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Proximidade com corpos d'água e corredores verdes pode atenuar significativamente a exposição térmica (C. Fernandes/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 11h37.
A desigualdade urbana em São Paulo se manifesta também na temperatura. Levantamento realizado pelo Centro de Estudos da Favela (Cefavela), vinculado à Universidade Federal do ABC, quantificou pela primeira vez as diferenças térmicas entre bairros de alto padrão e favelas da capital paulista. Os resultados apontam variações de até 15°C entre territórios vizinhos.
A partir da análise de 19 imagens de satélite coletadas entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, a pesquisa identificou que enquanto o Morumbi, entre a zona oeste e sul da cidade, registrava temperaturas de superfície em torno de 30°C, Paraisópolis, comunidade localizada a poucos quilômetros de distância, chegou a 45°C. Em Heliópolis, favela na zona sul, os termômetros ultrapassaram 44°C.
O ranking das áreas mais quentes concentra-se na zona sul, particularmente no Capão Redondo, onde quatro das dez favelas com maiores temperaturas estão localizadas. O Jardim Capelinha/Nuno Rolando liderou a lista com 47,4°C, seguido por Jardim D'Abril II e Basílio Teles, ambos acima de 47°C.
As medições referem-se à temperatura de superfície — telhados, pavimentos e solo — geralmente superior à temperatura do ar captada por estações meteorológicas convencionais. Ainda assim, os valores preocupam. A Organização Mundial da Saúde considera que temperaturas acima de 40°C representam risco grave, especialmente para idosos, crianças e portadores de doenças cardiovasculares e respiratórias.
São Paulo concentra 1.359 favelas, segundo o Censo 2022 do IBGE. Embora ocupem aproximadamente 4% do território municipal, abrigam mais de 1,7 milhão de pessoas — cerca de 15% da população total da cidade.
Nesses territórios, caracterizados por alta densidade, circulação de ar limitada e praticamente nenhuma cobertura vegetal, as temperaturas de superfície superam frequentemente os 40°C.
Nesta cidade, moradores fogem do calor vivendo debaixo da terraA configuração urbana explica parte significativa do problema. Construções sobrepostas, vielas estreitas e ausência de arborização criam condições que retêm o calor e impedem a ventilação natural. Em contraste, bairros arborizados com maior renda per capita dispõem de infraestrutura verde, áreas sombreadas e acesso à climatização artificial.
O estudo revela, porém, que a proximidade com corpos d'água e corredores verdes pode atenuar significativamente a exposição térmica. O Jardim Apurá, situado próximo à represa Billings, apresentou temperaturas até 23°C inferiores às do Jardim D'Abril II.
Além das consequências para a saúde, o calor extremo representa um custo adicional para famílias de baixa renda. O uso contínuo de ventiladores e a sobrecarga de refrigeradores elevam o consumo de energia elétrica em domicílios que já enfrentam maiores restrições financeiras e remunerações abaixo da média nos bairros nobres.
Pesquisadores argumentam que a exposição ao calor faz parte de uma área ainda negligenciada da crise habitacional. Enquanto políticas públicas consideram fatores como custo da moradia, densidade domiciliar e qualidade construtiva, o conforto térmico permanece ausente entre os indicadores oficiais.
A incorporação de dados de temperatura de superfície — como por satélites, drones ou medições in loco — é apontada como medida necessária para tornar essa desigualdade mensurável e passível de intervenção.
Especialistas indicam que a implementação de corredores verdes, ampliação de parques urbanos, arborização viária e infraestrutura de drenagem sustentável pode funcionar como mecanismo de redução térmica. Telhados verdes, jardins de chuva e hortas comunitárias são estratégias complementares.