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Clube ESG: IA impulsiona corrida por data centers verdes e coloca Brasil no radar global

Especialistas defendem que Brasil reúne energia limpa, escala e demanda digital para atrair investimentos bilionários, mas entraves regulatórios ainda travam avanço do setor

Clube ESG reuniu Camila Ramos, fundadora da CELA Clean Energy, e Christiana Weisshuhn, VP de Marketing e ESG da Scala Data Centers. (Eduardo Frazão)

Clube ESG reuniu Camila Ramos, fundadora da CELA Clean Energy, e Christiana Weisshuhn, VP de Marketing e ESG da Scala Data Centers. (Eduardo Frazão)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 7 de março de 2026 às 14h00.

Última atualização em 15 de abril de 2026 às 09h39.

O avanço acelerado da inteligência artificial está redesenhando o mapa global de energia e infraestrutura digital e o Brasil surge como um dos principais candidatos a protagonizar essa transformação.

Esse foi o tom do Clube ESG da EXAME, que reuniu Camila Ramos, fundadora da CELA Clean Energy, e Christiana Weisshuhn, VP de Marketing e ESG da Scala Data Centers.

Em meio a uma corrida global por capacidade computacional, o país combina uma vantagem rara: abundância de energia renovável, território disponível e um mercado digital em expansão.

“O Brasil tem uma oportunidade única de unir transição energética, infraestrutura digital e competitividade global”, afirmou Camila Ramos durante o evento. “Poucos países conseguem combinar esses três fatores ao mesmo tempo.”

Essa equação ganha ainda mais relevância com a explosão da IA. Segundo dados citados pelas especialistas, data centers dedicados à tecnologia podem consumir até dez vezes mais energia do que estruturas tradicionais.

Hoje, cerca de 1,5% de toda a eletricidade global já é destinada a data centers e esse número deve dobrar até o fim da década.

Leia mais: Na corrida da IA, empresas aceleram para transformar Brasil em hub de data centers verdes

“Não existe hoje um setor com demanda tão imediata por energia quanto o de inteligência artificial”, disse Camila. “E isso está acontecendo em um ritmo que ninguém previa.”

Energia limpa como diferencial competitivo

Enquanto Estados Unidos, Europa e Ásia enfrentam limitações energéticas e maior dependência de combustíveis fósseis, o Brasil parte de uma base privilegiada: cerca de 90% da matriz elétrica é renovável.

Para Christiana Weisshuhn, esse fator pode transformar o país em exportador de infraestrutura digital sustentável.

“Os Estados Unidos têm hoje uma demanda gigantesca por energia, mas não têm a mesma disponibilidade que o Brasil”, afirmou. “Isso abre uma possibilidade de ouro: exportar energia limpa na forma de serviços de data center.”

Além da matriz energética, o país reúne outras vantagens estruturais. “Temos território disponível, temos eficiência energética já comprovada e temos um histórico de operação sustentável”, disse a executiva.

Segundo ela, os data centers brasileiros já operam com níveis de eficiência superiores à média global e com uso hídrico reduzido. “Existe um mito de que data center consome muita água — isso não é mais verdade. As tecnologias evoluíram muito.”

O gargalo regulatório

Apesar do cenário favorável, as executivas foram enfáticas ao apontar entraves que ainda limitam o avanço do setor.

O principal deles é regulatório A aprovação do Redata, regime que reduz a tributação sobre equipamentos importados, está travado.

Hoje, operar um data center no Brasil pode ser até 27% mais caro do que nos Estados Unidos, principalmente por causa da carga tributária sobre servidores.

“Os investimentos estão prontos para acontecer, mas estão em espera”, disse Christiana. “O investidor não vai colocar capital antes de ter clareza sobre o custo.”

Camila reforçou que o país já perdeu tempo na corrida global. “Estamos competindo com Estados Unidos, Índia e outros mercados que já criaram incentivos claros. Se não resolvermos isso rapidamente, o investimento vai para outro lugar.”

Energia abundante, mas mal distribuída

Outro desafio crítico está na infraestrutura elétrica.

Embora o Brasil gere mais energia do que consome, a falta de capacidade de transmissão e conexão impede que essa energia chegue aos novos projetos.

“Não adianta ter energia abundante se ela não chega ao consumidor final”, afirmou Christiana.

Camila acrescentou que o setor vive um momento paradoxal: ao mesmo tempo em que há excesso de geração em determinados períodos — levando ao desperdício de energia — há falta em outros momentos do dia.

“Hoje estamos literalmente jogando energia fora em alguns horários e tendo que acionar outras fontes em outros”, disse.

IA: vilã ou aliada da transição energética?

O aumento do consumo energético causado pela inteligência artificial pode parecer, à primeira vista, um obstáculo à agenda ESG. Mas, na visão das especialistas, o efeito pode ser o oposto.

“A transição energética vai exigir mais consumo de energia, mas será de fontes limpas", explicou Camila. “É uma ponte: saímos de um modelo fóssil para um renovável, mas com maior demanda.”

Além disso, a própria IA deve ajudar a tornar o setor mais eficiente.

“Existe um conceito importante que é o ‘AI for Energy’”, disse Camila. “A mesma tecnologia que aumenta o consumo também vai trazer ganhos de eficiência, novos materiais e formas mais inteligentes de usar energia", complementou.

Christiana reforçou que o setor já nasce com essa preocupação. “A sustentabilidade não é um complemento, ela está no centro do modelo de negócio. Desde o início, pensamos em como crescer com o menor impacto possível", conta.

Janela de oportunidade

Com projeções de até US$ 92 bilhões em investimentos no setor até 2031, o Brasil tem diante de si uma oportunidade estratégica.

A capacidade instalada de data centers pode triplicar e chegar a dez vezes o tamanho atual com a expansão da IA.

Mas o timing é decisivo. “A janela está aberta, mas não vai ficar para sempre”, alertou Camila. “O potencial o Brasil já tem. Agora precisa transformar isso em realidade.”

Para as especialistas, o recado é claro: se resolvermos a competitividade e a infraestrutura, o Brasil tem tudo para se tornar um hub global de data centers verdes. 

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