Apesar de ampliar a oferta marginalmente, a estratégia do governo Trump de liberar barris venezuelanos não neutraliza o temor de um choque sistêmico no Golfo Pérsico. (Getty Images/Montagem/Exame)
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Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 19h53.
A escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã voltou a colocar os preços do petróleo no centro do tabuleiro geopolítico global. Mesmo com tentativas da Casa Branca de ampliar a oferta internacional — incluindo a liberação de barris venezuelanos — o mercado segue reagindo principalmente ao risco de uma disrupção no Oriente Médio, com a possibilidade de o Irã impedir a navegação de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
Desde dezembro de 2025, o barril do tipo Brent, que é referência internacional, abandonou a média próxima de US$ 60 e voltou a oscilar em patamares mais elevados, chegando recentemente à faixa de US$ 67 a US$ 70. Para analistas, esse movimento reflete menos uma escassez imediata de oferta e mais a incorporação de um prêmio de risco geopolítico.
“O mercado já embute um ‘prêmio de risco’ relevante, mas ainda parcial. Os preços reagem a cada episódio de segurança no Golfo, sem precificar plenamente um cenário de interrupção sustentada do fluxo pelo Estreito de Ormuz”, avalia Leonardo Andreoli, analista da Hike Capital. Segundo ele, a volatilidade recente tem sido impulsionada sobretudo pela geopolítica, enquanto os fundamentos — como estoques globais e decisões da Opep+ — permanecem relativamente estáveis.
Esse receio fica ainda mais evidente no mercado financeiro. Andreoli destaca que houve aumento da demanda por instrumentos de proteção contra alta nos preços, sinalizando que investidores estão dispostos a pagar mais caro para se proteger de um evento extremo. “O gatilho para uma nova disparada costuma ser a transição do risco retórico para o risco físico, como ataques a navios, restrições ao trânsito ou sanções que reduzam materialmente as exportações iranianas”, afirma.
Na mesma linha, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, lembra que episódios recentes — como o abate de um drone iraniano e a aproximação de embarcações armadas no Estreito de Ormuz — já foram suficientes para elevar as cotações. “O preço reage à percepção de risco de oferta, não a uma interrupção efetiva. Uma alta mais forte exigiria uma escalada que afetasse de fato a produção ou a logística do petróleo”, diz.
Esse contexto ajuda a explicar por que a estratégia do governo de Donald Trump de liberar barris venezuelanos tem tido efeito limitado. Apesar de ampliar a oferta marginalmente, a medida não neutraliza o temor de um choque sistêmico no Golfo Pérsico.
“É uma válvula de oferta com limitações de volume, tempo e qualidade. A Venezuela ajuda na margem, mas não anula um prêmio de risco que o mercado ajusta em horas”, destaca Andreoli. Lima acrescenta que obstáculos logísticos e regulatórios impedem que esses volumes cheguem ao mercado com rapidez suficiente para conter a volatilidade.
Para o Brasil, que ocupa hoje uma posição híbrida — produtor, exportador e importador de derivados — os efeitos desse cenário são ambíguos. O canal mais imediato é o dos combustíveis, sobretudo o diesel, com impacto direto sobre fretes, alimentos e bens industriais. “Mesmo quando o preço internacional cede pontualmente, o repasse ao consumidor pode ser defasado ou inexistente, mantendo a sensibilidade do IPCA”, observa Andreoli.
Na inflação, o efeito tende a ser indireto, mas persistente, podendo contaminar expectativas e até o câmbio. Isso dificulta o trabalho da política monetária. “O aumento do risco inflacionário ocorre justamente quando o Banco Central busca consolidar a desinflação”, pondera Lima.
Segundo o analista, por outro lado, preços mais altos do petróleo elevam receitas de royalties e participações governamentais, além de favorecer empresas exportadoras do setor. Como o Brasil é exportador líquido de óleo cru, o valor das exportações sobe, ajudando a balança comercial e, em alguns momentos, a estabilidade cambial. Esse benefício, contudo, pode ser parcialmente compensado por uma conta maior de importação de derivados e por eventuais custos fiscais, caso o governo opte por amortecer os preços internos.