A alta dos juros nos EUA repercute nos mercados de todo o mundo porque os títulos do Tesouro americano são considerados referência para investimentos globais (Leandro Fonseca/Exame)
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Publicado em 23 de setembro de 2026 às 16h56.
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, elevou a taxa básica de juros para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão busca conter a inflação americana, que permanece acima da meta de 2%, em um cenário de atividade econômica ainda resistente.
A alta dos juros nos EUA repercute nos mercados de todo o mundo porque os títulos do Tesouro americano são considerados referência para investimentos globais. Com uma remuneração maior e baixo risco, esses ativos podem atrair recursos que antes seriam destinados a mercados emergentes, como o Brasil.
Por aqui, segundo especialistas e analistas de mercado, um dos principais efeitos pode ocorrer no câmbio. Se investidores reduzirem a exposição a ativos brasileiros e direcionarem recursos para os Estados Unidos, a demanda por dólar tende a aumentar, podendo pressionar o real.
Carlos Eduardo Oliveira Jr., conselheiro do Corecon-SP e presidente do Sindecon-SP, reforça que esse movimento impacta diretamente os fluxos externos: “Com isso, parte dos investidores estrangeiros pode retirar recursos do Brasil para aplicar nos EUA, reduzindo a entrada de capital no País. Esse movimento aumenta a demanda por dólares e pode provocar a valorização da moeda americana frente ao real.”
A alta da moeda americana também pode afetar a inflação brasileira, ao encarecer produtos e insumos importados. O impacto, porém, depende de outros fatores, como preços das commodities, cenário fiscal e fluxo comercial. A Bolsa brasileira também pode sentir os efeitos dessa mudança, já que juros mais elevados nos EUA reduzem o apetite por investimentos considerados mais arriscados.
“Na minha visão, a primeira pergunta que o investidor global faz hoje não é ‘quanto o Brasil paga?’, mas ‘por que eu deveria sair do dólar?’ [...] Os Estados Unidos voltaram a oferecer retorno com liquidez, moeda forte e um nível de segurança que poucos mercados conseguem reproduzir", avalia o cofundador da Davila Finance, especialista em estruturação de negócios e relacionamento com investidores, Leandro Sobrinho.
“O investidor que coloca dinheiro em reais aceita risco de câmbio, de regra, de execução e de liquidez. Se ele não enxerga uma compensação clara para isso, ele prefere ficar em dólar ou espera um momento mais favorável. [...] O projeto brasileiro vai disputar recursos com títulos americanos, crédito privado em dólar e ativos imobiliários nos Estados Unidos. Para vencer essa disputa, não basta ser barato. Tem de ser previsível, bem estruturado e ter uma tese de retorno que se sustente”, complementa Leandro Sobrinho.
Efeitos na Selic e no mercado
Com a alta dos juros nos Estados Unidos, diminui o diferencial entre as taxas brasileiras e americanas, reduzindo a atratividade do Brasil para o capital estrangeiro e pressionando a inflação através da valorização do dólar. Por esse motivo, os especialistas projetam a possibilidade de o Banco Central brasileiro pausar os cortes da Selic.
Para as empresas
Esse ambiente global restritivo repercute diretamente sobre empresas e consumidores. Segundo Oliveira Jr., para as companhias "pode haver aumento dos custos de financiamento e de importação", enquanto para os consumidores "o dólar mais caro pode elevar os preços de produtos e serviços, pressionando a inflação".
Para os investidores, os Estados Unidos voltam a exigir maior critério, mas oferecem retornos sólidos e seguros em moeda forte. Como destaca Leandro Sobrinho, "o mercado americano voltou a exigir critério, mas também voltou a oferecer uma referência concreta de retorno em dólar", o que significa que "o Brasil continua tendo oportunidades, mas precisa pagar pelo risco que carrega" para continuar atraindo recursos.