Banco Central (Leandro Fonseca/Exame)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 17 de março de 2026 às 06h01.
A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que acontece entre hoje e quarta-feira, 18, tende a marcar o início do ciclo de queda da taxa básica de juros, a Selic, no Brasil — mas a intensidade desse primeiro movimento passou a dividir o mercado financeiro após a escalada do conflito no Oriente Médio e o salto nos preços do petróleo.
A Selic está em 15% ao ano desde maio de 2024.
Nas últimas semanas, o barril do Brent saiu da casa dos US$ 70 para níveis próximos de US$ 100, movimento que elevou as incertezas inflacionárias globais e levou parte dos economistas a revisar suas projeções para a política monetária brasileira.
Antes da deterioração do cenário externo, a expectativa predominante entre analistas era de que o Banco Central iniciaria o ciclo com um corte de 0,50 ponto percentual. Agora, cresce a avaliação de que o Copom pode optar por um movimento mais cauteloso de 0,25 p.p -- e alguns analistas já apostam na manutenção da taxa básica de juros.
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Entre as casas que revisaram suas expectativas está o Goldman Sachs, que passou a projetar um corte menor já nesta reunião. “Acreditamos que o Copom iniciará o ciclo de normalização com um corte cauteloso de 25 pontos-base, levando a Selic para 14,75%”, escreveu o banco em relatório recente.
Segundo os economistas da instituição, o cenário-base do Banco Central foi “alterado pelo conflito no Oriente Médio”, que provocou forte alta nos preços do petróleo, fortalecimento do dólar, achatamento baixista da curva de juros dos EUA, aumento da aversão ao risco e condições financeiras mais restritivas"..
“Diante da elevada incerteza macroeconômica e geopolítica, há valor em adotar prudência no corte inicial da Selic”, diz o relatório.
O banco também ressalta que a inflação doméstica segue desafiadora, com pressões relevantes em serviços e mercado de trabalho ainda apertado.
Avaliação semelhante aparece em relatório do Itaú que revisou seu cenário após a escalada do conflito.
“Em meio à incerteza mais elevada e a um balanço de riscos menos favorável, associado à alta relevante nos preços do petróleo, passamos a esperar o início do ciclo de flexibilização com um modesto corte de 25 p.b. (frente a um ajuste de 50 p.b. no cenário anterior), levando a taxa Selic para 14,75% a.a.”, diz o relatório, divulgado nesta segunda-feira, 16.
Segundo o banco, o choque recente no petróleo elevou significativamente o grau de incerteza do cenário.
“O preço do Brent passou de USD 72/bbl na véspera do início do conflito no Oriente Médio para cerca de USD 103/bbl atualmente, representando uma alta de 43% e exibindo volatilidade maior que o usual”, afirmam os economistas.

Ainda assim, o Itaú destaca que os canais secundários do choque inflacionário permanecem relativamente contidos.
“Até o momento, esses canais secundários permanecem relativamente contidos. A taxa de câmbio tem resistido bem ao aumento da aversão ao risco, refletindo sobretudo o elevado diferencial de juros e a melhora dos termos de troca”, diz o documento.
Apesar do aumento das incertezas externas, há instituições que ainda veem espaço para um primeiro corte mais expressivo de juros. A avaliação do economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, é que o nível atual da taxa de juros permanece bastante restritivo após o ciclo de aperto monetário dos últimos anos.
O relatório reconhece, no entanto, que o aumento da incerteza global pode levar o Banco Central a iniciar o ciclo com um movimento menor.
“Ainda assim, reconhecemos que o Banco Central pode optar por iniciar o ciclo com um corte menor, de 0,25 p.p., em razão do aumento recente das incertezas no cenário internacional, com a escalada das tensões no Oriente Médio”, diz Sung em análise.
Em outra ponta, a XP revisou sua posição na noite de segunda-feira, 16. A casa reverteu a previsão de um corte de 0,50 ponto percentual para manutenção da Selic em 15% ao ano.
Para os economistas da instituição, a atividade econômica, que havia dado sinais de desaceleração em 2025, voltou a acelerar no começo deste ano. O desemprego está nas mínimas históricas, o crédito avançou e o consumo das famílias segue robusto. Nas contas da XP, o PIB do primeiro trimestre de 2026 cresceu a um ritmo anualizado de 4% — bem acima do que se esperava no início do ano.
Além disso, eles apontam que os núcleos do IPCA, que filtram variações mais voláteis de preços e servem como termômetro da inflação subjacente, aceleraram em fevereiro.
Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em 7 de março de 2026 (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)
Grande parte da cautela do mercado está ligada ao impacto potencial da alta do petróleo sobre a inflação. Estudo do departamento econômico do Banco Daycoval mostra que o choque nas commodities energéticas pode alterar significativamente o cenário inflacionário.
“Ao utilizar versão do modelo de projeções do BC e considerar o preço do petróleo em US$ 80, as projeções de inflação se elevam de 3,4% para 5,0% em 2026 e de 3,2% para 3,7% no 3° tri de 2027”, aponta o Daycoval.
Segundo os economistas do banco, o impacto inicial ocorreria principalmente por meio dos preços administrados. “No curto prazo (2026), o aumento dos preços administrados é o principal canal de pressão sobre o IPCA, em especial devido aos efeitos sobre os combustíveis”, diz o relatório.
No médio prazo, porém, os efeitos podem se espalhar pela economia. “A projeção de serviços pode subir de 4,5% para 6,4% este ano e de 3,7% para 5,8% no horizonte relevante [o período de 18 meses que o BC considera para a inflação] caso o preço do barril de petróleo passe a situar em 80 dólares”, afirma o banco.
Dados semelhantes foram calculados pela equipe do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME). A instituição estima uma alta de 5,4% do IPCA neste ano caso o barril de petróleo fique em US$ 100 por um período prolongado.
Se o barril ficar em US$ 80, o IPCA poderia chegar a 4,7% -- ante as estimativas de 4,1% hoje.