Terremoto: estudo confirmou abalos sísmicos em profundidades consideradas incomuns (Freepik)
Redatora
Publicado em 8 de junho de 2026 às 08h55.
Cientistas confirmaram a existência de um tipo raro de terremoto que ocorre muito mais profundamente do que a geologia considerava possível sob continentes. A descoberta, liderada por pesquisadores da Universidade de Utah, revelou que um tremor registrado em 1979 teve origem a cerca de 90 quilômetros de profundidade, em uma região do manto terrestre onde as rochas deveriam se deformar lentamente em vez de se romper de forma abrupta.
O estudo, publicado nas revistas científicas The Seismic Record e Geophysical Research Letters, analisou novamente dados sísmicos históricos e identificou uma categoria pouco conhecida de eventos chamada de "terremotos do manto continental". A descoberta desafia conceitos estabelecidos há décadas sobre os limites onde os terremotos podem ocorrer.
O caso começou na madrugada de 24 de fevereiro de 1979, próximo à cidade de Randolph, no norte de Utah, perto das fronteiras com Idaho e Wyoming. O terremoto teve magnitude 3,8, mas não foi sentido pela população.
Na época, o pesquisador George Zandt analisou os registros sísmicos e concluiu que o epicentro estava localizado a cerca de 90 quilômetros abaixo da superfície. O resultado chamou atenção porque colocava o evento muito além da crosta terrestre, já dentro do manto superior.
A interpretação, porém, encontrou resistência. Durante décadas, muitos cientistas consideraram improvável que um terremoto pudesse ocorrer em um ambiente tão profundo sob um continente.
Décadas depois, pesquisadores da Universidade de Utah revisitaram os registros originais utilizando técnicas modernas de análise. A equipe examinou o terremoto de 1979 e outros oito eventos sísmicos suspeitos registrados no norte de Utah e no sudoeste de Wyoming.
Os resultados mostraram que todos tiveram origem abaixo da crosta terrestre, confirmando a existência dos chamados terremotos do manto continental.
A descoberta ganhou ainda mais força após um terremoto de magnitude 4,1 registrado em setembro de 2025 na região de Maeser, em Utah. O evento ocorreu a aproximadamente 68 quilômetros de profundidade, também dentro do manto superior.
Em profundidades tão grandes, as temperaturas e pressões são extremamente elevadas. Nessas condições, os geólogos esperam que as rochas se comportem de maneira semelhante a materiais viscosos, deformando-se lentamente ao longo de milhões de anos.
Por isso, terremotos nessa região são considerados incomuns. Diferentemente dos abalos mais superficiais, que costumam ocorrer em falhas geológicas conhecidas, esses eventos acontecem em um ambiente onde a ruptura repentina das rochas não era esperada.
Outro aspecto curioso é que eles surgem de forma isolada, sem apresentar tremores precursores ou réplicas, características frequentemente observadas em terremotos mais rasos.
Os pesquisadores acreditam que os eventos estejam relacionados ao Cráton de Wyoming, uma antiga e estável estrutura geológica localizada sob partes de Wyoming e estados vizinhos.
À medida que o material do manto flui ao redor dessa estrutura ao longo de milhões de anos, tensões podem se acumular na região de transição, favorecendo o surgimento dos terremotos profundos.
Embora o mecanismo exato ainda não seja totalmente compreendido, os cientistas afirmam que a descoberta abre novas questões sobre o comportamento do interior da Terra e os processos que geram terremotos em regiões consideradas improváveis.