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As amigas Rayssa Alves e Juliana Pejon: negócio promissor a partir dos incômodos com preconceito em relação ao Acre, estado em que ambas nasceram. (Marcos Rocha / Amazônia Vox)
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Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 11h33.
Sempre que viajavam para fora de Rio Branco ou mesmo encontrando conhecidos que iam até a capital do Acre, as amigas Rayssa Alves e Juliana Pejon ouviam os mesmos comentários sobre seu lugar, sua gente e território. Embora disfarçados de piada, vinham carregados de preconceito
Até que no carnaval de 2019, decidiram transformar o que incomodava em incômodo, no mesmo tom de "brincadeira", no típico clima de carnaval.
Junto com outras amigas, foram de camiseta básica, com os dizeres "Made in Acre" na frente e "Ainda duvida que ele existe?" nas costas da peça. Não era apenas uma resposta, mas uma provocação e exaltação de seu estado natal.
"Inventamos essa brincadeira para realmente dizer que o Acre existe. Aí acabam as perguntas ou comentários, além de mostrar orgulho de onde viemos", explica Juliana.
A partir de postagens nas redes sociais, vieram os comentários positivos de outros amigos acreanos espalhados pelo Brasil e mundo, que também tinham e ainda tem de ficar respondendo o óbvio. Ali, veio mais inspiração para agir: os dizeres da camiseta poderiam, afinal, virar uma marca.
De volta à capital acreana, Rayssa e Juliana decidiram estudar e levar a sério a ideia, para não ser apenas uma paixão de carnaval e sim um negócio para a vida.
Com a rápida venda das primeiras peças, a dupla passou a ver a marca com outros olhos. Como diz a música, todo carnaval tem seu fim. Porém para as empreendedoras, este era só o começo de um negócio que reforça e valoriza uma identidade e orgulho.
"Fomos entendendo a necessidade, principalmente das pessoas que iriam viajar. E percebemos espaço para outros produtos, entendendo que a missão da Made in Acre era muito mais do que comercializar camisetas exaltando o Acre. ", enfatiza Juliana.
Para além das camisetas, a marca atualmente conta com bonés, chinelos, moletons, regatas, cadernos, bolsas de viagem, pochetes, garrafas e outros objetos. A Made in Acre comercializa também acessórios e alimentos de artesãos e comunidades de povos tradicionais e originários acreanos.
As peças produzidas por fornecedores externos passam por uma curadoria cuidadosa das sócias. O processo considera tanto os produtos quanto a origem, as comunidades e como o trabalho é realizado.
"No início foi muito pelo contato que já tínhamos com comunidades, nas aldeias. Como sempre usamos muitos acessórios indígenas, pensamos que outras pessoas também gostariam de usar", contam.
"Conforme fomos trazendo peças dos artesãos, passamos a receber contato de outros fornecedores para apresentar seus trabalhos. E fazemos questão de enaltecer e valorizar essa identidade acreana".
Entre os parceiros, estão o povo Yawanawá, povo Puyanawá, além de nomes conhecidos do artesanato, design e moda local, como Vanusa Lima e Rodney Paiva.
Um exemplo é o artesão Kleder Bezerra, proprietário da marca Eko Joias, que tem na madeira uma de suas matérias de base na produção das peças. É na pequena oficina, no fundo do quintal de casa, que surgem as peças produzidas pelo artesão.
O profissional produz anéis, colares, braceletes, materiais decorativos, como colares de parede e de mesa, mas são os brincos a sua marca registrada.
"Sou escultor e também trabalho com barro. A partir de 2001 comecei a canalizar tudo isso para as biojoias", conta.
Vivendo há mais de duas décadas dedicadas ao artesanato, Kleder produz biojoias aproveitando o conhecimento que adquiriu com outras atividades.
"Trabalho com sementes e madeira, que são provenientes de refugos de marcenarias, oficinas de madeira, ou até mesmo o que encontro na rua ou na beira do rio. Onde eu encontro uma madeira interessante, eu pego para usar na confecção das peças", conta.
Em cada estampa, as peças carregam um pouco do traço da cultura do Acre. Podem ser grafismos indígenas, expressões locais ou mesmo transformando o preconceito em ironia.
Uma das camisetas mais vendidas é a Dino, que mostra uma pessoa levando um dinossauro na coleira. É uma resposta bem humorada para clichês como a frase que acreano costuma ouvir, de que é um território "perdido" e se as pessoas no Estado "criam dinossauros".
Camisetas e outros produtos trazem desenhos inspirados em grafismo indígena, retratam a fauna e flora, locais, expressões ou pratos bem típicos, como o tradicional "baixaria".
É comum nas feiras e mesmo restaurantes de Rio Branco, servido a qualquer hora do dia, o "baixaria" tem sua base de cuscuz de milho (fubá) misturado com carne moída bem temperada, ovo frito com gema mole, e bastante cheiro-verde (cebolinha e coentro).
Outra expressão lembrada em peças e na loja - que inclusive foi recentemente ampliada - é a que menciona o acreano do pé-rachado, aquele que tem forte raiz no território.
"Pegamos tudo que a gente vive, ouve e do que as pessoas trocam com a gente e nos inspiramos. Usamos a marca como uma forma informativa também", explica Rayssa.
"As pessoas se reconhecem olhando para as peças. Elas veem uma gíria e se identificam. Quando a gente se conhece, sabe da onde veio, a gente sabe para onde a gente vai, essas são as nossas raízes. É uma forma que a Made in Acre acha de compartilhar com os acreanos a sua identidade", afirma.
Mais de 80% da equipe da Made in Acre é composta por mulheres, da criação ao marketing, da costura à gestão.
Além de promover o artesanato e o empreendedorismo feminino, a Made in Acre apoia causas sociais e ambientais.
"Temos uma linha de produtos cuja parte das vendas é destinada à escola de resgate da língua indígena na aldeia Nova Esperança, do povo Yawanawá. Também apoiamos a ONG SOS Amazônia, com a linha Soul Amazônia, destinada a ações de reflorestamento e proteção ambiental", conta Rayssa.
A força da marca ultrapassou fronteiras e chegou a celebridades como o dj Alok, o humorista Whindersson Nunes, a atriz Giovanna Antonelli, o chef Erick Jacquin e outros que já usaram peças da marca. Mas, o que mais orgulha as sócias é ver os acreanos usando as estampas com orgulho mundo afora.
Outro exemplo é a jornalista Venusca Borghi, de 35 anos, moradora de Rio Preto (SP) desde a adolescência. Ela nasceu em Rio Branco, no Acre, mas usa a marca para reforçar sua identidade e origem, mesmo distante há anos.
"A família da minha mãe é do Acre e a do meu pai é de Rio Preto. Eu sempre ouvia piadas e histórias sobre o estado por aqui, e em uma viagem ao Acre, eu conheci a loja quando procurava lembranças para presentear meus amigos de Rio Preto", lembra Venusca.
"Cheguei aqui em uma fase da adolescência que as pessoas tentam se enquadrar, então gerava um pouco de constrangimento, mas com a marca, eu visto a camisa, sim, e faço questão. Hoje eu falo com muito orgulho. Eu achei demais, sensacional a ideia. Eu comprei e sigo elas nas redes sociais até hoje", destaca.
"Somos um povo guerreiro, bravo e lutador. Essa foi a forma que a Made in Acre achou de enaltecer esse povo. Os acreanos merecem esse reconhecimento e se empoderar, cada vez mais, da sua história e das suas raízes", reforça Rayssa.