendeu que a decisão "restaura a liberdade de escolha do consumidor" e tornará veículos mais acessíveis às famílias americanas, com economia média de US$ 2.400 por veículo.

A agência argumenta que a constatação de 2009 excedeu sua autoridade e que decisões dessa magnitude cabem ao Congresso, não a órgãos administrativos.

A medida também elimina créditos para tecnologias como o sistema start-stop e encerra a base legal que sustentou por 16 anos regulações climáticas no país.

Para a administração Trump, as previsões usadas para justificar a norma não se concretizaram e, mesmo que os EUA eliminassem todas as emissões de veículos, não haveria impacto significativo nos indicadores climáticos globais até 2100.

A decisão provocou reação imediata e contundente de governadores, parlamentares democratas, ex-autoridades e organizações ambientais.

'Troca de fatos por negação custará vidas'

John Kerry, ex-secretário de Estado e ex-enviado presidencial especial para o clima, disse que revogar a constatação de perigo "eleva a governância orwelliana a novos patamares e convida a danos enormes a pessoas e propriedades ao redor do mundo".

"O governo está trocando fatos e ciência por negação e negligência deliberada que custarão vidas, saúde e incontáveis dólares dos contribuintes", afirmou.

O ex-enviado alertou que a medida é "como um fósforo aceso sobre a lenha de furacões, incêndios e secas agravados pelo clima" e citou dados alarmantes: a poluição por combustíveis fósseis é responsável por 216 mil casos de asma infantil e 90 mil mortes prematuras anualmente nos EUA.

"Ignorar os sinais de alerta não impedirá a tempestade. Isso coloca mais americanos diretamente em seu caminho", disse Kerry, classificando a decisão como "tão antiamericana quanto se possa imaginar".

Califórnia anuncia ação judicial

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi categórico ao anunciar que o estado processará o governo federal.

"Esta decisão trai o povo americano e consolida o status do Partido Republicano como o partido pró-poluição", declarou.

"Trump pode colocar a ganância corporativa acima das comunidades e das famílias, mas a Califórnia não ficará parada e nós vamos processar para contestar essa ação ilegal."

O governador advertiu que, se a medida sobreviver aos questionamentos legais, ela levará a mais incêndios florestais mortais, mais mortes por calor extremo, mais enchentes e secas impulsionadas pelas mudanças climáticas e maiores ameaças às comunidades.

Como co-presidente da Aliança Climática dos EUA, Newsom emitiu declaração conjunta com Tony Evers, governador de Wisconsin: "Essa ação é ilegal, ignora a ciência básica e nega a realidade. Não deixaremos de lutar para proteger o povo americano da poluição".

'Abdicação vergonhosa' da agência ambiental

No Senado, o líder da minoria democrata, Chuck Schumer (D-NY), e o senador Sheldon Whitehouse (D-RI) acusaram a EPA de ter "abandonado completamente seu dever de proteger o povo americano da poluição por gases de efeito estufa e das mudanças climáticas".

"Essa abdicação vergonhosa é um fracasso econômico, moral e político e prejudicará a saúde, as casas e o bem-estar econômico dos americanos. Ela ignora fatos científicos e observações de senso comum para servir a grandes doadores políticos", afirmaram.

Os senadores alertaram ainda que a retirada da preempção federal deixa as empresas de combustíveis fósseis "mais vulneráveis a litígios pelos danos causados por seus produtos", e reagiram: "Estados, tribos e governos locais devem assumir essa responsabilidade e responsabilizar as grandes petroleiras pelas décadas de devastação".

Organizações prometem resistência judicial

Diversas organizações científicas e ambientais anunciaram que levarão a decisão aos tribunais. Manish Bapna, presidente do NRDC (Natural Resources Defense Council), foi direto: "Essa ação cínica e devastadora da EPA de Trump não avançará sem uma luta. Nos veremos nos tribunais, e venceremos."

Gina McCarthy, ex-administradora da EPA no governo Obama e ex-conselheira climática nacional da Casa Branca, disse que a EPA prefere passar o tempo nos tribunais trabalhando para a indústria de combustíveis fósseis do que proteger os americanos da poluição e dos impactos crescentes da crise climática. 

Para Lena Moffitt, diretora-executiva da Evergreen Action, a EPA existe por uma razão: proteger a saúde humana e o meio ambiente. "Mas sob Trump e o administrador Zeldin, ela se tornou um esquema de proteção para seus aliados das grandes petroleiras".

"Este governo está orgulhosamente ignorando montanhas de evidências científicas de que a poluição está alimentando enchentes mortais, incêndios florestais e eventos climáticos extremos, apenas para que empresas possam extrair mais alguns dólares em lucros", afirmou Moffitt.

Riscos à competitividade americana

Gretchen Goldman, da Union of Concerned Scientists, classificou a medida como "inconcebível". "Em vez de enfrentar o desafio com as políticas necessárias para proteger o bem-estar das pessoas, o governo Trump abandonou vergonhosamente a missão da EPA", disse.

Alex Stapleton, da Foreign Policy for America, alertou para consequências geopolíticas: "Internacionalmente, afastar-se da ciência climática compromete nossa capacidade de cooperar e competir com países que reconhecem o clima como centrais para seus interesses comerciais, de segurança energética e geoestratégicos."

Segundo Stapleton, a decisão aumenta a probabilidade de que a liderança em setores e tecnologias de energia limpa em rápido crescimento transfira suas operações para fora dos Estados Unidos, levando à perda de empregos e a ganhos econômicos não realizados.

Enquanto a administração Trump sustenta que a medida economizará aos cofres públicos, "restaurando o Sonho Americano", as autoridades alertam que é é um incentivo a indústria poluente com custos incalculáveis para clima, saúde pública e liderança global em energias limpas.

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