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Fundação Dorina Nowill chega a 80 anos como líder em educação em braille; conheça

Organização criada em 1946 pela educadora e ativista quer atingir a 3 mil pessoas atendidas por ano; só em 2025, foram produzidos mais de 5 milhões de livros acessíveis

“Até que todos os livros nasçam 100% acessíveis, nosso trabalho não para”, explica o superintendente-executivo da Fundação Dorina Nowill, Alexandre Munck (Getty Images)

“Até que todos os livros nasçam 100% acessíveis, nosso trabalho não para”, explica o superintendente-executivo da Fundação Dorina Nowill, Alexandre Munck (Getty Images)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 16h10.

Última atualização em 18 de fevereiro de 2026 às 16h12.

Desde 1946, uma organização brasileira trabalha pela inclusão de pessoas cegas e de baixa visão na educação, mercado de trabalho e na garantia de direitos fundamentais. A Fundação Dorina Nowill para Cegos completa 80 anos em 2026 com uma trajetória que se interlaça com a própria criação de políticas públicas para pessoas com deficiência visual no Brasil e no mundo.

Agora, a organização prepara um livro que conta os desafios e oportunidades ao longo das oito décadas de trabalho, mas também para homenagear a filantropa que deu início a toda essa trajetória: a própria Dorina Nowill, educadora e ativista que liderou o trabalho ainda nos anos 1940 e que recebeu em 2024, dez anos após a sua morte, o título de Heroína da Pátria.

“Durante muitos anos, a acessibilidade para cegos era vinculada a pessoa da dona Dorina. Foi ela que bateu na porta dos governos, prefeituras e do Ministério da Educação (MEC) pensando políticas públicas para a população com baixa visão”, afirma Alexandre Munck, superintendente-executivo da Fundação Dorina Nowill, que conversou com a EXAME sobre os planos para o octogésimo aniversário.

A expectativa é que a obra seja lançada ainda neste ano e possa contar a história da organização entre as maiores responsáveis pela educação de pessoas cegas no mundo. Ao longo de anos de trabalho, Dorina foi responsável pela criação de serviços de educação de cegos em todos os estados brasileiros, atuando com o Ministério da Educação, chegando à presidência da União Mundial de Cegos.

Como começou o trabalho?

O trabalho pela inclusão de cegos começou quando Dorina perdeu a visão aos 17 anos após contrair uma doença não identificada. A partir deste momento, ela decide dedicar a vida a uma causa até então esquecida em um mundo conturbado e em recuperação.

Em 1946, os países acabavam se passar pela Segunda Guerra, enquanto o Brasil retomava sua democracia após o fim da ditadura de Getúlio Vargas. O país contava com uma nova constituição e acabara de eleger Gaspar Dutra como presidente nas primeiras eleições em anos.

Como a agenda conturbada dos governos não incluía os direitos da população cega entre as suas pautas, essa foi a prioridade de dona Dorina. A primeira dor foi na educação, explicou Munck, área que sempre interessou a ativista. Ela foi a primeira aluna cega na Escola Caetano de Campos, centro tradicional de formação de educadores em São Paulo. Sua dificuldade era justamente a falta de acesso a livros em braille no Brasil.

“Dorina foi aos Estados Unidos se especializar na educação de cegos na Universidade de Columbia. Lá, conseguiu a doação de uma prensa braille completa”, diz o superintendente.

Assim começou o trabalho de produção de livros em braille que torna a Fundação Dorina Nowill líder no Brasil e América Latina: ainda hoje, a organização é que a mais adapta livros para a leitura de pessoas cegas em todo o continente.

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Com as tecnologias atuais, os livros digitais também são aliados da educação para cegos. Além das prensas, a instituição também conta com um estúdio de gravação dos livros falados. A organização ainda conta com três bibliotecas parceiras que recebem livros em “tinta-braille”, quando contam tanto com a impressão em tinta quanto com a marcação em braille.

