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Corais sob ameaça: Bahia e Espírito Santo recebem R$ 14 milhões para conservação

Projeto da CI-Brasil com apoio do BNDES vai financiar pesquisa científica, conservação marinha e turismo regenerativo em uma das áreas de maior biodiversidade do litoral brasileiro

 (vlad61/Thinkstock)

(vlad61/Thinkstock)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 7 de junho de 2026 às 07h58.

Uma das primeiras vítimas do aquecimento global no planeta está debaixo d’água. Os recifes de corais, ecossistemas fundamentais para a biodiversidade marinha, estão entre os ambientes mais ameaçados pela elevação da temperatura dos oceanos.

No Brasil, uma das regiões mais importantes para a conservação desses ecossistemas fica entre Abrolhos, no sul da Bahia, e a Cadeia Vitória-Trindade, no litoral do Espírito Santo. A área, considerada uma das mais biodiversas do Atlântico Sul, acaba de receber um novo projeto voltado à proteção dos corais, ao desenvolvimento científico e ao fortalecimento do turismo regenerativo.

A Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil) dará início ao projeto Abrolhos-Trindade + Resiliente, com aporte de R$ 7,2 milhões do Fundo Socioambiental do BNDES. Com a contrapartida da organização, o valor total chega a R$ 14,4 milhões.

O recurso será destinado a ações de conservação marinha, pesquisa científica, planejamento territorial e geração de renda em comunidades costeiras.

Ciência para proteger os corais

Nos próximos três anos, a CI-Brasil vai atuar em uma área de cerca de 8 milhões de hectares, entre o Espírito Santo e a Bahia.

No Espírito Santo, o foco será ampliar o conhecimento sobre áreas ainda pouco estudadas, especialmente os corais de profundidade da Cadeia Vitória-Trindade. Já na Bahia, o projeto vai apoiar unidades de conservação como as Reservas Extrativistas Marinhas de Canavieiras, Cassurubá e Corumbau, além do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

A proposta é fornecer subsídios técnicos para planos de manejo e estratégias de adaptação às mudanças climáticas.

“A paisagem marinha de Abrolhos a Trindade e Martim Vaz possui características naturais singulares e de grande importância ecológica. É um local com uma imensa diversidade cultural e histórica, que precisa avançar no planejamento territorial para sustentar um turismo regenerativo”, afirma Nátali Piccolo, diretora do Programa Marinho Costeiro da CI-Brasil.

Segundo ela, a ciência é essencial para reduzir a pressão sobre os recifes de corais sem comprometer a geração de renda das comunidades locais.

“É preciso investir em ciência para reduzir a pressão que exercemos sobre os recifes de corais, promovendo renda para as comunidades locais e uma experiência de turismo na natureza e na cultura em harmonia com as comunidades tradicionais”, diz.

Turismo regenerativo como fonte de renda

Além da conservação, o projeto aposta no turismo sustentável como ferramenta de desenvolvimento econômico.

A iniciativa terá parceria da Futuri, hub de turismo sustentável e regenerativo criado a partir de uma aliança entre empresas, comunidades e governos, com idealização e cogestão da CI-Brasil.

O objetivo é fortalecer áreas protegidas, integrar atores locais em redes de governança e criar roteiros que valorizem a cultura regional e a conservação da natureza.

Hoje, a Futuri reúne 308 aliados, atua em nove municípios e conecta empreendedores a nove Unidades de Conservação Federais por meio de uma sugestão de roteiro de 26 dias.

Na prática, a proposta é transformar o turismo em uma cadeia de valor capaz de gerar renda, fortalecer comunidades tradicionais e reduzir atividades predatórias sobre os ecossistemas marinhos.

Abrolhos movimenta economia local

O turismo em Abrolhos já tem peso relevante para a economia regional.

Em 2024, a atividade injetou quase R$ 7 milhões na economia local, segundo estudo do WWF-Brasil, do ICMBio e do coletivo Abrolhos para Sempre.

O mesmo levantamento aponta que as Unidades de Conservação, a pesca e o turismo na região movimentam R$ 1,9 bilhão. As UCs respondem por 30% dos empregos e por 28% da economia associada à pesca e ao turismo.

Para a CI-Brasil, esses números mostram que proteger os ecossistemas marinhos também é uma estratégia econômica.

“Esta parceria com o BNDES consolida nossa atuação de proteção e fortalecimento das comunidades. Nosso histórico em Abrolhos Terra e Mar nos permite aplicar ciência e inovação para garantir que esses ecossistemas continuem sendo vetores de vida e renda”, afirma Nátali.

Comunidades no centro da conservação

A CI-Brasil já investiu R$ 558 mil na estruturação e aceleração de negócios locais na região, com duas rodadas de editais.

Ao todo, 56 empreendedores foram capacitados, sendo 60% dos negócios liderados por mulheres. A iniciativa também já capacitou mais de 100 moradores locais para atuar na economia do mar e apoiou 100 pequenos negócios ligados ao turismo sustentável e à sociobiodiversidade.

No sul da Bahia, o novo projeto prevê ações em reservas extrativistas marinhas e municípios como Una, Canavieiras, Belmonte, Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro, Prado, Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa, na região do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

A estratégia inclui o incentivo à produção de algas marinhas, ao turismo de base comunitária e a modelos de negócio capazes de substituir atividades predatórias por fontes de renda mais sustentáveis.

Corais sob pressão climática

Os recifes de coral são considerados termômetros da crise climática. Com o aumento da temperatura dos oceanos, esses ecossistemas ficam mais vulneráveis ao branqueamento, fenômeno que pode levar à morte dos corais e comprometer toda a cadeia de vida associada a eles.

Além de abrigarem grande biodiversidade, os recifes protegem a costa contra erosão, sustentam atividades pesqueiras e atraem turistas. Por isso, projetos de conservação marinha passaram a incorporar não apenas ações ambientais, mas também estratégias econômicas e sociais.

No caso de Abrolhos-Trindade, a aposta é que ciência, turismo regenerativo e fortalecimento comunitário caminhem juntos. A meta é garantir que uma das regiões marinhas mais importantes do país continue funcionando como fonte de biodiversidade, renda e proteção para as próximas gerações.

Acompanhe tudo sobre:CoralOceanosBiodiversidade

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