Ucrânia: jovens manifestam pelo país contra a decisão de Zelensky em demitir Fedorov
Estagiária de jornalismo
Publicado em 20 de julho de 2026 às 16h17.
A Ucrânia vive sua maior onda de protestos desde o início da guerra com a Rússia em 2022, contrariando a lei marcial do país. Em reação à saída de Mykhailo Fedorov do cargo de Ministro da Defesa na última sexta-feira, 17, milhares de jovens marcham há dias nas grandes cidades do país para pedir a volta do popular comandante.
Os manifestantes pedem a recondução de Fedorov ao Ministério da Defesa e a saída do comandante-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, enfrenta uma de suas maiores crises políticas internas desde o início dos atos públicos, que passaram a expor divergências sobre a condução da guerra justamente em um momento em que analistas militares avaliam que a Ucrânia recuperou parte da iniciativa no campo de batalha.
Aos 35 anos, Fedorov tornou-se uma das principais faces da modernização das Forças Armadas ucranianas. Antes de assumir o Ministério da Defesa, era conhecido por liderar a transformação digital do governo e por criar iniciativas como a "IT Army of Ukraine" e a campanha "Army of Drones", voltadas ao uso intensivo de tecnologia no conflito.
Nomeado ministro da Defesa em janeiro deste ano, ele passou a defender uma estratégia baseada em drones, inovação tecnológica, análise de dados e reformas administrativas para reduzir burocracias e acelerar a produção e aquisição de equipamentos militares.
Durante sua gestão, também incentivou mudanças nos sistemas de compras militares e apoiou programas que permitiam aos próprios soldados adquirir equipamentos por meio de uma plataforma digital.
Segundo o próprio Fedorov, sua saída foi consequência de um conflito com o comandante-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.
Em entrevista coletiva após deixar o cargo, o ex-ministro afirmou que chegou a pedir a Zelensky a substituição de Syrskyi, alegando que o comandante bloqueava sistematicamente suas propostas de modernização.
Fedorov acusou a atual liderança militar de impedir reformas e afirmou que, enquanto defendia uma estratégia inovadora baseada em tecnologia e drones para enfrentar a Rússia, encontrava resistência da chamada "velha guarda" militar.
Zelensky reconheceu publicamente que havia um conflito entre o Ministério da Defesa e o Estado-Maior. Segundo o presidente, a disputa era antiga e tornou-se incompatível com a condução da guerra, levando à necessidade de escolher entre os dois lados.
A saída de Fedorov foi recebida com forte reação de setores da sociedade civil, militares e especialistas em defesa.
Os manifestantes afirmam que o ex-ministro simboliza a modernização das Forças Armadas e temem que sua substituição represente um retorno a métodos considerados ultrapassados.
Cartazes com frases como "Tragam Fedorov de volta", "Não destruam o que está funcionando" e "Fedorov é inovação" passaram a dominar os protestos.
'Tragam Fedorov de volta': cartaz de manifestante tem um retrato de Oleksandr Syrskyi, Comandante-em-Chefe das Forças Armadas da Ucrânia apoiado por Zelensky, que sofre grande oposição da popução (Foto de Roman Pilipey / AFP)
Em cidades como Kiev, Kharkiv, Odessa e Lviv, milhares de pessoas participaram das manifestações. Grande parte dos participantes é formada por jovens, embora soldados da ativa e veteranos também tenham aderido aos atos.
Um levantamento da empresa Gradus, citado pela Reuters, mostrou que 61% dos ucranianos são contrários à demissão de Fedorov.
Os protestos foram organizados pelo veterano de guerra Dmytro Koziatynskyi, o mesmo ativista que coordenou, em 2025, as chamadas "manifestações dos cartazes de papelão", que pressionaram Zelensky a recuar de mudanças nas agências anticorrupção.
Agora, Koziatynskyi convocou manifestações permanentes caso Syrskyi não seja removido e Fedorov não seja reconduzido ao Ministério da Defesa até 24 de julho.
Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, enfrenta críticas de parte da sociedade, de parlamentares e de militares por adotar um modelo de comando considerado excessivamente centralizado e inspirado na tradição soviética.
Críticos também o acusam de empregar táticas que resultam em elevado número de baixas entre soldados ucranianos.
Quarto ano em guerra: militares ucranianos e civis defendem a modernização das Forças Armadas para combaterem a Rússia (Tetiana Dzhafarova / AFP)
Syrskyi, por sua vez, evitou responder diretamente às acusações de Fedorov. Em mensagem publicada nas redes sociais, afirmou que continuará concentrado na guerra e destacou que o país precisa manter uma estratégia eficaz para enfrentar a Rússia.
Diante da escalada dos protestos, Zelensky iniciou reuniões com alguns dos principais comandantes militares do país, muitos deles apontados como possíveis substitutos de Syrskyi.
Ao comentar as manifestações, o presidente afirmou que elas demonstram o funcionamento da democracia ucraniana mesmo em tempos de guerra e disse que compreende a reação da população.
Seu chefe de gabinete também declarou que "a opinião pública foi ouvida" e prometeu uma resposta às preocupações levantadas pelos manifestantes.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Zelensky também conversou longamente com Fedorov nos últimos dias e discutiu possíveis funções alternativas para o ex-ministro, relacionadas à inovação militar. De acordo com uma fonte próxima ao ex-ministro, porém, ele estaria disposto a retornar apenas ao comando do Ministério da Defesa.
Além das manifestações, a crise já provocou consequências dentro das Forças Armadas. O coronel Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea, pediu demissão em protesto contra a saída de Fedorov, classificando a decisão como prejudicial à capacidade de defesa do país.
Enquanto isso, o Parlamento ainda não concluiu a definição do novo titular da Defesa, e Zelensky indicou provisoriamente o general Yevhen Khmara para exercer o cargo de forma interina.
A indefinição ocorre em meio a uma ampla reforma ministerial promovida pelo governo e coloca pressão adicional sobre Zelensky, que tenta preservar a unidade política e militar em um momento considerado decisivo da guerra contra a Rússia.