Ciência

Bactéria de 5 mil anos resistente a antibióticos é achada em caverna de gelo

Estudo na Romênia analisou microrganismo do gelo e encontrou mais de 100 genes ligados à resistência e possível ação contra superbactérias

Imagem da "menor forma de vida do mundo", uma bactéria de tamanho médio de 0,009 mícrons cúbicos (Reprodução/Berkeley Lab)

Imagem da "menor forma de vida do mundo", uma bactéria de tamanho médio de 0,009 mícrons cúbicos (Reprodução/Berkeley Lab)

Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 12h57.

Bactérias preservadas em uma camada de gelo com cerca de 5 mil anos foram encontradas na Caverna de Gelo de Scărişoara, na Romênia. O material foi analisado por cientistas para investigar como microrganismos antigos podem guardar pistas sobre a falha de antibióticos no combate a infecções.

Segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology, uma das cepas isoladas — chamada Psychrobacter SC65A.3 — mostrou tolerância a vários medicamentos modernos. A análise genética identificou mais de 100 genes associados a esse tipo de defesa bacteriana.

Os pesquisadores afirmam que esse achado pode ajudar a entender como esses mecanismos surgiram e evoluíram naturalmente no ambiente, muito antes do uso clínico de antibióticos. Ao mesmo tempo, os testes indicaram que a cepa também pode inibir o crescimento de superbactérias e apresenta atividades enzimáticas com potencial para aplicações biotecnológicas.

A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias desenvolvem formas de reduzir ou anular o efeito de medicamentos usados no tratamento de infecções. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que esse fenômeno esteve ligado a 1,27 milhão de mortes em 2019, o que mantém o tema como uma preocupação global.

Perfuração no gelo

Para acessar o material preservado, a equipe extraiu um núcleo de gelo de 25 metros em uma área da caverna conhecida como Grande Salão. O núcleo representa um período de cerca de 13 mil anos, permitindo observar microrganismos presentes em diferentes camadas e épocas.

Os fragmentos foram colocados em sacos estéreis e mantidos congelados durante o transporte até o laboratório, como forma de reduzir o risco de contaminação. A partir desse material, os cientistas isolaram várias cepas bacterianas e sequenciaram seus genomas.

O sequenciamento foi usado para mapear genes ligados à sobrevivência em baixas temperaturas, além de identificar características associadas à tolerância a medicamentos e à atividade antimicrobiana.

Testes com antibióticos

Em seguida, os pesquisadores testaram a cepa SC65A.3 contra 28 antibióticos de 10 classes. Os resultados apontaram tolerância a 10 medicamentos, descritos pelos autores como amplamente usados na prática clínica, tanto em terapias orais quanto injetáveis.

Entre os antibióticos citados no estudo estão rifampicina, vancomicina e ciprofloxacina, que podem ser usados no tratamento de infecções graves. Doenças como tuberculose, colite e infecções do trato urinário aparecem entre os exemplos de quadros tratados com alguns desses medicamentos.

O trabalho também destaca que a SC65A.3 é a primeira cepa do gênero Psychrobacter descrita como resistente a antibióticos como trimetoprima, clindamicina e metronidazol, utilizados no tratamento de diferentes tipos de infecção.

O que pode mudar

Os autores apontam que microrganismos capazes de sobreviver em ambientes extremamente frios podem funcionar como reservatórios de genes ligados à resistência, carregando sequências de DNA que favorecem a sobrevivência diante da exposição a antibióticos.

Nesse contexto, o estudo alerta para um risco. Se o derretimento do gelo liberar microrganismos antigos, esses genes podem ser transferidos para bactérias atuais, o que teria potencial para ampliar o desafio global.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacam que essas bactérias também podem produzir enzimas e compostos antimicrobianos incomuns, com potencial para inspirar novos antibióticos e aplicações industriais.

A análise genética mostrou ainda que o genoma da Psychrobacter SC65A.3 reúne quase 600 genes com funções desconhecidas, que podem conter pistas para novas aplicações. A cepa também apresentou 11 genes com potencial para matar ou inibir o crescimento de outros microrganismos, incluindo bactérias, fungos e vírus.

Os autores concluem que o estudo de microrganismos preservados em gelo pode ampliar o entendimento sobre a evolução natural desses mecanismos. Eles também reforçam que o manuseio desse tipo de material exige medidas de segurança em laboratório para reduzir riscos.

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