Só em 2025, foram mais de 5 milhões de livros (online e digitais) produzidos na Fundação. Nos últimos 5 anos, mais de 50 milhões de páginas foram produzidas em braille. O trabalho conta com doações para avançar, uma vez que cada prensa braille custa entre R$ 20 mil e R$ 30 mil.

Fundação Dorina Nowill atuou na educação brasileira nos últimos 80 anos para garantir avanços no aprendizado de pessoas com baixa visão e cegueira (Getty Images)

Qualidade de vida e dignidade

O sucesso dos livros confirmou que outras oportunidades essenciais para a população cega estavam negligenciadas. Hoje, a Fundação conta com uma série de serviços pensados na qualidade de vida, dignidade e bem-estar das pessoas com baixa visão e deficiência visual no país. Um dos principiais trabalhos são as habilitações e reabilitações, que são o coração do trabalho, segundo o superintendente.

A organização conta com um grupo de profissionais, entre médicos, psicólogos e assistentes sociais, que confirmem o laudo desse paciente e adaptem sua nova vida, agora com as consequências da cegueira. “Quem mora sozinho precisa reconhecer a sua casa, se adequar as questões da rotina e orientar a sua mobilidade com a bengala”, explica.

Todo o processo, segundo Munck, vai de acordo com o tempo de cada pessoa. Para alguns, a perda da visão é lidada como o luto.

“Temos colegas que ficaram anos em casa achando que sua vida tinha acabado. Nosso trabalho como instituição é retornar essa pessoa para a sociedade”, conta.

No ano passado, a organização bateu a meta de 2.215 pessoas atendidas, com cerca de 40 mil consultas, agendamentos e ações. Embora seja um número alto, o líder reconhece o desafio frente os 6 milhões de brasileiros com alguma dificuldade de visão. “Somos a maior instituição focada em cegos no Brasil, mas reconhecemos que precisamos de muitas outras organizações para expandir o trabalho pela inclusão”, diz.

O objetivo para os próximos anos é chegar a 3 mil pessoas atendidas.

Contratação de pessoas cegas

Aumentar a empregabilidade das pessoas cegas e de baixa visão ainda é um dos principais desafios não só para a Fundação, mas para as leis brasileiras. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, o Brasil tem 545 mil pessoas com deficiência ocupando postos de trabalho; destes, apenas 98 mil contam com algum grau de deficiência visual.

Munck explica que o principal obstáculo está justamente na ponta da contratação: as empresas. “Muitas têm a ideia de que contratando uma pessoa com deficiência visual, vão precisar fazer grandes adaptações e investir muito. Não é verdade: os softwares para leitura são na maioria gratuitos. A adaptação é fácil e barata”, relata.

O trabalho da organização nesse tema passa por indicar talentos que atendam os requisitos de oportunidades. “Contamos com um bom relacionamento com empresas, além de um banco de nomes e suas formações e habilidades. Assim, conseguimos encaixar profissionais cegos com as descrições das vagas”, diz.

Avanços da inclusão no Brasil

Para quem sempre enxergou, os avanços da inclusão passam despercebidos. Seja o braille nas teclas dos elevadores ou piso tátil nas ruas, os avanços na adaptação dos ambientes externos são vistos pela Fundação como os principais avanços na inclusão ao longo dos últimos 80 anos. “Hoje os brasileiros já sabem o que é o braille e a sua importância. Conseguimos avançar nessa mudança de cultura”, explica.

Uma das metas da organização também é combater os casos evitáveis da cegueira.

Dados da Fundação apontam que até 80% dos diagnósticos são por casos que poderiam ser combatidos, como por consequência da toxoplasmose, diabetes e outros cuidados de saúde pública.

Ainda são muitos os objetivos a serem cumpridos, segundo Munck. “Até que todos os livros nasçam 100% acessíveis, nosso trabalho não para”, explica. A operação não passa só pela Fundação, mas por professores, escolas, fabricantes de produtos que ainda não contam com descrições em braille e até mesmo profissionais da saúde.

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