Ciência

Planeta Nove existe? Novas descobertas reacendem debate sobre gigante oculto do Sistema Solar

Objetos distantes além de Netuno desafiam explicações tradicionais, mas evidências recentes também criam obstáculos para a hipótese do misterioso Planeta Nove

Planeta Nove: estudo desvenda mistérios de objeto oculto no Sistema Solar (Imagem gerada por IA/Exame)

Planeta Nove: estudo desvenda mistérios de objeto oculto no Sistema Solar (Imagem gerada por IA/Exame)

Publicado em 9 de junho de 2026 às 07h43.

Há quase um século, astrônomos discutem a possibilidade de um planeta gigante escondido nos confins do Sistema Solar. A hipótese surgiu antes mesmo da descoberta de Plutão, nos anos 1930, quando cientistas tentavam explicar aparentes irregularidades na órbita de Urano.

A ideia original, conhecida como Planeta X, perdeu força após uma revisão da massa de Netuno nos anos 1990 resolver o problema observado. Mas uma nova versão da teoria ganhou destaque em 2016.

Naquele ano, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), propuseram a existência de um novo corpo celeste: o Planeta Nove.

O que é o Planeta Nove

A hipótese está ligada ao Cinturão de Kuiper, uma vasta região além da órbita de Netuno composta por planetas-anões, asteroides e outros corpos gelados. Plutão faz parte dessa estrutura.

Ao analisar objetos localizados nessa região, os pesquisadores observaram que muitos deles apresentam órbitas incomuns e altamente alongadas. Segundo Batygin e Brown, essas trajetórias poderiam ser resultado da influência gravitacional de um planeta ainda não identificado, com massa várias vezes superior à da Terra.

O fenômeno seria semelhante ao que acontece entre a Terra e a Lua. Embora a Lua acompanhe a Terra em sua órbita ao redor do Sol, ela também é influenciada pela gravidade terrestre, o que altera seu movimento observado no espaço.

Da mesma forma, objetos do Cinturão de Kuiper parecem sofrer efeitos gravitacionais que não seriam explicados apenas pela presença do Sol.

A hipótese enfrentou resistência inicial, mas ganhou apoio à medida que novas observações revelaram comportamentos considerados anômalos entre objetos transnetunianos.

Em 2024, Mike Brown afirmou: "Acho muito improvável que o Planeta Nove não exista. Atualmente não há outras explicações para os efeitos que observamos nem para os diversos outros efeitos induzidos pelo Planeta Nove que vemos no Sistema Solar."

As evidências que sustentam a teoria

Entre os objetos que reforçaram o debate está o 2017 OF201, anunciado como candidato a planeta-anão.

Com cerca de 700 quilômetros de diâmetro, ele possui uma órbita extremamente elíptica ao redor do Sol.

Segundo os pesquisadores, essa trajetória pode ter sido causada por uma colisão ocorrida no início de sua história ou pela influência gravitacional de um corpo massivo ainda desconhecido.

A descoberta alimentou o argumento de que existe algo perturbando o movimento dos objetos mais distantes do Sistema Solar.

Os problemas da hipótese

Apesar do interesse crescente, o Planeta Nove continua sem ser observado diretamente.

Uma das principais críticas é que os dados disponíveis ainda são limitados. Alguns pesquisadores argumentam que não existe informação suficiente sobre os objetos do Cinturão de Kuiper para concluir que um planeta oculto seja a única explicação possível.

Outras hipóteses incluem a presença de um anel de detritos distante ou até mesmo um pequeno buraco negro primordial.

Outro desafio é o tempo necessário para estudar esses corpos. O objeto 2017 OF201, por exemplo, leva cerca de 24 mil anos para completar uma volta ao redor do Sol.

Embora seja possível calcular sua órbita em poucos anos de observação, detectar mudanças sutis causadas por interações gravitacionais exige períodos muito maiores.

Nova descoberta complica o cenário

A descoberta mais recente é o objeto 2023 KQ14, identificado pelo telescópio Subaru, no Havaí.

Ele pertence à categoria dos chamados sednoides, corpos extremamente distantes que passam a maior parte do tempo longe do Sol e praticamente não sofrem influência gravitacional de Netuno.

Sua aproximação mínima ao Sol ocorre a cerca de 71 unidades astronômicas (UA), enquanto o ponto mais distante alcança aproximadamente 433 UA. Para comparação, Netuno está a cerca de 30 UA do Sol.

O aspecto mais relevante é que a órbita de 2023 KQ14 parece relativamente estável.

Segundo os pesquisadores, isso sugere que nenhum planeta gigante próximo estaria perturbando significativamente sua trajetória. Caso o Planeta Nove exista, ele teria de estar localizado muito mais longe, possivelmente além de 500 UA.

O problema para a hipótese é que este é o quarto sedenóide conhecido. Os outros três também apresentam órbitas estáveis, apontando para a mesma conclusão.

Por que ainda não encontramos esse planeta?

Mesmo que exista, localizar o Planeta Nove é uma tarefa extremamente difícil.

A região onde ele poderia estar é vasta e distante. Estimativas indicam que uma sonda viajando na velocidade da missão New Horizons, da Nasa, levaria cerca de 118 anos para alcançar uma distância compatível com sua possível localização.

Por isso, os cientistas dependem principalmente de telescópios terrestres e espaciais.

À medida que novos objetos são descobertos além de Netuno, os astrônomos esperam reunir mais evidências capazes de confirmar ou descartar definitivamente a existência de um nono planeta.

Por enquanto, o mistério permanece aberto. O Sistema Solar pode estar completo como o conhecemos — ou ainda esconder um gigante invisível em sua fronteira mais distante.

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