Vênus: estudo investigou o que aconteceria com uma hipotética Lua orbitando o planeta ao longo do tempo (Pexels)
Redatora
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 04h39.
Vênus não tem lua, apesar de ser semelhante à Terra em tamanho, massa e composição. A ausência de um satélite natural intriga cientistas há anos, mas um novo estudo aponta uma possível explicação. O planeta pode ter tido uma lua no passado que, devido à sua rotação extremamente lenta, teria se aproximado gradualmente até colidir com sua superfície.
A hipótese foi proposta por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside (UCR) e publicada na última segunda-feira, 14, no periódico The Astrophysical Journal. Com base em simulações computacionais, a equipe investigou como a interação gravitacional entre Vênus e um possível satélite evoluiria ao longo do tempo.
Os cientistas já haviam considerado duas possibilidades para explicar por que Vênus não possui uma lua. Uma delas é que o planeta nunca tenha formado um satélite natural. A outra sugere que esse corpo teria sido destruído por um grande impacto.
O novo estudo apresenta uma terceira hipótese. Segundo os pesquisadores, talvez não tenha sido necessário nenhum evento catastrófico. A própria dinâmica gravitacional de Vênus poderia ter determinado o destino de sua lua.
Na Terra, a Lua se afasta cerca de quatro centímetros por ano porque recebe parte da energia da rotação terrestre. Esse processo é favorecido pela velocidade com que nosso planeta gira, completando uma volta em aproximadamente 24 horas.
Vênus, por outro lado, leva cerca de 243 dias terrestres para completar uma rotação. Segundo os modelos desenvolvidos pela equipe, essa diferença altera completamente a interação gravitacional com um possível satélite.
Em vez de se afastar, uma lua venusiana tenderia a perder altitude gradualmente, seguindo uma trajetória em direção à superfície até a colisão.
Para testar a hipótese, o astrofísico Stephen Kane desenvolveu modelos computacionais que simulam a evolução orbital entre planetas e luas.
Primeiro, o modelo foi validado reproduzindo corretamente a evolução do sistema Terra-Lua. Depois, os pesquisadores aplicaram diferentes cenários a Vênus, variando tanto a velocidade de rotação do planeta quanto o tamanho de uma lua hipotética. As simulações consideraram satélites com massas entre metade da Lua terrestre e até dez vezes maiores.
Na maior parte dos cenários, o resultado foi praticamente o mesmo: a lua acabava colidindo com Vênus. Quanto maior o satélite, mais rapidamente ocorria esse processo.
Os resultados, no entanto, não comprovam que Vênus realmente teve uma lua. Eles mostram que, caso esse satélite tenha existido, sua dinâmica orbital poderia levá-lo a colidir com o planeta.
Encontrar evidências diretas de uma antiga colisão seria difícil. Cerca de 80% da superfície de Vênus apresenta idade semelhante, o que os cientistas interpretam como evidência de um intenso processo de renovação geológica ocorrido há aproximadamente 1 bilhão de anos.
Esse fenômeno pode ter apagado boa parte dos registros mais antigos. Por isso, possíveis pistas sobre o destino de uma antiga lua poderiam estar preservadas nas camadas profundas do planeta.
Na Terra, estudos sísmicos já identificaram estruturas incomuns no interior que podem estar relacionadas ao grande impacto associado à formação da Lua. Segundo os pesquisadores, medições semelhantes em Vênus poderiam ajudar a investigar se algo parecido ocorreu por lá.
Caso uma lua realmente tenha colidido com Vênus, o evento teria transferido enorme quantidade de energia e momento angular ao planeta. Isso poderia ter alterado sua rotação, sua atividade geológica e até seu clima ao longo da história.
Os pesquisadores destacam que Vênus talvez tenha sido muito mais parecido com a Terra no passado. Se o planeta chegou a possuir oceanos ou condições potencialmente habitáveis, um impacto desse porte pode ter contribuído para transformar esse ambiente.
Além de ajudar a entender a história de Vênus, a pesquisa também pode influenciar estudos sobre exoplanetas semelhantes à Terra. Segundo os autores, a presença de uma lua não depende apenas de sua formação, mas também da capacidade do planeta de mantê-la em órbita ao longo do tempo. Assim, mundos que giram lentamente podem acabar perdendo seus satélites naturais por colisões semelhantes, alterando profundamente sua evolução.