Petróleo: alívio no preço do barril é sentido após trégua da guerra no Irã. (Montagem com elementos Canva/Exame)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 11 de março de 2026 às 06h01.
A alta do barril de petróleo, que chegou a ser negociado próximo a US$ 120 na segunda-feira, 9, por causa da Guerra do Irã, causa preocupação entre economistas sobre o efeito do aumento na inflação no Brasil e, consequentemente, um impacto no ciclo da política monetária — leia-se: mudança na expectativa de cortes, e sua magnitude na taxa básica de juros, a Selic.
Após um dia de intensa volatilidade, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o conflito acabaria "em breve", o que pareceu acalmar, ao menos momentaneamente, os mercados. A cotação de contratos para maio do tipo Brent, referência mundial, fechou o pregão em US$ 98,96 por barril. Nesta terça-feira, 10, encerrou em US$ 87,80.
A oscilação pode afetar — e muito — a inflação no Brasil. Uma projeção do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) traz cenários para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com diferentes cotações do barril do petróleo.
No cenário considerado de referência, com o petróleo a US$ 65 por barril, o IPCA de 2026 ficaria em 4,1%, enquanto a inflação de 2027 recuaria para 3,8%. Nesse ambiente, a inflação se mantém relativamente próxima da meta ao longo do horizonte relevante da política monetária (os próximos 18 meses).
Em comparação, o boletim Focus, que concentra as estimativas do mercado, prevê um IPCA de 3,91% ao final deste ano
Caso o preço do petróleo suba para US$ 80, a inflação de 2026 avançaria para 4,7%, refletindo principalmente a pressão direta sobre combustíveis e custos de transporte. Em 2027, o IPCA ficaria em 3,9%, ainda próximo do cenário base, mas com maior persistência inflacionária.
| Brent (US$/barril) | Balança comercial (Variação, US$ bi) | Primário Gov. Central (Variação, R$ bi / % PIB) | Primário SPC (Variação, R$ bi / % PIB) | IPCA 2026 (pp) | IPCA 2027 (pp) | Projeção BC IPCA 2T27 (pp) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 65 (base) | - | - | - | 4.1 | 3.8 | 3.1* |
| 80 | 8.5 | 23.0 / 0.2% | 41.9 / 0.3% | 4.7 | 3.9 | 3.3 |
| 90 | 14.4 | 38.3 / 0.3% | 69.8 / 0.5% | 5.0 | 4.1 | 3.6 |
| 100 | 20.3 | 53.6 / 0.4% | 97.7 / 0.7% | 5.4 | 4.2 | 4.1 |
Fonte: BTG Pactual*Preço a US$ 70/barril
No cenário mais pressionado, com o petróleo a US$ 100, a inflação de 2026 subiria para 5,4%, indicando forte transmissão do choque de commodities para os preços domésticos. Em 2027, o IPCA permaneceria elevado, em 4,2%.
Em todos os cenários, a equipe econômica da instituição financeira estima que esses preços do petróleo se sustentariam ao longo do tempo.
"A pergunta é a extensão e a duração da guerra. Os números já sabemos. A questão é saber o quão permanente é esse fenômeno agora", diz Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e pesquisador associado do FGV IBRE.
A opinião é compartilhada por Silvio Campos Neto, sócio e economista-sênior da consultoria Tendências. A falta de clareza sobre a duração do conflito — uma semana, um mês, seis meses? — dificulta as projeções. "Mas está mais evidente que não é algo que vai acabar no curtíssimo prazo, sobretudo se o objetivo for o que se fala, de mudança de regime no Irã", diz.
No que diz respeito à inflação, outra dúvida emerge: quanto do aumento do barril será repassado pela Petrobras aos preços da gasolina e do diesel nas bombas?
A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) afirmou na segunda-feira, 9, por exemplo, que a defasagem do preço do diesel vendido pela petroleira nacional em relação ao praticado no mercado externo atingiu recorde de 85%. A entidade estima que esse hiato espaço para uma alta de R$ 2,74 por litro de diesel. O preço do diesel não sofre reajuste há mais de 300 dias.
No Brasil, a concretização desse cenário depende do repasse da Petrobras. No final da semana passada, a presidente da estatal, Magda Chambriard, disse não haver uma mudança de política de preço de combustível em estudo.
Na ocasião, ela apontou que, caso a alta do petróleo observada nos últimos dias se intensificasse, a Petrobras teria de reagir depressa. "Nesse momento, essa questão ainda não está respondida. Se essa volatilidade for tão grande assim, certamente ela vai exigir respostas mais rápidas do que seriam exigidas se a alta fosse mais lenta", disse a executiva.
