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Apesar das vantagens operacionais, a solução levanta preocupações ambientais (Meg Roussos/Bloomberg via/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 25 de abril de 2026 às 10h02.
A corrida por energia para sustentar o avanço da inteligência artificial tem levado operadores de data centers a adotar uma solução que, até pouco tempo, parecia improvável: a combinação de baterias com geração a gás natural.
A estratégia, que une armazenamento de energia a combustíveis fósseis, vem ganhando espaço como alternativa para garantir fornecimento rápido e estável diante do aumento da demanda por processamento.
Um levantamento da BloombergNEF identificou cerca de 4,9 gigawatts em projetos de armazenamento de energia instalados junto a sistemas de geração fóssil em data centers. Esse volume representa aproximadamente 32% da capacidade anunciada globalmente para baterias em instalações desse tipo.
A adoção da solução está ligada, em parte, às limitações da rede elétrica. Em média, novos data centers enfrentam até quatro anos de espera para obter conexão à infraestrutura tradicional de energia. Diante desse cenário, empresas têm optado por instalar geração própria, muitas vezes baseada em gás natural, combinada com sistemas de armazenamento que garantem resposta rápida às variações de consumo.
As baterias, tradicionalmente associadas à expansão de fontes renováveis, passaram a cumprir um papel diferente nesse contexto. Elas são capazes de fornecer energia quase instantaneamente, compensando falhas ou lentidão das turbinas a gás em momentos de pico de demanda — algo comum em operações de alto processamento, como o treinamento de modelos de inteligência artificial.
“Eu imaginava que as baterias seriam uma ferramenta para descarbonização”, afirmou Michael Thomas, fundador da consultoria Cleanview, em entrevista à Bloomberg. “O que estamos aprendendo nesta nova era da inteligência artificial é que elas também podem ser usadas como uma ferramenta para geração de energia a partir de combustíveis fósseis, porque suas vantagens tecnológicas permitem construir e operar uma usina fora da rede.”
Grandes projetos já adotam esse modelo híbrido. Nos Estados Unidos, iniciativas como o supercomputador Colossus, da xAI, e o complexo GW Ranch, no Texas, preveem a instalação de grandes sistemas de baterias ao lado de geradores a gás para abastecer centros de dados de alta capacidade.
Além de garantir fornecimento contínuo, a combinação também ajuda a reduzir o desgaste das turbinas, que não são projetadas para variações frequentes de carga. As baterias absorvem essas oscilações, contribuindo para maior estabilidade operacional.
Apesar das vantagens operacionais, a solução levanta preocupações ambientais. O uso de gás natural implica aumento das emissões de gases de efeito estufa e pode agravar a poluição local do ar, especialmente em regiões já vulneráveis. Projetos recentes nos Estados Unidos têm sido alvo de críticas e disputas judiciais por esse motivo.
Ao mesmo tempo, especialistas apontam que a tendência reflete um momento de transição no setor energético. As baterias seguem sendo fundamentais para integrar fontes renováveis, mas sua aplicação junto a combustíveis fósseis evidencia a complexidade da expansão energética em meio à crescente demanda por tecnologia.
“Não há nada nas baterias que seja inerentemente limpo”, afirmou Thomas. “Baterias são apenas uma tecnologia.”
Com a expectativa de crescimento contínuo do consumo energético dos data centers — impulsionado por inteligência artificial e serviços digitais —, a combinação entre armazenamento e geração própria deve se expandir nos próximos anos, ainda que cercada por debates sobre seus impactos ambientais e seu papel na transição energética.