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'Não confie em promessa de celeridade no licenciamento ambiental', alerta diretora do Ibama

Cláudia Barros destacou os desafios de organizar dados e acelerar processos, em um momento que os holofotes estão na descoberta do petróleo na Foz do Amazonas; Orgão tem 3,8 mil licenças em curso

Cláudia Barros foi uma das palestrantes do Codex Experience, evento realizado em Porto Alegre que discutiu o papel da tecnologia e da governança diante das mudanças climáticas. (Divulgação)

Cláudia Barros foi uma das palestrantes do Codex Experience, evento realizado em Porto Alegre que discutiu o papel da tecnologia e da governança diante das mudanças climáticas. (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 15h35.

Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 15h58.

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A confirmação da presença de petróleo na Foz do Amazonas pela Petrobras no início desta semana reacendeu o debate sobre os riscos ambientais da exploração, em uma região de alta biodiversidade e sensibilidade ambiental. 

A estatal brasileira identificou hidrocarbonetos no poço exploratório Morpho, a cerca de 175 quilômetros do litoral do Amapá, e segue com a perfuração para delimitar a área da descoberta, estimar o volume petrolífero no reservatório e avaliar a viabilidade econômica da operação.

A produção, porém, ainda está longe de começar. Entre os próximos passos, estão concluir estudos sobre o reservatório, analisar sua produtividade e, caso avance para a exploração comercial, cumprir novas etapas regulatórias e de licenciamento ambiental.

Em outubro de 2025, o Ibama havia autorizado apenas a perfuração exploratória no bloco, uma decisão que gerou críticas de ambientalistas às vésperas da COP30, em Belém, e foi entendida como um “boicote ao clima” bastante contraditório para o Brasil.

O tema ganha peso diante dos riscos ambientais e pressão por novas fronteiras de produção de petróleo e gás, ao mesmo tempo em que o país expande em energias renováveis.

Um estudo recente do WWF-Brasil estima que insistir na exploração petrolífera nesta região pode gerar um custo de R$ 47 bilhões para a sociedade brasileira, ao comparar a chamada rota fóssil com alternativas de eletrificação renovável e biocombustíveis.

É nesse contexto mais amplo que a capacidade do Estado de avaliar grandes empreendimentos entra no centro do debate.

Em palestra no Codex Experience, em Porto Alegre, na quinta-feira, 20, Cláudia Jeanne da Silva Barros, diretora de Licenciamento Ambiental do Ibama, falou sobre os desafios do licenciamento ambiental federal e sobre como dados e tecnologia podem ajudar o órgão a organizar informações e melhorar a tomada de decisão. 

“Não confie em celeridade no licenciamento sem pessoal disponível, sobretudo sem organização, sistematização e disponibilização de dados associados a projetos de qualidade. Qualquer coisa fora disso é uma falsa promessa", disse no evento.

Segundo a diretora, o Ibama trabalha atualmente com cerca de 3,8 mil processos de licenciamento ambiental, abrangendo cerca de 35 tipos de atividades.

Entre os principais estão rodovias, hidrovias e linhas de transmissão, além de projetos ligados à exploração e produção de petróleo e gás offshore.

Cláudia destacou que o número de processos cresceu de forma acelerada ao longo dos anos, enquanto a estrutura de servidores responsáveis pelo licenciamento não acompanhou o mesmo ritmo.

Ela chamou atenção ainda para uma característica particular desse tipo de processo: ele pode permanecer ativo por muitos anos.

“O processo de licenciamento ambiental começa, a gente não sabe onde é o meio e não sabe onde é o fim. Ele só morre quando o projeto é descomissionado”, afirmou. 

Para a diretora, isso ajuda a explicar por que o número bruto de processos não revela sozinho a dimensão da demanda enfrentada pelo órgão. Ao longo da vida de um empreendimento, os processos podem ganhar novas etapas, estudos e condicionantes, aumentando sua complexidade.

Infraestrutura para decisões ambientais

Foi nesse ponto que o papel da tecnologia ganhou destaque. A diretora do Ibama afirmou que a alta demanda por licenciamento também aumenta a necessidade de organizar, sistematizar e disponibilizar dados, especialmente diante de um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos.

Cláudia também defendeu que o Estado precisa conhecer melhor o território em que pretende autorizar obras e atividades. E resumiu outro objetivo do esforço de modernização do Ibama: “Organizar as informações para tomar decisão".

A lógica, segundo ela, é que não existe decisão ambiental de qualidade sem informação organizada e sistematizada. Isso vale para o governo, mas também para os demais atores envolvidos no licenciamento, como empresas e sociedade.

A ideia ganha ainda mais força em um país continental e megadiverso como o Brasil, onde projetos de infraestrutura podem atravessar diferentes biomas, comunidades e ecossistemas ambientalmente sensíveis.

Para a diretora, essa diversidade torna ainda mais complexa a tarefa de avaliar os impactos de cada empreendimento.

“Cada vez que a gente planeja uma atividade ou operação, temos essa responsabilidade absurda de trabalhar com toda a diversidade de um país continental", complementou.

Novo sistema do Ibama

A discussão sobre dados também está relacionada a uma mudança em andamento no próprio Ibama. Em agosto, o órgão colocou em operação o primeiro módulo da Plataforma Sapucaia, novo sistema do Licenciamento Ambiental Federal.

A primeira etapa é a Ficha de Caracterização da Atividade (FCA), que passou a ser usada para o cadastro de novos pedidos de licenciamento a partir de 12 de agosto, substituindo o sistema SIGA.

A implantação das demais etapas está prevista em cronograma que segue até 2028, com a substituição progressiva de sistemas atualmente separados e a incorporação das funcionalidades em uma mesma base de dados.

Durante o evento, a especialista também explicou que o Ibama vinha trabalhando com diferentes sistemas, cada um concentrando parte das informações do processo.

A nova plataforma pretende integrar essas bases e organizar os dados também a partir de uma dimensão territorial.

O desafio dos dados antigos

Outro ponto de destaque foi o volume de informações acumulado pelo Ibama ao longo das últimas décadas. A diretora questionou onde estão os milhares de estudos ambientais produzidos durante a história do licenciamento brasileiro.

“Quantos estudos de impacto já foram protocolados nesse órgão? Onde é que estão? Na biblioteca, encaixotados", alertou.

A provocação se referia ao chamado dado legado: informações produzidas em processos antigos que, segundo ela, ainda precisam ser organizadas e transformadas em bases capazes de subsidiar novas análises.

A diretora citou ainda o SISBIA, sistema que reúne e analisa dados legados de biodiversidade associados aos licenciamentos. A ideia é ampliar a capacidade do órgão de reutilizar informações já produzidas em estudos anteriores, em vez de tratar cada novo processo como se partisse do zero.

O debate ajuda a colocar a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas em uma perspectiva mais ampla. Caso a Petrobras confirme a viabilidade comercial e avance para uma futura produção, a região ainda passará por novas avaliações e etapas de licenciamento ambiental.

Enquanto isso, o próprio Ibama tenta modernizar a infraestrutura de informação .

A preocupação com a celeridade também ocorre ainda em meio às mudanças nas regras do setor. Em 2025, o Congresso aprovou e o governo sancionou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que prevê procedimentos simplificados e novos tipos de licença, incluindo modalidades com prazos menores de análise.

Para Cláudia, portanto, a busca por mais velocidade no processo não passa apenas por reduzir prazos e passa também por pessoal, tecnologia, dados organizados e capacidade técnica para transformar em decisão ambiental qualificada.

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