ANÁLISE: O dilema da Petrobras com a disparada no preço do petróleo
Campos Neto aponta que, nos últimos anos, a petroleira tem repassado mais o custo para o preço da gasolina do que para o diesel e absorvido parte da volatilidade dos preços de mercado — algo natural, ressalta o economista.
Nas contas da Tendências, um barril a US$ 100 e um dólar a R$ 5,30 levariam a um impacto de 0,9 ponto percentual no IPCA. A conta não considera o diesel, que pode ter efeitos em cascata, nem efeitos secundários do aumento dos combustíveis para outros itens da economia.
A consultoria prevê uma inflação neste ano de 4,1% e discutia a até pouco uma redução na projeção. "Diante desse evento, essa revisão está suspensa", afirma Campos Neto. "Estamos monitorando esses eventos para tentar entender o quanto vai se incorporar."
Para ele, é possível que o impacto inflacionário não seja tão grande. "O mercado de petróleo estava sobreofertado. Se daqui a três meses tiver uma reversão do conflito, tenderia a cair o preço [do barril]", afirma. "O que quero dizer: se porventura se reverter o quadro ainda neste ano, mesmo que mude em 6 meses, o efeito da inflação conseguiria ser mitigado."
Donald Trump: falas do presidente dos EUA sobre guerra estar próxima do fim arrefeceram altas do petróleo, mas cenário segue incerto (SAUL LOEB /AFP)
Apesar do choque de oferta, o BTG manteve a projeção de início de corte da Selic em março — na magnitude de 0,5 p.p. —, com previsão de que a taxa básica de juros finalize o ano em 12%.
"À luz da comunicação desde a última reunião e do nosso cenário prospectivo, mantemos a projeção de corte de 50 pontos-base (pb) na reunião do Copom em março, com manutenção desse ritmo nas reuniões subsequentes e Selic terminal em 12% em 2026. Eventual aceleração do ritmo de cortes nas reuniões seguintes ocorreria apenas se o conjunto de evidências reforçar, de forma mais ampla, um cenário de convergência mais confortável da inflação", diz trecho do relatório de cenário macroeconômico de março do banco.
No cenário de referência, com Selic do Focus, taxa de câmbio de R$5,25 e o barril a US$80, os economistas da instituição estimam que a projeção de inflação desta reunião de março para o terceiro trimestre de 2027 (o horizonte relevante de política monetária) seria de 3,4%, acima dos 3,2% projetados na reunião de janeiro.
"Em uma trajetória suavizada para o preço do petróleo – hipótese que consideramos mais adequada no contexto atual – a projeção seria ligeiramente menor, de 3,25%", aponta o relatório.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o cenário atual é de uma inflação caminhando para 5% ao ano. "Neste momento, com uma projeção entre 4,5% e 5%", diz. "Isso complica bastante a vida do Banco Central."
Ele lembra que, mesmo antes da guerra, o IPCA-15 de fevereiro mostrou aumento da preocupação com a inflação de serviços. "Foi um resultado melhor do que em fevereiro de 2025, mas trouxe algum grau de preocupação", afirma.
Por isso, aponta, o BC precisará trabalhar com cautela e, possivelmente, manter a Selic como está — em 15% ao ano.
"Há riscos suficientes para o BC ser cauteloso e não baixar os juros [na próxima reunião]. Esse está virando o cenário-base: de manutenção da Selic em 15% na próxima reunião. Em começo de maio [quando o Copom se reunirá novamente], com cenário um pouco mais claro sobre a guerra, pode decidir o que fazer", diz Vale.
Campos Neto, da Tendências, aponta para uma possibilidade de uma saída salomônica do BC. "Existe um risco de a inflação sair do patamar de 4% para 5%. O BC vai ter que levar isso em consideração, mesmo que não seja o mais provável por ora", diz Campos Neto. "Mesmo com essa incerteza no radar, que pode levar a inflação a ficar acima da meta, as decisões de política monetária precisam levar isso em conta."
Por isso, o cenário da consultoria permanece de uma queda de 0,5 p.p. na próxima semana — e uma Selic em 12,5% a.a. em dezembro. "Mas o risco de ser um corte de 0,25 p.p. aumentou substancialmente. Se nada mudar, a chance de um corte de 0,25 p.p. vai se tornar majoritária caso haja continuidade do cenário atual."
Ele lembra que, caso isso aconteça, será importante olhar atentamente ao comunicado dos diretores e que os membros do Copom já utilizaram os termos "serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária".