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Baterias armazenam eletricidade gerada por fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, para uso quando a demanda é maior
Repórter de ESG
Publicado em 20 de julho de 2026 às 12h00.
Última atualização em 20 de julho de 2026 às 12h06.
Em cinco anos, a China construiu capacidade de armazenamento de energia suficiente para abastecer Texas e Califórnia em um dia de pico de verão.
A aposta? Uma tecnologia que é hoje considerada peça-chave para viabilizar a transição energética em larga escala.
Há cinco anos, as baterias chinesas somavam menos de 4 gigawatts em armazenamento energético, um número ainda irrelevante diante do tamanho de sua rede elétrica.
No primeiro trimestre deste ano, esse volume saltou para cerca de 155 gigawatts e representou um salto de quase 40 vezes em meia década. E o gigante asiático já anunciou a meta seguinte: chegar a 300 gigawatts até 2030.
As baterias resolvem um problema estrutural da expansão de renováveis: energia solar e eólica não geram eletricidade 24 horas por dia. Aí elas entram para absorver a geração nos dias de sol e ventos fortes e devolvem essa energia à rede quando a demanda aumenta.
Somada ao armazenamento, a fonte solar e eólica já responde por 22% do fornecimento elétrico chinês, embora o carvão continue representando mais da metade da eletricidade do país.
O boom do armazenamento chinês também está ligado à alta do uso de data centers e inteligência artificial, que demandam um alto consumo de energia e pressionam a rede elétrica por mais estabilidade.
O governo exige que todo novo data center obtenha ao menos 80% de sua energia de fontes limpas, e a meta é tornar a geração não fóssil a principal fonte elétrica do país até 2030.
No fim da década de 2010, governos locais chineses passaram a exigir que geradoras de energia renovável combinassem seus projetos com sistemas de armazenamento.
A regra atraiu milhares de empresas para o setor, reduziu custos, mas também levou parte delas à falência. Na época, analistas do setor caracterizaram o momento como um "retrato da hipercompetição" e um dos fatores por trás dos desequilíbrios da economia chinesa.
Robin Zeng, fundador da Contemporary Amperex Technology (CATL), maior fabricante de baterias do mundo, criticou publicamente o que chamou de concorrência de preços abusiva, afirmando que fornecedores pressionados pela guerra de preços estariam comprometendo a qualidade dos produtos.
Mesmo assim, a CATL projeta que o armazenamento de energia responda por metade de sua receita global até 2030, ante 15% em 2025.
Os EUA ocupam a segunda posição global em armazenamento de baterias, com 57 gigawatts instalados até o fim do ano passado e a projeção é que esse número pode chegar a 200 gigawatts em cinco anos.
Estados como Califórnia e Nova York criaram metas próprias de armazenamento, e em 2022, a Lei de Redução da Inflação ampliou créditos fiscais federais para o setor.
O maior obstáculo é a cadeia de suprimentos: empresas chinesas controlam o processamento de matérias-primas como lítio, cobalto e grafite, além de dominarem a fabricação de células.
No primeiro trimestre deste ano, os dez maiores fornecedores mundiais de células para sistemas de armazenamento eram todos chineses e representavam 90% do mercado global, segundo a Benchmark Mineral Intelligence.
Em 2025, mais de 90% dos sistemas de armazenamento instalados em solo americano usaram células chinesas.
Mesmo a Tesla, líder em vendas da tecnologia nos EUA, depende da cadeia chinesa: em sua fábrica de Xangai, produz Megapacks para mercados fora dos EUA usando células e componentes da CATL. A Ford, por sua vez, licencia tecnologia da CATL para fabricar produtos de armazenamento para o país.
Segundo Iola Hughes, chefe de pesquisa da Benchmark, os fabricantes chineses se concentraram em baterias de ferrofosfato de lítio (LFP), que usam ferro barato e são adequadas para o fim de armazenar energia.
Segundo a especialista, isso explica por que a tecnologia tornou a escolha natural em qualquer mercado do mundo, hoje dominada pela China.
Washington tenta reduzir essa dependência com apoio de fabricantes de países aliados, como a sul-coreana LG Energy Solution e a Samsung SDI. A
As tarifas de Trump sobre importações chinesas já corroeram parte da vantagem de custo das baterias fabricadas lá, e a Lei "One Big Beautiful Bill", aprovada pelo Congresso americano no ano passado, passou a proibir que projetos de armazenamento com componentes chineses recebam créditos fiscais.
"Se não fossem essas restrições políticas, as empresas chinesas ainda estariam ganhando participação de mercado", disse Zheng Jiayue, analista da Wood Mackenzie, ao the Wall Street Journal.
Enquanto EUA e China travam essa disputa pela cadeia de suprimentos e minerais críticos, o Brasil se prepara para dar seu primeiro passo estruturado no setor.
O Ministério de Minas e Energia publicou em junho as diretrizes do primeiro leilão de armazenamento em baterias da história do país, com dois certames marcados para dezembro: um aberto para produção nacional e outro para equipamentos importados.
Os contratos terão 15 anos de duração, com fornecimento a partir de 2028, e exigirão sistemas de no mínimo 30 megawatts, com tecnologia grid-forming e capacidade de fornecer potência máxima por quatro horas consecutivas.
O mercado brasileiro tem reservas relevantes de lítio, grafite, níquel e terras-raras, insumos-chave para baterias, mas hoje atua sobretudo na extração, sem etapas de processamento e refino em escala nacionalmente.
Um estudo divulgado pelo Instituto E+ Transição Energética alerta que, sem investir nessas etapas de maior valor agregado, o país corre o risco de reproduzir na cadeia mineral a mesma dependência externa que já marca o mercado global de baterias prontas que hoje é dominado pela China.
Para o setor elétrico brasileiro, o leilão é visto como um marco: pela primeira vez o país contratará armazenamento em escala, com potencial para melhorar a integração de fontes renováveis intermitentes como solar e eólica e as mesmas que impulsionaram a corrida chinesa pelas baterias na última década.
Os financiamentos para projetos de energia renovável no Brasil cresceram 10,6% em 2025 e atingiram R$ 36,3 bilhões, com parte expressiva já direcionada a baterias.
Uma projeção da consultoria CELA estima que cada 1 gigawatt-hora de armazenamento contratado no leilão de dezembro pode movimentar R$ 4 bilhões ao longo da cadeia produtiva, desde a fabricação dos equipamentos à construção, operação e financiamento dos sistemas.
O tamanho desse mercado, porém, também depende de quem vai fornecer as células por trás dessas baterias.